Uma viagem missionária pelo interior de Moçambique, África.

Saimos cedo de Maputo, em direção norte, no Land Hoover da Sociedade Bíblica de Moçambique, dirigido pelo presidente da entidade, o Felix, um crioulo muito forte, que falava português (a língua oficial do país) e vários dialetos locais. Alem dele, estavam o Carlos Siepierski, o Pastor Jonathan Santos, o Pastor Messias de Londrina, o Haroldo Silva e eu.

Pelo caminho, o Felix parava e dava carona à pessoas que estavam pela estrada. Ora velhos, ora moças que subiam e desciam, o tempo todo. Ninguém viaja muito conosco. Assim vencemos os primeiros duzentos quilômetros. Nosso objetivo era participar do primeiro encontro de líderes evangélicos, depois da revolução marxista no país, liderada por Samora Machel. A nação ainda estava em guerra. As forças do governo enfrentavam milícias rebeldes contrárias ao regime de Samora. Por todo lado víamos destroços ocasionados pelas lutas.

Chegamos a um lugar que parecia um posto de combustíveis. O óleo dísel do nosso carro estava no fim. Mas não havia combustível disponível no lugar. O Felix nos tranqüilizou dizendo que compraria combustível de algum caminhão que estivesse passando. Eles vendiam facilmente, pois era uma forma dos motoristas arrumarem um dinheiro extra. Só me preocupei, um pouco, ao pensar que até ali não cruzáramos com nenhum veiculo, em qualquer sentido da estrada. Como não tinha nenhuma outra opção, só restou esperar.

Em frente ao posto, havia um vilarejo e muita gente andando para lá e para cá. Uns meninos nos viram e, percebendo que éramos brasileiros, foram correndo chamar os amigos e vieram todos trazendo uma bola de futebol. Queriam ver nossa proverbial habilidade com a pelota. Não deu para escapar e batemos uma bolinha com os pivetes.Eles adoraram, especialmente alguns dribles que lhes impusemos. Naturalmente,o Jonathan e o Messias vestidos em seus ternos, se negaram a revelar seus dotes futebolísticos, sobrando para o Carlos e para mim a tarefa, já que o Haroldo não tinha nenhuma intimidade.

Feito o negócio com um caminhão, seguimos viagem até um outro vilarejo, onde paramos para o almoço. Enquanto almoçávamos, sei lá o que, o Felix comprou mais combustível. Assim conseguimos chegar ao local da reunião, distante quatrocentos quilômetros de Maputo, a capital.

Era um campo ao lado de uma casa grande. De um lado estavam as mulheres sentadas em esteiras no chão e, de outro, os homens, sentados em cadeiras de madeira. As mulheres vestiam roupas tipicamente africanas, enquanto os homens usavam roupas européias, calça, camisa e um pano amarrado no pescoço que, como viemos a descobrir depois, eram chamados de gravatas. Ali estavam os principais líderes denominacionais do país. Presidente da Convenção Batista, Presbiteriana, Assembléia de Deus, Metodista e Anglicana. Um deles era o presidente do Conselho das Igrejas de Moçambique.

Fomos apresentados e nos passaram a palavra. O Pr. Jonathan, que viajara conosco como convidado, tomou a frente fazendo-se passar por líder de nosso grupo. Depois convidou o convidado dele, o Pr. Messias, a dizer alguma coisa. Aí o Carlos levantou e pediu para eu saudar os presentes em nome da Missão. Eles narraram-nos, em detalhes, a situação da Igreja em conseqüência da guerra. Não era nada boa. Fatos terríveis lhes foram impingidos pelos dois lados do conflito.

Terminada essa parte. Fomos convidados a jantar. Lá ninguém sai de uma casa se não comer com o dono antes, especialmente se há mulheres solteiras presentes. Após comermos mais uma porção de não sei o que, de novo, tivemos que entrar em uma fila cujo objetivo era lavar as nossas mãos. Trabalho que era realizado pelas mulheres. Elas lavaram, rapidinho, as mãos dos locais e se demoraram muito lavando as nossas. Fato que gerou uma bronca nelas, por parte de um deles (provavelmente o dono da casa), depois que saímos.

Eles encheram o tanque do nosso veículo e pegamos a estrada para voltar a Maputo. Logo depois que saímos, já com à noite estabelecida, o Felix perguntou se alguém podia dirigir no lugar dele, pois estava muito cansado. Como ninguém se habilitou, resolvi assumir o volante, que era do lado direito, com o câmbio à esquerda. A mão de direção nas ruas e estradas de Moçambique é a inglesa, ou seja, é obrigatório trafegar pelo lado esquerdo onde há duas mãos. Tínhamos que cobrir quatrocentos quilômetros e não dava para ir devagar. Estávamos em uma estrada deserta, no meio de um país em guerra. O Jonathan resolveu cuidar para que eu não dormisse ao volante e não esquecesse da diferença de lado, sentou do meu lado e falou durante cinco horas, sem parar.

Por volta da meia noite entramos em Maputo. Deus nos guardou, pois durante todo o tempo daquela viagem nossas vidas estiveram ameaçadas de morte.

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5 respostas para “Uma viagem missionária pelo interior de Moçambique, África.”

  1. Quando recebi dois moçambicanos em minha casa, eles ficaram escandalizados com a quantidade de café que a gente bebe no Brasil. Para eles, isso é droga de estudante que precisa passar a noite sobre os livros…

  2. Lou, hoje você recordando tudo isso dá uma saudades, nao é?

    E ver como Deus estava tao presente em todos os caminhos onde os pés de vocês pisaram.

    Acho que estamos precisando colocar os nossos pés mais por esses caminhos. Aqui nas cidades grandes onde vivemos nao tem nada disso. É uma guerra de interesses e egoismo próprio.

    Linda, linda a sua experiência.

    DTA.

    Abracos

  3. Pingback: Lou Mello

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