A Gruta do Lou

Um Deus Brasileiro

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Quando penso em Deus, uma vozinha aparece para me atazanar dizendo: “esse é um Deus brasileiro”.

Conheci um homem, a quem chamarei de Nilson, a fim de preservar-lhe a identidade, que era ou é um brasileiro típico. Ele era malandro, procrastinador, enganador, vagabundo, infiel, egoísta, mentiroso, golpista, mas extremamente simpático, gostava de samba, batucada, mulheres, futebol, bebia bem e dava umas cheiradas, também, andava bem vestido e sempre estava acompanhado de seguidores, além de sua amante.

Depois de um tempo, conclui que o Nilson era um brasileiro típico. Eu em minha moralidade cristã fajuta, me distanciei de nossa cultura exótica e peculiar. Entretanto, ninguém que eu tenha conhecido incorporava nossos “valores” mais autenticamente do que ele. Sempre que desejava jogar a culpa em alguém por minhas falácias, eu dizia: isso eu aprendi com o mestre Nilson. Me achava parecido com Deus e ele com o capeta.

Os anos passaram e nunca mais vi ou tive notícia do Nilson. Em minhas lutas com Deus, comecei a perceber uma mudança no caráter do divino. No Antigo Testamento ele era aquele Deus forte, guerreiro, intransigente, mandava matar seus inimigos e detratores, enfim , era um Deus arretado.

No Novo Testamento, Jesus veio e acabou com a fama do Deus mau e carrancudo. Anunciou que era filho do chefe e deixou claro conhecê-lo melhor do que ninguém e tornou Deus paternal, amoroso, condescendente, perdoador e misericordioso.

Em nossos dias, fomos apresentados por padres, pastores e sacerdotes a um Deus capaz de responder orações, curar nossas enfermidades, resolver nossos problemas financeiros, materiais e emocionais. Durante um tempo acreditei nesse Deus porque funcionava, de certa forma e podia dizer aos outros que Deus era realmente legal. Não sei se foi isso, mas percebi que com a chegada do novo milênio, já no fim do século e milênio passados, Deus mudou.

Talvez tenha sido chamado às terras brasileiras e aos conclames verde-amarelos, em demasia, ou sei lá o que, mas o magnânimo começou a ficar brasileiro, conforme previra o profeta nacional Nostrapeledamus.

Passou a não responder mais como antigamente. Quando ligamos para o celular dele, só cai na caixa postal. Quando conseguimos pegá-lo pelo telefone fixo ele manda dizer que está em reunião. Vive em férias. A frase que mais escutamos quando o procuramos é: foi pescar e não tem previsão para voltar.

De repente, as escolas de samba, os sambistas, o mundo do futebol passaram a ser abençoados, mesmo sem pedir nada. O PT ganhou a eleição e a re-eleição e parece que vai perpetuar-se no poder. Tudo indica que, à nossa revelia, Deus aprova o Bolsa Família, esse governo chafundado em corrupções e maracutaias, mentiroso, golpista, mas simpático ao povo de baixa renda. Enfim, um povo abençoado por Deus e bonito por natureza.

Claro que eu não me incluo nessas bençãos. Não estou entre o povo de baixa renda e sob as benesses desse novo Deus. Pertenço a outro grupo, aos sem renda alguma, crente no Deus anunciado por Jesus Cristo, mas que parece não existir mais. Estou abandonado à minha própria sorte e a deriva.

Essa madrugada, enquanto orava à moda antiga, solicitando a misericórdia do Deus Pai que me foi apresentado, anos atrás, lembrei do Nilson e sua brasilidade. Então entendi. O Nilson era a encarnação do novo Deus, que veio, caminhou comigo e eu o desprezei, achando-o a cara do diabo. Meu Deus, como sou burro!

Capricornio PB

9 thoughts on “Um Deus Brasileiro

  1. Lou.

    Depois de ler… não sei mesmo o que lhe dizer…

    Mas sei uma coisa:

    Que o estimo, lhe quero muito bem, e quero muito que Deus lhe responda…e que o Lou nunca vacile na sua fé.

    Um abraço carinhoso
    viviana

  2. Viviana

    Agradeço muito seu carinho. Me desculpe, às vezes meu personagem escapa ao meu controle. Tentarei controlá-lo melhor. 🙂

  3. ” Nesta ilha existe gente de natureza diversa, o pai come o filho, o filho o pai, o marido a mulher e a mulher o marido. Quando o pai ou a mãe, ou então alguns dos seus amigos está doente, imediatamente o filho ou outra pessoa, procura o padre da sua religião para pedir-lhe que consulte o ídolo deles; este, por ter o diabo por trás, lhe diz que aquele não morrerá desta vez e ensina a eles o modo de curá-lo. Assim o filho retorna, conta ao pai e faz o que o ídolo lhe ensinara até que ele sare. O mesmo fazem os maridos pelas mulheres, os amigos um pelo outro. E, se o ídolo disser que é caso de morte, o padre acompanha o filho e a mulher,ou então o amigo doente, e lhe metem um pano na boca para asfixiá-lo, e assim, sufocando-o, matam-no cortando, em seguida seu corpo em pedaços; todos os seus amigos aparecem para rezar e comer daquele corpo morto. Reúnem quantos pífaros possam ter e assim comem em grande festa e com grande solenidade. Quando acabam de comer, recolhem os ossos e os enterram cantando com grande festa e muita música. Os amigos e parentes que não participam desta festa são recriminados e sentem muita vergonha e dor, porque não são mais considerado amigos. Dizem que comem a carne para liberar o amigo do sofrimento; se a carne é muito magra, os amigos dizem que foi um pecado deixá-lo definhar e sofrer tanto sem razão; se a carne é gorda, dizem que está bem e que logo mais estará no paraíso, e que não teve sofrimentos…” (Carlo Ginzburg. O queijo e os vermes, o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição. págs. 107,108)

  4. Junior

    A maldadade tem a seu favor, ainda, a sutileza. Claro que todas essas mudanças e práticas exóticas são devidamente acompanhadas de regras do tipo: se chorar, o castigo será mais drástico. Como a história do dentista que pergunta antes da extração: Com dor ou sem? O paciente escolhe o óbvio: sem dor. Quando o serviço começa e o paciente geme na primeira puxada, o dentista avisa: olha, com dor é mais caro. 🙂

  5. … pois é Lou, eu também tenho descoberto minhas burrices…ai ai ai …ainda bem que todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus, senão, o que seria de mim??

    obs.: eu gosto quando vc coloca “pimenta” em seus textos..rsrssss

    Abraços

  6. Nem tudo oque parece, de fato o é.
    Ainda que Deus não nos apareça de uma maneira sobrenatural, não a como negar naturalmente a existência de Deus.

    Deus abençoe

  7. The Pescador

    Não questiono a existência de Deus, questiono a minha fé e a fé das pessoas, especialmente dos que se dizem cristãos, na existência de Deus.

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