Um passo além de partir


Outro dia, nosso amigo Roger do blog A Teologia Livre postou algo sobre o que ele denominou de “O Clube da Capa Envelhecida” (ou encardida) considerando o que segue:

“Servindo de orientação para uma linha de ideias relativamente novas e revolucionárias para a sua época, seus autores advogavam justamente a tese de que não havia nenhuma linha nova de ideias e que, eles mesmos, não eram orientadores de nada”.

Na rápida lista que fez desses autores, imprudentemente, ele incluiu o meu nome. Nos comentários aproveitei para brincar com isso pois havia sido incluído com meu pseudônimo Lou Mello e não com meu nome de batismo, que eu mesmo pouco uso. Em cima do comentário, Rubinho e Nelson Costa, rápidos como são, aproveitaram para aumentar a minha responsabilidade nessa história, sendo que o Nelson chega a me nomear o pai da coisa toda.

Talvez eu tenha idade para ser pai de alguns, já outros não. Mas é só isso, se não me engano. Claro que embarquei nessa linha desde o principio, quando comecei a escrever o blog, lá pelos idos de 2005. Naquela época, a editora Mundo Cristão lançou, com tradução do Paulo Brabo (outro da lista e o mais eloquente de todos nós, talvez) O Evangelho Maltrapilho do Brennan Manning, se não me engano, o primeiro dos livros com capa envelhecida, artificialmente, lógico, nessa linha ideológica. Livros com capas envelhecidas naturalmente eu os tenho aqui aos montes e eles não dizem nada sobre a crise de ideias em que nossa geração chafurdou. Penso que esses acontecimentos começaram sim a dar uma espécie de novo tom para o que viria a seguir e, aos poucos, começaram a pipocar novos (uns nem tanto, falo de mim) pensadores via blog e aos poucos via livros, também. Sem falar que quase todos, se não todos, são ótimos preletores.

Também descobrimos ecos importantes fora das nossas fronteiras, tais como o pessoal da Igreja Emergente, com destaque para o Brian McLaren, o Steve Knight e o combatido, mas competentíssimo Rob Bell.

Entretanto, devo fazer justiça a pensadores mais velhos do que todos nós como Schopenhauer , cujo artigo no Wickipedia menciona que com sua análise metafísica da vontade, sua visão da motivação e desejos humanos, e seu aforístico estilo de escrever influenciou muitos dos melhores pensadores incluindo Friedrich Nietzsche,[3]
Richard Wagner, Ludwig Wittgenstein, Erwin Schrödinger, Albert Einstein,[4]
Sigmund Freud, Otto Rank, Carl Gustav Jung, Leo Tolstoy, Thomas Mann, e Jorge Luis Borges.

Esses, por sua vez influenciaram pensadores como os mencionados na lista do Roger, mas antes, alguns dos chamados teólogos da libertação, como e exemplar Rubem Alves. Claro, sempre há aqueles que leem tudo o que os outros leram, andam com eles e não entendem nada. Refiro-me ao Genésio (um cara que usa o pseudônimo Leonardo Boff) que pegou essas preciosidades perolisticas e as atirou aos porcos ou essa gente oportunista que vive fazendo política partidária canhestra.

Acontece então, que Rubem Alves já em adiantado estado de decomposição, sabe-se se lá por que, vai à uma Igreja evangélica denominada Besteda para re-lançar um de seus livros sobre a ultrapassada Teologia da Libertação, ou como os promotores chamaram o evento, libertar a teologia. Essa igreja tem como papa, ninguém menos do que o pastor Ricardo Gondim. Por uma dessas coincidências inexplicáveis, pouquíssimos dias após esse evento e se dizendo um influenciado pelo velho e bom escritor da noite autográfica, Ricardo resolve declarar-se fora do que ele chama Movimento Evangélico ao pendurar na porta de seu site o texto Tempo de Partir contendo suas quatro teses motivacionais. Ai é preciso dar o devido desconto, Lutero escreveu noventa teses quando dissídio do movimento evangélico da época dele, mas era alemão e você sabe como esses caras gostam de escrever e escrever.

Em um primeiro momento, fiquei preocupado, mas pensando bem, achei essa atitude um avanço. Aliás, a menção ao post do Roger lá no site dele foi a glória. Ainda que indiretamente, essa foi a primeira citação que ele fez à Gruta e a mim, por inclusão. Mas foi bom. Agora, papai aqui não está satisfeito não, como sempre. Na verdade, o Gondim não se despediu do tal Movimento Evangélico. Para mim ele foi despedido sonoramente quando tomou aquele pé nas regiões glúteas da Revista Ultimato. Eles não disseram, mas eu estou dizendo. De qualquer forma, ele está formalmente declarado “fora” e o parabenizo.

Para uma satisfação completa e uma disposição de receber a carta dele para fazer parte de nossa igreja, a dos desigrejados (ou dos sem igreja), o que seria um passo muito além dessa história de deixar ou partir do e/ou o Movimento Evangélico, eu lembro que a condição “si ne qua non”, para tanto, é a vitima não pertencer a igreja institucional nenhuma. Como afirma o Tuco Egg em seu excelente livro “Igreja entre aspas”: “Se queremos salvar o cristianismo deste lado do mundo, a primeira coisa a fazer é libertá-lo da Igreja”. Não sei se o Ricardo cumprirá nossa regra áurea algum dia, suponho que não e também que será a melhor preferência de seus paroquianos. Mas ele está a caminho e oraremos (nós os habitantes da Gruta) para Deus completar a obra. Isso, sim, será para ele uma teologia da libertação.


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