A Gruta do Lou

Um figurante muito participativo

laila-abdala-headshot_0

Laila

Essa história me foi contada, em Israel, por um amigo querido: o Ben Yaacov. Ele e a filha Abi mantêm uma pousada e restaurante na estrada que liga Beersheba a Pardes Hanna. Os conheci por acaso ou segundo alguma intenção divina mística.
Sei lá. Estava viajando para o norte, em meu Land Rover, e comecei a sentir-me cansado. Imaginei fazer um esforço para chegar, mesmo que ao anoitecer, ao meu destino, pois isso me pouparia tempo. Naquele momento, comecei a sentir cólicas e clamei por algum lugar onde pudesse parar e fazer alguma coisa para interromper aquelas dores. Foi quando avistei a placa, quase invisível, da pousada. Entrei e dirigi até a frente da casa grande, onde haviam vagas para estacionar. Desci do jipe disposto a gritar por socorro, mas percebi que as cólicas pareciam ter dado uma trégua. De qualquer forma, decidi tomar algum líquido, lavar as mãos e o rosto, olhando para umas mesas sob um toldo, a uns trinta metros dali.

Sentei em uma cadeira e logo fui atendido por uma jovem de modos angelicais. Tive a sensação de já conhecê-la. Cumprimentou-me de forma inusitada, dizendo que eu era uma pessoa muito abençoada. Pelo menos foi o que entendi. Meu árabe não é grande coisa. Diante do meu esforço para tentar fazer um pedido ela percebeu meu sofrimento e perguntou, em inglês, de onde eu era, sugerindo Síria ou Jordânia, não sei por que. Quando eu disse Brasil, ela soltou um lindo sorriso e falou em bom e sonoro português de Portugal que ela e seu pai eram judeus portugueses, nascidos em Loures, nas cercanias de Lisboa. Resolveram migrar para a Terra Santa por ocasião da morte do avô, que lhes deixou a propriedade. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, pediu licença e voltou para o lado de dentro do restaurante e pude ouvi-la falando com o senhor atrás o balcão. Logo ela voltou, trazendo o homem com ela. Era o pai. Começou assim uma grande e indissolúvel amizade.

Resolvi não seguir viagem naquele dia e fiquei na pousada. Na verdade, não viajei nem no dia seguinte. Aquele lugar é mágico. Você não se dá conta, mas bastam poucos minutos para você ser cooptado para um clima de grande espiritualidade, alegria e de histórias fascinantes sobre civilização judaico-cristã.

Abi serviu-me uma taça de vinho israelense e Ben me perguntou qualquer coisa sobre Jesus. Não lembro exatamente o que era. Mas citei a entrada triunfal do Salvador em Jerusalém, no chamado domingo de Ramos. O homem silenciou por um instante, coçou a barba branca e disse:

José o vesgo fez uma narrativa fantástica dessa passagem.

Quem? Respondi perguntando.

José Vesgo. Ele foi um dos personagens dos tempos de Jesus, não citados explicitamente nos textos sagrados conhecidos. Segundo consta, ele era uma dessas pessoas rotuladas de “muito chato”. Sabe, um sujeito que chega e todo mundo logo arruma uma desculpa para cair fora? Esse era José Vesgo. O nome diz tudo. Era estrábico, daqueles que olha para você e você jura que ele está olhando para alguém do outro lado da sala e, pior, olha para lá procurando a pessoa. Ele esteve em todos os eventos narrados pelos evangelhos. Sempre que leio, na Bíblia, coisas como as multidões, ou havia pessoas ali, estavam no barco, etc. vejo José Vesgo. É como o quarto mago ou o décimo terceiro discípulo. Estava lá, mas poucos sabem. Recebemos os relatos sobre suas aventuras ao lado do Cristo através da tradição oral. Aqui, todo mundo sabe quem é José Vesgo. Aliás, quando queremos brincar, dizemos: Assim falou José Vesgo.

