A Gruta do Lou

Um Cristo atípico

Prega a Palavra

Karl Lachler foi nosso professor de pregação expositiva e criou uma matéria chamada auto-compreensão que fez sucesso na escola de teologia. Ele nos deixou um livro cujo título é “Prega a Palavra, Passos para a exposição bíblica”, antes de retornar aos Estados Unidos. Quando alguém lhe relatava algum acontecimento com consequências emocionais, ele convidava a vítima a fechar os olhos e imaginar uma volta ao acontecido, só que, dessa vez, levando Jesus junto. Era uma espécie de Gestalt terapia cristã, inventada por ele mesmo.

Pessoalmente, apliquei a técnica em algumas situações de minha vida e levei algumas pessoas a tentar o mesmo. Comigo sempre funcionou bem, não sei quanto aos outros, talvez sim. Entretanto, não saí por aí levando o ocupado e requisitado líder de minha religião para todos os cantos das minhas peregrinações mal sucedidas. Algumas, deliberadamente, escondi dele, afinal tenho alguma vergonha na cara. Mas o mais contundente foi levá-lo à cenas em que eu acreditava ser vítima de uma tremenda injustiça e constatar, completamente surpreso, que o filho do homem não via a coisa assim, ao contrário, dava razão a algum excomungado indigno da sua majestade em detrimento a mim, seu grande seguidor e discípulo. Isso me fez pensar duas vezes antes de convidá-lo outra vez.

A vitória a qualquer custo faz parte das religiões triunfalistas. Na verdade, a vida não deveria ser uma sucessão de competições e o próximo, seja ele quem for, nosso eterno rival, a quem venceríamos, sempre, mesmo sem o fazer. Há uma grande chance da beleza de nossa religião cristã residir, justamente, nos momentos em que estivermos na presença de Jesus Cristo, mesmo que hipoteticamente, e ele nos constrangendo a aceitar a nós mesmos exatamente como somos, independentemente da cor da medalha estampada em nosso peito, alias, para o que ele não liga à mínima.

O homem de Nazaré possui essas excentricidades. Como o pai, colhe onde não plantou, reivindicando para si os que não são para vergonha dos que pensam ser. Muitas vezes, faz isso em situações absolutamente incompreensíveis para nós, como perdoar um maldito ladrão de uma figa ou uma mulher adultera a quem desejávamos apedrejar. Uma vez narrei a passagem da mulher adultera aos meus alunos seminaristas, alguns pastores entre eles, e um deles rebelou-se quando declarei que a ideia de Jesus era a restauração completa da mulher, dizendo: Perdoar tudo bem, mas aceita-la de volta como se nada houvesse acontecido, jamais. Então saiu da sala para nunca mais voltar.

Pensando bem, talvez fosse melhor escrevermos criando um outro líder. Um que fosse mais vencedor e menos excêntrico e não insistisse em modificar nosso modo de vida competitivo. Vivemos criando líderes mais palatáveis, em verdade. Homens e mulheres mais fortes, mais democráticos, cultos e bizarros.

Jesus seria mais aceitável hoje se fosse negro, gay ou as duas coisas, se tivesse AIDs e se adepto das drogas melhor, quem sabe uma mulher negra, aidética e drogada. Cara, para mim nada soa mais preconceituoso. Ninguém deveria ser escolhido um preterido por causa de sua cor, idade ou preferências sexuais, alias, sobre esse quesito acho estranho imaginar que haja alguma opção.  Prefiro imagina-lo sem cara, cor ou sexo e, muito menos, doente.

Ainda sonho com meu irmão maior, que insiste em ser o menor, humilde, bondoso, firme, magnânimo, alegre, justo, perdoador e, sobretudo, salvador de todos nós, gratuitamente.

lousign

 

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

2 thoughts on “Um Cristo atípico

  1. “Ainda sonho com meu irmão maior, que insiste em ser o menor, humilde, bondoso, firme, magnânimo, alegre, justo, perdoador e, sobretudo, salvador de todos nós, gratuitamente.”

    Sonhamos!

    🙂

  2. Pingback: Lou Mello

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.