A Gruta do Lou

Uma mulher de rua

Sexta-feira, Junho 16, 2006

Havia uma mulher de rua, perto de onde eu morava, que caminhava diariamente com seu big saco nas costas e, por força do meu caminho, eu caminhava perto dela, muitas vezes. Ela conversava enquanto caminhava, embora não houvesse ninguém conversando com ela, pelo menos visível. Então, comecei a me perguntar afinal, com quem ela conversava ou pensava conversar? Um dia, consegui entender aquilo, finalmente. Ela conversava com o próprio ego.

Percebi, então, que ela não era a única a fazê-lo. A grande maioria das pessoas está conversando com o ego, grande parte das vezes. E mais, até eu vivo a conversar com o meu ego.

Em Análise Transacional, o ego é formado por três estados (Pai, Adulto e Criança) que se subdividem em outros tantos. Portanto, temos muito a conversar internamente. Não pretendo entrar no mérito da questão, agora. Mas destacar o fato de achar muito engraçada a percepção desse detalhe, ou trágica, pois, o ego não é uma pessoa, nem mesmo chega a ser a própria. O ego é uma espécie de sabotador interno e, quase sempre, detona a pessoa propriamente dita.

A primeira grande variante, nesse caso, vem a ser a atitude de externar as opiniões do ego. Dificilmente conversamos com a outra pessoa. O que acontece, no que imaginamos ser um dialogo entre duas pessoas, é um diálogo entre dois egos, ou na melhor das hipóteses, uma pessoa conversando com um ego (da outra pessoa no caso).

É o ego que armazena as convicções teológicas dogmáticas, as normas paternas de coação e dependência, as limitações pré-concebidas ensinadas pela família, professores e participantes de nossa formação e vai por ai. Gosto de pensar que Jesus se referia ao ego quando falou a parábola do trigo e do joio.

Dou boas risadas (por dentro, claro) quando vejo as pessoas dando saída à voz de seus egos. Cuidado ao atravessar a rua, olhe para os dois lados, viu! Não esqueça de levar o agasalho! Se sentir sono, não dirija! Fale de forma positiva! Cuidado com os barbudos, eles não prestam! Acredite na inerrância bíblica! Os fundamentalistas estão sempre certos! Mulher que usa maquilagem não presta! E tal…

É o ego manifestando-se.

Dificilmente, encontramos uma pessoa expressando uma opinião adulta e, verdadeiramente, pessoal, fruto de sua própria reflexão e conclusão. Gosto de questionar as frases que aparecem em meu interior. Muitas vezes, percebo serem opiniões de outras pessoas e até sou capaz de identificar o autor. As vezes, quando estou conversando com minha esposa, escuto frases inteiras de minha sogra. Quando estou em dificuldades, identifico as frases prediletas de meus pais: esse ai não vai dar em nada, vagabundo, igualzinho ao pai, vai ao supermercado e só compra porcarias.

Creio ser necessário desativar o ego e resgatar a nós mesmos, com muitas orações, inclusive.

Se não, acabaremos como aquela mulher de rua, na melhor das hipóteses.

# posted by Lou @ 2:16 PM

1 thought on “Uma mulher de rua

  1. Muito bom. É pena que um post tão bom tenha a letra tão pequenininha (mas isso é o meu ego com a mania das grandezas…lol)

    Abraços fortes amigo Lou

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