Ele tinha sérias dúvidas sobre Jesus. Nunca embarcou muito na pregação daquele homem carismático e atraente. Vesgo vivia se perguntando, a cada nova palavra: Quem está dizendo isso? Deus, o homem ou o Deus-homem? Apesar de chato, dizem por aí, Vesgo nunca ousou dirigir a palavra ao mestre. Conversou muitas vezes com os outros discípulos que viviam a evitá-lo. Contam que quando Jesus chamou Zaqueu na árvore, Vesgo estava pendurado ao lado do velhaco e jurava que o chamado foi para ele, mas Zaqueu não perdeu a oportunidade e pulou logo. O Nazareno, não querendo envergonhar o baixinho, fez de conta que era ele mesmo e tocou em frente. Aliás, aquela árvore é conhecida, até hoje, como o recanto dos inválidos.

Vesgo era um homem muito servil. Depois da ceia, aquela que vocês chamam de Última Ceia, quando todos foram embora do lugar, Vesgo ficou lá, comeu e bebeu do resto de comida e bebida que sobrara. Por fim, colocou ordem no lugar, lavou os pratos, taças e arrumou as mesas. Finalmente, varreu todo o espaço. A tarefa o fez chegar atrasado para o evento no monte das Oliveiras. Cansado, foi o primeiro a dormir. Dizem que Jesus ficou muito bravo quando ouviu seu ronco e tratou de censurar a todos pela falta de espírito de equipe. Os outros quiseram fuzilá-lo, naquela hora. Parece que quando Judas deixou a ceia para ir vender o Cristo para os sacerdotes, perguntou o caminho para Vesgo, que sem imaginar as intenções do traidor, ensinou-o direitinho. Ah! E a frase mais importante de José Vesgo, que inclusive está relatada nos melhores originais, foi dita durante a crucificação: Salvou a tantos, porque não salva a si mesmo, agora?

As histórias de José Vesgo contadas por meu amigo Ben são verdadeiras pérolas. Suponho, às vezes, que elas fazem parte da ironia de um velho e sábio Rabi judeu. Mas posso estar redondamente equivocado e ser tudo verdade mesmo. De qualquer forma, eu o escutava encantado e o faria quantas vezes mais pudesse, se tivesse a oportunidade. Voltei lá muitas vezes. Khalil e Laila foram comigo e tornaram-se amigos de Ben e Abi, também. Sempre que volta de Israel, o Khalil me traz algum presente enviado por eles.

Sabe, nunca mais consegui ler os evangelhos sem imaginar a presença de José Vesgo em cada cena descrita. O que ele teria feito, com quem teria falado, quem o teria rejeitado e vai por aí.

Da Série

Décimo Terceiro Discípulo

Um figurante muito participativo

A Ressaca

7 thoughts on “Um figurante muito participativo

  1. Olá Lou!
    Se o Vesgo não tivesse se escondido e fosse logo ter com o Mestre, hoje muito provavelmente já não seria conhecido por vesgo 😉
    Um abraço

  2. Ei Raquel, que bom tê-la de volta, por aqui. Ainda outro dia comentava com a Vilma a sua ausência. Fez falta. Mas sabemos que era por uma causa justa. Eu li seu relato em seu blog. Que bom. Abraços para você e família.

  3. Ah, Lou, eu tb iria querer conhecer este lugar mágico que vc conta aqui. Adoro ouvir histórias e estórias. Eu viajo mesmo. Acho que fiquei um pouco vesga com esse seu post. Mas me deixou com um gostinho de saudades…será que senti certo? Que você estava saudosista?

    Boa semana

    Grande abraco

  4. Georgia

    Sinto saudades incomensuráveis dos dias de missões, quando minha consciência era simples e só me exigia ganhar o mundo para Cristo e ponto. Agora, além de ver missões de binóculos, tenho essa maldita consciência a me cobrar bobagens como igualdade, sinceridade, ética e honestidade, além de nunca mais encontrar ao Deus que se fazia presente, todo o tempo. A vida ficou insuportável. Só me resta fantasiar meu passado rico e distante.

  5. Pingback: Lou Mello

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *