A Gruta do Lou

Uma história para esquecer

A Páscoa sempre me incomodou. Desde menino, a sensação misturava o horror da paixão de Cristo com algum alento em forma de chocolate no domingo. Com o passar dos anos, como se construísse um muro, a cada novo tijolo e uma nova percepção extraída da narrativa da via dolorosa minha tendência humana para o distanciamento da derrota e das imagens de dor e sofrimento foram sendo divididos com a consciência do ato de salvação e redenção do filho único de Deus.

Filho de um bom pintor, logo cedo descobri o poder da imagem. A emoção causada pelas imagens imaginadas de Jesus de Nazaré percorrendo os corredores da páscoa, com aquela cruz infame nas costas, a coroa de espinhos enterrada em sua cabeça incomum e as marcas da violência produzida pela abominável raça humana por todo o corpo, na forma dos açoites, chutes, pontapés, socos e cusparadas formam um quadro grotesco e insuportável.

Como cristão, pesa sobre mim a vergonha daqueles dias. Não estava lá, não gritei pela soltura de Barrabás e não gritei para Cristo salvar a si mesmo, se era capaz de salvar os outros. Mas se estivesse, temo que concordasse em fazer tudo isso, tanto quanto meus irmãos daquele tempo fizeram. Sou absurdamente humano. Depois que li A Metamorfose de Kafka, pisar um inseto nunca mais teve o mesmo sabor. Durante toda a minha vida, passar pela Páscoa tornou-se, cada vez mais, uma grande e sofrida luta contra a minha abominável culpa e por minha participação na qualidade de pecador, naquele episódio horrendo cujo resultado foi o nosso perdão.

Nunca mais, em qualquer tempo ou era, haverá ato mais despojado e libertador do que esse. A capacidade linear, para trás e para frente, da morte vicária de nosso senhor Jesus Cristo é inigualável. Eu poderia ajudar a matar mais alguns milhões de cristos, ao longo da história, mas não daria um centavo em favor de nenhum tolo capaz de dar sua vida por mim. Especialmente por alguém cujo ato eucarístico passou-se tanto tempo antes de minha gloriosa existência.

Eu não merecia todo esse amor e sinto-me miserável ao lembrar dessas imagens e muito pior em entender seu significado.[ad]

OPS: Aos amigos e leitores que reivindicaram um post sobre a Ressurreição de Cristo, a sugestão é utilizar o serviço de pesquisa gratuito da Gruta e digitar a palavra (Ressurreição) e depois clicar na lupa, se estiver utilizando a opção do topo, ou em pesquisar, se estiver utilizando a outra. Garanto um resultado surpreendente.

18 thoughts on “Uma história para esquecer

  1. Você disse tudo, vi poucas difinições tão exatas do significado da páscoa. Confesso que também me sinto envergonhada, como cristã, cada vez que vejo imagens ou ouço relatos que lembram tão grande horror vivido por Cristo. Por outro lado quando contemplo todo amor contido em cada gota de sangue vertida de seu corpo em favor de mim é impossível não chorar, como faço agora. Jamais, em tempo algum, vai existir sentimento vivido de forma tão intensa quanto como Cristo nos amou.
    Te amo Jesus!

    Amém!

  2. Pingback: Lou Mello
  3. Agora estou deprimido. Espero que domingo vc escreva algo sobre a ressurreição.

    Também acho a paixão deprimente, mas não fiz nada para evitá-la, mesmo depois de saber seu significado. Escrever sobre a ressurreição pode ser uma boa idéia, embora tema a reação do pessoal, desde já.

  4. Mas que bom que fomos perdoados! Fomos amados e Ele nos fez livres.
    A cruz esta vazia! Aleluia!!

    E a cruz fica muito melhor assim.

