A Gruta do Lou

Um passo além: Andar sobre as águas

Dizem os mais espirituais que Deus prefere falar conosco durante a madrugada. Não sei ao certo, mas posso adiantar minha experiência. O anjo protetor designado ao meu filho Thomas, cujo nome é Raniel, o anjo mais esculachado da força angelical e não menos anjo, pois tem suas asas e é fiel, apesar de ser exótico. É briguento e gosta de uma boa farra, sem falar no seu visual, habitualmente desleixado e acima do peso. Costuma aparecer durante as madrugadas e gosta de conversar comigo.

Como já informei anteriormente, tenho uma espécie de dom, ou sei lá o nome disso, sou capaz de ver e falar com anjos. O Raniel, depois de sua visita de rotina ao Thomas, aparece em meu quarto, senta em minha cama espera até eu acordar. Claro que contribui pigarreando e com sua respiração sempre ofegante, devido ao excesso de gordura, acho.

Noite dessas, batemos um papo longo. Ele deve ter percebido meu estado catatônico, ou algo assim, e resolveu me dar uma força no dia da sua ronda. Às tantas, disse-lhe não entender por que, mesmo tendo Jesus nos libertado da maldição, continuávamos vivendo sob os efeitos dela.

A saber, quando Adão e Eva, aqueles dois cretininhos, pecaram (segundo a crença dos mais incautos), comprometendo toda a humanidade, uma maldição anexa se instalou na vida de todos. Ela se compõe de trabalho pelo sustento durante a vida toda, para os homens, dores de parto para a mulher e morte pelos pés da mulher para a serpente (essa a única que não se cumpriu, devido ao horror das mulheres em relação às cobras), a partir dali. Então o Raniel disse, mais ou menos, o seguinte:

– Olha Lou, essa tem sido a nossa maior dificuldade pois, para todos nós do céu, vocês estão libertos, mas vivem como se não estivessem. Nós assistimos, nesses mais de dois mil anos, boa parte da humanidade indo às igrejas estudar a Bíblia, particularmente toda a via sacra de Cristo e sair para continuar vivendo exatamente da mesma forma, como se não fosse. Sem falar nas outras práticas religiosas que além de não revelar, ainda embaralham mais a cabecinha da galera.

Então eu lhe disse:

– Pois é, me sinto péssimo por conhecer e não ser capaz de viver sob a nova realidade.

– Lou, você precisa dar o próximo passo. Não posso lhe dizer qual é. Estamos proibidos de revelar-lhes esse ponto, pois o Pai deseja que cada um descubra por si mesmo. Mas posso lhe dizer algo: Todos que chegam ao ponto em que você está, conseguem. Bom, um ou outro talvez não tenha conseguido, entretanto, tenho certeza de seu sucesso. Falou com convicção.

A conversa continuou ainda por bom tempo, se bem que, depois que termina e ele se vai, percebo que o tempo não passou. De fato, não posso imaginar qual a cara do tal “próximo passo”. Imagino ser um passo de fé, ou aquela história de caminhar sobre a água, tão bem demonstrada por Jesus e Pedro. Nessas horas, morro de inveja de Pedro. Talvez, por isso tenha dado esse nome ao meu filho. Sinto-me como areia movediça. Não tenho a menor consistência.

Agora, o Raniel ter dito aquilo com toda a convicção, ou seja, ter certeza do meu sucesso e querendo dizer que conseguirei decifrar esse enigma, foi bom demais. Apesar de esculachado, nunca é tarde para lembrar: anjos não mentem, nem o Raniel, sob pena de perder as asas.

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11 thoughts on “Um passo além: Andar sobre as águas

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Vc, um sucesso?
    Faz-me rir…
    Mas… e se for? E se for verdade que vc é um sucesso e que o conceito geral de sucesso é que tá errado?
    Isso significaria que estar na Gruta é “status”… Manero!!!
    Quanto ao próximo passo, vc nunca vai dar. Porque se deu, não é o próximo; se é o próximo, é porque ainda não deu… entendeu?

    Sim, e você está certíssimo, afinal, se o próximo passo for mesmo andar sobre as águas… Até tentei (que ninguém nos ouça) uma vez, mas acho que falta algo em mim, ou algo assim. Se não soubesse nadar bem, não estaria aqui respondendo seu comentário. 🙂

  3. 🙂 🙂 🙂 🙂
    Agora ri que foi bom. Vamos fazer malabarismos no circo sim, desde que existam redes.

    Já pensou, Lou, naquele Grande Dia: Achegai-vos, benditos, agora, quem tem ouvidos ouça> O Lou é quem tava certo!

    Vai ser bom demais.

    Bom demais também é o conselho do Raniel: “Lou, você precisa dar o próximo passo. Não posso lhe dizer qual é.” Hilário!

    Pior é o chefe dele que não diz nada.

  4. Hum… o Raniel é gordinho? Pode ir de olhos vendados,
    e confiança em dobro, você com certeza já sabe pra onde
    deve ir.

    Os gordinhos são confiáveis?

  5. Confiáveis??? Uai!!! Peso em dobro, confiança em dobro,
    fome em dobro, espaço em dobro… e assim vai…

    Nossa, assim acabaremos pensando em dobro sobre como você vê os gordinhos. 🙂

  6. Ô Lou…conta mais desse lance de ver anjos aí…

    De vez em quando eu sinto uns arrepios e a porta tá fechada…

    Olha, algo que aprendi sobre anjos é que eles não assustam. Quando nos visitam, emitem uma onda, tipo frequencia de rádio, com o objetivo de acalmar a vítima e funciona. Quando eles se vão, ficamos incrivelmente calmos. Até murmuramos: Nossa, de repente estou sentindo uma sensação boa, do nada!

  7. Mas era disso mesmo que eu falava. De vez em quando eu sinto um arrepio bom, que me deixa leve, com aquela leveza de sensação de pós banho. Bom demais. Mas ele ainda não me apareceu, nem me disse seu nome.

    Como já informei, para vê-los, falar-lhes e ouví-los é preciso ter o dom. Não sei qual o critério deles para conceder e nem sei se é bom ter. Às vezes me sinto péssimo vendo anjos para todo lado. Pior é a insistência deles para eu ajudá-los com todo tipo de encrencas. Melhor não ouvi-lo.

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