A Gruta do Lou

Uma questão de leitura

Assisti recentemente uma matéria com a escritora norte americana Mary Gordon, via TV e no Caderno 2 (Cultura) do Estadão, domingo 20 de dezembro do longinquo ano de 2009, li uma longa entrevista dela. A razão desse barulho todo e do meu interesse, foi o último livro dela “Reading Jesus“, ainda sem título na língua tupiniquim. Não li o livro ainda, apesar do custo baixo. Razões técnicas me impedem de solicitá-lo junto ao Amazon.com, apesar de minha sociedade com o site. Entretanto, algumas afirmações da autora aguçaram meus dedos e resolvi teclar minhas conjecturas.

Apesar de católica, a autora não demonstra interesse em atitudes sectárias, mesmo sob a insistência dos repórteres. Por outro lado, declara ter se indignado, de saída, com as últimas interpretações dadas pelos pastores evangélicos ao texto dos evangelhos: “Os fundamentalistas sequestraram o evangelho e Jesus, atribuindo-lhe declarações que ele nunca fez”. Ela tirou essas palavras dos meus pulsos, mais um pouco e eu mesmo as teria teclado. Mesmo usando as mesmas frases, eles subvertem o sentido e utilizam segundo seus radicalismos conhecidos.

Tempos atrás, a Associação Brasileira das Comunidades Terapêuticas Evangélicas (ou algo assim) me convidou para fazer uma palestra de Hermenêutica, sobretudo, mencionando o utilitarismo da Bíblia no tratamento dos dependentes químicos. Fiz ousadas asseverações e, por pouco, não foi necessário solicitar um camburão da polícia para me tirar de lá com vida. “Jesus também nos deixou uma orientação ética valiosíssima e radical”, diz a Mary Gordon e tentei convencer aqueles brasileiros e brasileiras sobre esse ponto, ressaltando a rota desviada com a qual eles estavam usando os textos dos evangelistas bíblicos.

A grande maioria dos membros de nosso clube, ortodoxos em pele de liberais comunistas, embora consideremos a interpretação desses pastores equivocada, nos sentimos pasmos com o sucesso por eles obtidos junto à malta: “Eles interpretavam o Evangelho de uma forma que me parecia realmente grotesca e obtinham muito sucesso. O que tentei foi perguntar: “Por que tiveram tanto sucesso” ao invés de ficar dizendo que eles são horríveis e maus”, comentou a Mary. Confesso sentir grande incomodo com a postura dos meus colegas ao abordar a hermenêutica e a eclesiologia desses evangelistas da Nova Era.

Tive oportunidade de mencionar anteriormente, um acontecimento “sui generis”, por mim presenciado há longo tempo, quando um celebre pastor, batista e membro dos Vencedores por Cristo, foi à Igreja Batista de Perdizes e falou, à uma platéia de cerca de quinhentos jovens e adolescentes, da pecabilidade do sexo antes do casamento. Em outras palavras, condenou a maioria dos presentes, inclusive eu, embora fora dessa classe, gerando sentimentos de medo e raiva e, consequentemente, culpa, sem falar no mal estar geral: “Eles falavam em termos emocionais e as emoções que despertavam eram, principalmente, medo e raiva” expressou a D. Mary sobre os pastores evangélicos. Essa gente costuma fazer isso, até dormindo.

“Mas sei que há um espectro emocional maior e suponho existirem pessoas que queiram uma experiência religiosa com fundo emocional, mas não histérica. Pessoas que não querem excluir a razão nem o intelecto dessa experiência, nem a faculdade analítica, mas que também incorporem a leitura dos textos dos Evangelhos. Quis oferecer uma alternativa aos fundamentalistas”, Mrs. Gordon tentando justificar seu “por que escrever”. Também me pergunto, o tempo todo, que mal há em oferecer a outra face aos nossos inimigos. De repente, ainda conseguimos resgatar alguns, em meio a essa lama toda.

Como essa mulher norte americana, sou pós moderno o suficiente para saber que não existe uma leitura inocente. Você sempre traz para a leitura sua Vida e seus preconceitos e ela expressou isso, desse jeito. Em outras palavras, ao fazer interpretações oportunistas e mal intencionadas, aqueles crápulas estão falando deles mesmos e isso é comum a todos nós, mesmo com nossa hermenêutica de caráter diverso.

De todo jeito, tanto os pastores evangélicos dessas novas correntes interpretativas, quanto seus opositores, insistem nas questões relacionadas ao comportamento. Trocaram o “Proibido Fumar e beber” pelo “Daí e  ser-vos-á dado”, mais evangélico, apesar de fora do contexto. A isso, Mary Gordon atira uma grande pérola aos porcos: “Bom comportamento não interessa, especialmente a Jesus. O tipo de justiça que interessa a ele é o amor além do merecido”.

Agora só nos resta entregar a nossa mão à palmatória de Mary Gordon, particularmente diante de sua afirmativa final: “Ele (Jesus) nos força a pensar em novos termos”.

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