A Gruta do Lou

Velho Matuto

Estive na escola de Administração de Empresas onde aprendi muitas coisas úteis e interessantes para o trabalho de gerir organizações, inclusive direito. Mas a filosofia de administração, para as questões de contas a receber que me foi legada por meu pai, mostrou-se muito mais eficaz, ao longo dos anos. Trabalhamos juntos várias vezes e, apesar de nossas diferenças, nos dávamos bem. O velho era um baita pavio curto e eu com a minha compassividade cristocêntrica acabávamos nos completando. A característica mais marcante dele era o constante destilar de sabedoria caipira, pois para cada dia ou fato ele tinha uma frase típica e engraçada, geralmente.

Uma delas, nunca esquecida é: “Sexta-feira é dia de cachorro louco” e explicava: Gente honesta não paga com cheque na sexta-feira depois do horário bancário. Se quisessem ver o velho tiririca era só fazer algo assim, ele subia a serra.

Esta semana aconteceu a audiência de conciliação, no fórum, para acertarmos o pagamento por meus serviços prestados em duas organizações cristãs voltadas às questões sociais, as duas dirigidas por um Pastor conhecido na cidade. Entramos (meu advogado e eu) com essas ações em 2004 no Tribunal de Pequenas Causas e só agora fomos convocados.

Como estou matando cachorro a grito e a comunidade cristã sabe disso, pois não faço segredo de minhas desventuras, do total cobrado por serviços efetivamente prestados, eles me ofereceram cerca de 18%, certamente confiantes em minha situação de necessidade. Não aceitar a oferta protelaria a decisão para mais uns dois anos e com risco de perder as causas.

O Adalberto (meu advogado que nunca ganhou uma causa a meu favor) não pôde comparecer à Sorocaba, no dia, e convidei a Dra. Maria do Rosário, além de advogada, irmã em Cristo, para me acompanhar. Ela teve algum surto, na hora, encantada com a beleza e santidade do pastor e perdeu a combatividade. Sua única atitude relevante foi me chamar no canto da sala e perguntar-me o que eu decidiria, depois de sugerir um pequeno pedido de aumento na quantia para a quitação de seus honorários. Assim não me restou alternativa a não ser aceitar a bela roba.

Entretanto, tudo isso ainda não foi o melhor. O advogado do Pastor marcou o pagamento para sexta-feira dia 13, através de depósito bancário. Ontem, esperei o dia todo pela grana, pois tínhamos algumas coisinhas sem importância para resolver, tais como vários medicamentos imprescindíveis para o Thomas, alimentos, luz, água, telefone, etc… Às 15:30 hs (o horário bancário encerra às 16 hs) apareceu o depósito, evidentemente realizado em cheque. Assim só terei acesso ao dinheiro na terça feira, se nenhum contratempo ocorrer e na melhor das hipóteses.

Ah! Alguém me diria, e não é pecado cobrar um homem de Deus na justiça? Quando ele me chutou, achou que não tinha a obrigação de me pagar nada. Preferiu dizer aos nossos conhecidos em comum que durante nove meses eu não havia feito nada por lá. Entreguei, na ocasião, uma lista com os valores correspondentes, de todos os serviços de Captação de Recursos e informática prestados, tomando o cuidado de cobrar a metade do valor de mercado, por tratarem-se de organizações cristãs.

Nos dois anos que se passaram entre o chute e a audiência, ele só me ligou, para falar do assunto, uma semana antes da audiência, segundo ele, em consideração à nossa sólida amizade. Durante a audiência o advogado dele repetiu a razão para me pagar aquela fortuna: a nossa amizade e as minhas necessidades. Em momento algum o excomungado lembrou de mencionar os meus nove meses de trabalho que renderam bom dinheiro às duas organizações.

Em outras palavras, eu queria um pagamento honesto por uma jornada honesta de trabalho e não caridade canhestra de gente que só faz explorar pessoas, sob o manto tecido de pele de cordeiro.

Meu pai não teria levado o Pastor às barras da justiça. Talvez não recebesse nenhum tostão pelo trabalho. Não teria cometido esses pecados. Mas o pastor jamais esqueceria dele e da dívida, posso garantir. Caso essa heresia houvesse acontecido, meu velho não teria aceito pagamento em uma sexta-feira, principalmente sendo dia 13, e muito menos em cheque. Certamente.

Agora é definitivo. Farei um levantamento em minha memória de toda filosofia do meu velho matuto para as questões do contas a receber, e prometo usa-la a tempo e fora dele, enquanto viver.

Capricornio PB

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1 thought on “Velho Matuto

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