A Gruta do Lou

Um dia com Khalil

Depois de uma manhã muito agradável na companhia de estudantes de medicina e enfermagem, interessados na Vida de Jesus e com direito a almoço, rumei para a casa do Khalil.

É um imóvel muito interessante, do qual gosto muito. Não tem uma arquitetura definida. O avô dele imigrou para o Brasil, no começo do século XX, com a família (esposa e quatro filhos). Começou a vida vendendo roupas de porta em porta. Fez isso durante muito tempo. Depois da guerra, estabeleceu-se no Brás (Rua Oriente). Lá pelos idos de 1950 comprou a casa. Ela situa-se em um terreno de mais de dois mil metros quadrados. No começo, eram dois quartos, sala e cozinha com o banheiro fora. Com o tempo, foram sendo acrescentados quartos, banheiros, salas, uma nova cozinha e até um jardim de inverno. É um verdadeiro labirinto cercado de jardins com muitas árvores frutíferas. Minha descrição básica é: o lugar é lindo e provido de algo muito divino.

Seu Emir, pai do Khalil, herdou a loja onde trabalhou até 1998, quando se aposentou. A loja foi vendida para um koreano. Pouco tempo depois, seu Emir partiu para a morada celestial. Lembro dos longos abraços dele. Ele me recebia tão bem nessa casa que eu tinha grande dificuldade para ir embora. Hoje, senti a mesma dificuldade. Khalil tem as mesmas qualidades do pai, só que mais aprimoradas. Foi com eles que aprendi a não deixar ninguém sair de minha casa sem uma boa refeição, pelo menos. D. Tâmara, viúva do seu Emir e mãe do Khalil está lá, firmona aos oitenta e seis anos. Foi ela quem preparou o nosso jantar com Mehchi mahfuf (charutos de repolho), esfihas, kaftas e tabule, tudo isso em minha homenagem.
Khalil é casado com a Laila. Uma italiana com ascendência árabe, lindíssima. Eles tem dois filhos, um casal. O rapaz chama-se Eduardo Farid e a moça Vanessa Hayat Ele estuda na França, atualmente e ela casou-se e vive em Milão, com o marido onde dividem um escritório de arquitetura.
Ele trouxe vários livros que estavam em Israel, no escritório da missão. Inclusive o “Between Two Worlds” escrito por John R. W. Stott, sobre pregação expositiva que eu havia lhe emprestado e não me lembrava mais. Além de devolver o livro, ele fez questão de ressaltar que me deve sua opção pela pregação expositiva. Então, ambos somos devedores do Karl Lachler, meu professor (e de alguns outros adeptos que andam por aí), lá na Faculdade Teológica Batista.
Sentados, em poltronas confortabilíssimas, gastamos horas falando sobre dias memoráveis que passamos juntos em Lille e Billy Montigny, norte da França e depois em Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Na França, nossa tarefa era produzir literatura em língua de paises restritos ao evangelho, naquela época (Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Rússia, etc…) e em Aquidauana, nos metemos a evangelizar uma tribo meio hostil ao evangelho. Nos dois casos, acabei virando o palhaço da turma. Não sei bem por que. Na França eu levava grandes papos com poloneses refugiados sem falar uma única palavra em polonês e em Aquidauana eu era interprete dos indígenas junto à Funai. Nunca contei a eles que eu não falava a língua da tribo. Mas, o Khalil e a Laila sabiam, tanto aqui quanto lá e divertiam-se com minhas aventuras lingüísticas e outras tantas. Às cinco horas, D. Tâmara serviu chá com pão sírio, homus e coalhada. Sentou-se a meu lado e ficou abraçada comigo um tempão. A Dedé que se cuide.
Então, Khalil e eu nos separamos das mulheres e fomos sentar em um banco na varanda. Ele narrou-me a situação no Oriente Médio. Várias vezes repetiu: Jesus vai voltar naquele lugar, eu sinto isso. O Khalil é um cara finíssimo. Quando ando de carro com ele, sempre me pergunta se está dirigindo de maneira confortável para mim. Fala bem baixo. Escutá-lo requer um exercício extra de audição, o que é raro hoje em dia. Depois de passar algum tempo conversando com ele, todos os barulhos rotineiros passam a me incomodar. Enquanto falava, várias vezes seus olhos encheram-se de lágrimas e eu embarquei nessa. Impossível resistir. Ele transpira o Senhor Jesus por todos os poros e em cada palavra. Chego a duvidar que ele exista. Às vezes, telefono para ele só para me certificar. Ele me contou que no dia 25 de dezembro passado, Jerusalém estava sob intensa nevasca e um frio de lascar. Estranho pensar em Jesus nascendo perto dali, nessa época, sem qualquer menção ao frio e em uma gruta, quase ao relento. Depois caiu entre nós um profundo silêncio, rompido delicadamente pela Laila com o anúncio do jantar.
Enfim, chegou a hora de voltar à Sorocaba. Khalil e Laila me levaram até a Estação Rodoviária na Barra Funda. Abraçamos-nos e oramos no carro, antes de meu desembarque. Eles estão muito preocupados comigo e com minha família. A última frase foi de Laila: Confie, confie muito no teu Senhor. Ele te ama muito e a toda sua família, eu sei. Nós três estávamos com lágrimas rolando em nossas faces. Nossos encontros são sempre assim. Rimos muito enquanto estamos juntos e depois choramos ao nos separar.

1 thought on “Um dia com Khalil

  1. História linda essa!Conheço essa comidarada toda,meus avós são sírio-libaneses.Só uma coisa me estranhou,sendo esse pessoal abastado,além da oração,poderiam dar uma mãozinha básica,não?Não fica bravo comigo,tá?

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