  5. EU CHORO, TODA VEZ Q ME VEJO PENSANDO NO SOFRIMENTO DE CRISTO POR MIM. A DEVOÇÃO DELE POR NOSSA SALVAÇÃO ME FAZEM CHORAR. AINDA NÃO HAVIA ME SURPREENDIDO NESSES MOMENTOS DE PÁSCOA MAS AGORA DEPOIS DO QUE LI. SINTO TRISTAEZA PROFUNDA NESSE MOMENTO E AINDA QUE REGOZIJADO PELO PERDÃO, CHORAREI

    Obrigado por sua visita e comentário.
    Não há outra atitude possível diante da paixão de Cristo, creio.

  6. Não é necessário esquecer a história…mas fomos
    libertos através dessa história,estamos livres,
    não é necessário sentir mais culpa,nem tristezas…
    De que adianta o sacrifício vivido por Cristo,se
    continuamos querendo sentir as suas dores,nos martirizando…eu acho,sinceramente, que não é isso
    que o Pai espera de nós.

    Isso. Por que não esquecemos de uma vez com todo aquele horror e ficamos com o resultado? Exaltando a Graça, o perdão e a nossa inclusão, apesar de sermos seres especiais.

  7. “e muito pior em entender seu significado”.

    Pena que nem todos tenha a compreensão disso. Acho que essa é a grande frase do seu texto. Certamente o melhor dos últimos tempos.

    O saber pode ser um fardo insuportável. Mas não chegaremos a Deus e seu Reino sem suportar as dores da revelação.

  8. Hoje estou triste, por dentro desejava ler alguma coisa bem deprimente e sem saída, pincelada com as cores fortes do niilismo religioso. Acesso o seu blog esperançoso de encontrar a falta dela, mas o que vejo! Um texto bem escrito e bem otimista falando entre as linhas e por sobre elas, no meio ao lado delas, de um amor louco por pessoas não menos loucas. Sabe de uma coisa…obrigado Lou, somente com pessoas desprezíveis assim como eu e vc é que a graça poderia funcionar tão loucamente como só ela sabe ser

    De nada, mas não fiz nada por isso. Como você bem disse, sou apenas mais um desses loucos desprezíveis, como você, onde a graça acha campo fértil para crescer e se refestelar.

  9. Jesus de uma vez se fez pecado e derramou-se em amor por nós. Entregou-se e nos redimiu.
    “eu não merecia todo esse amor”. Como disse o poeta: “Essa cruz não, era dele, essa cruz era minha”. A cruz para mim, ainda é um grande mistério, porém e muito mais que isso, ela trás para todos nós, A GRANDE, TOTAL E COMPLETA LIBERTAÇÂO.

    Só falta conjugar o verbo no pretérito. Já era. Fomos libertos antes mesmo de ser escravos.

  10. Quando era pequena eu morria de medo dessa história, tinha medo também, creio que até hoje, de um hino chamado Foi na cruz. Sempre evitei ler esses textos, e assistir Jesus de Mel Gibson nem pensar.

    Numa internação psiquiátrica que tive, entrei em pânico ao ver uma biblia do lado da cama, precisei chamar um enfermeiro e perguntar se ali tinha a historia da crucificação, e se tivesse, pra ele levar a biblia embora do quarto.

    O enfermeiro que se chamava Isaque, não levou a biblia embora, abriu e leu calmamente para mim toda a cena da crucificação. Por incrível que pareça eu acalmei, e aceitei a medicação, que vinha recusando.

    Pô, porque você fez eu lembrar disso?…

    Putz! Um enfermeiro, chamado Isaque, lendo a bíblia no Novo Testamento e com calma, xiiiiiiiiiiiiii. Devia ter desconfiado e ficarias livre da medicação. Os laboratórios farmacêuticos foram concebidos no Hades. 🙂 Nem precisa perguntar: dor de cabeça? Aspirina.

  11. Pois não Sr., Lou, o Sr.está certo. “Essa cruz não era dele, essa cruz JÁ era minha.”
    Como disse você ao Adiron: “O saber pode ser um fardo insuportável. Mas não chegaremos a Deus e a seu Reino sem suportar as dores da revelação. “Nós como sacerdotes, e a bíblia diz que somos, poderemos enfrentar essas dores, sabendo, ENTENDENDO, e muitas vezes vivendo nosas dores também, como humanos que somos.
    endividadas,enfermas,maltrapilhas,maltratadas,desprezadas doloridas…

    Meu amigo Khalil costuma dizer essas mesmas palavras. Começo a achar que ele tem alguma razão.

  12. Dizem que a filosofia se renova de tempos em tempos, e que o filósofo busca uma forma de redenção solitária. Como acoplar a cruz do Calvário a tudo isso? Palhaçada!! Cruz de nosso Senhor representa algo muito além do pensamento humano, algo inexcrutável e maravilhoso, impossível de ser explicado! Mas felizmente ele foi só!

    Mesmo porque, quem estaria apto a acompanhá-lo? Os que estavam por lá se escafederam e assim tem sido ao longo da história.

  13. Lou, poderia me responder uma pergunta? o Khalil e a Laila tem filhos?
    Sabe, conforme conversamos, alguns podem sofrer bem mais e outros menos, mas o tamanho do sofrer humano, não significa que os que sofrem mais, sejam aqueles que necessáriamente entendam mais ou melhor a Cruz ou o Sacrifício de Cristo, mas pesa a alguns a quem foi especialmente revelado maior responsabilidade, SALVO ENGANO.

    Eles tem dois filhos, um casal. O rapaz chama-se Eduardo Farid e a moça Vanessa Hayat Ele estuda na França, atualmente, e ela casou-se e vive em Milão, com o marido onde dividem um escritório de arquitetura. Se quiser saber mais sobre a família do Khalil, veja aqui.

  14. Essa responsabilidade que menciono acima, é responsabilidade dada por Deus a alguns, para conduzirem, ampararem, cuidarem, darem suas vidas como pastores se dão pelo seu rebanho, como nessa Gruta aqui, onde todos os dias buscamos, palavras de consolo, exortação, empatia e pasmem, de ânimo rssss. Obrigada, Lou

    A sensação é de estar sempre aquém da responsabilidade. Espero que o maioral considere os contras e seja indulgente comigo no dia do julgamento. Se for inferno, que seja no brasileiro. 🙂

  15. LH, convenhamos que o título é sugestivo e casa perfeitamente (sic! casamento perfeito?) com o fato de que fazemos o possível para fazer ouvidos de pastor, digo, de mercador, para as assertivas inconvenientes do doido: a) “quem for doido também e quiser me seguir pegue a sua cruzinha e entre na fila” e b) “ah, vocês gostam de mim e desejariam passar a eternidade todinha do meu lado? Pois bem, você tem a manha de beber essa lapada de cachaça pura que eu vou beber?” (atenção: metáfora, certo?)
    Os entendidos do assunto usam a cruz como metáfora, é a mesma coisa de dizer que a miséria do terço da humanidade crucificada hoje é um problema psicológico, para cuja solução bastam algumas horas de meditação sobre a cruz…

    Pois é, às vezes pensar sobre tudo isso nos leva a essas conclusões paradoxais. Gosto dos caras que falam para as pessoas ricas, bem casadas e felizes para abandonarem tudo e seguir a Jesus e seu calvário. Seria hilário, se não fosse trágico.

  16. Seus problemas acabaram: a Gruta agora tem moderação de comentários…

    Na verdade, por decisão do CEG (Conselho de Ética da Gruta) é preciso registrar o E-mail, coisa que acontece logo no primeiro comentário. Mas, quando a mesma pessoa comenta com um novo E-mail, o processo se repete, pois nosso robô não pensa, ainda. Mas estamos trabalhando para mudar isso.

  17. Esqueci: a MatthëusPassion, de João Sebastião Ribeiro, ou a JohanesPassion não aliviam em nada, mas a angústia ganha uma espécie de nobreza tão sutil que vale o tempo dedicado. Evangelho: a dor é bonita!

    Em nossos dias essas palavras, embora verdadeiras, estão cada vez mais difíceis de serem pronunciadas. A angústia de Cristo que produz a salvação de toda a humanidade. Mas quem está interessado?

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