A Gruta do Lou

Um cristão que não conhece a Deus

lateralSolidão humana


Certa ocasião, fui a uma igreja convidado pelo pastor para conversar com os jovens. Eles gostariam de entrevista-lo, disse o homem. Tive várias oportunidades de fazer esse tipo de trabalho. Meu passado como professor de Educação Física em várias escolas e depois como professor de teologia em outras tantas, me deixaram bem preparado para essas situações.

A conversa foi se estendendo, senti que estávamos nos comunicando muito bem. Em algumas circunstâncias você percebe que algo não está indo bem, quando efetivamente não está, mas naquele dia, as coisas caminharam muito bem. Lembro-me que me fizeram várias perguntas sobre o Espírito Santo e depois outras tantas sobre Jesus Cristo. Estávamos reunidos por mais de duas horas e eu começava a dar sinais de cansaço. Então veio a pergunta.

– Lou, quem é Deus para você?

A principio eu tiraria de letra essa questão. Tinha embasamento para falar a noite inteira sobre Deus. Poderia começar discorrendo sobre os atributos, depois sobre as diversas correntes teológicas, usar pressupostos de teologia sistemática, falar sobre o que pensavam pensadores modernos como Francis Schaeffer, John Stott, ilustrar com as conversas entre Jó e Deus transcritas por um judeu amigo e estudioso do Antigo Testamento, fazer firula revelando segredos sobre Deus embutidos na obra do Senhor dos Anéis por Tolkien e no Harry Potter por J. K. Rowling e muito, muito mais, só falando em teologia, depois vem a vastidão da filosofia, a psicologia se metendo como sempre, sem dúvida. Não deixaria de descrever o Conceito de Angústia de Kierkegaard à quela gente bonita e muito mais, certamente um céu sem fim.

Entretanto, enquanto pensava por onde começar minha resposta, não percebi quanto tempo ficara calado. O silêncio na sala impressionou. Devia haver ali uns oitenta jovens, entre rapazes e moças, fora um monte de penetras mais velhinhos, alguns pastores de outras igrejas da cidade, inclusive. Acho que não disse nada durante mais de quinze minutos, pelo menos. Enquanto escamoteava todo meu arsenal, veio-me a mente meu filho, os irmãos dele, minha esposa e acho que saí um pouco do chão ou algo assim. Lembrei de algo que pensara poucos dias antes daquela reunião e resolvi começar minha resposta por ali, sem saber o que diria depois.

Olha, por muito tempo, cheguei a achar que conhecia a Deus. Mas a verdade, se fosse para lhes responder sua pergunta em uma única frase, diria: eu não conheço Deus.

Tudo que sei sobre ele é uma amontoado de informação transmitida por muitas pessoas que, provavelmente, também não sabem nada sobre Deus. Que se saiba, nos mais de oito mil anos cobertos pela Bíblia, só Moisés, Elias e Jesus conversaram com Deus, pessoalmente. Aquela cena da transfiguração presenciada por Pedro, Thiago e João é uma das descrições mais emblemáticas e tremendas dos evangelhos. Ocorre-me agora que, de alguma forma, Jesus confirmou decisivamente minhas desconfianças naquele dia, ou seja, só esses três caras conheceram a Deus, dentre toda a humanidade. O resto é especulação e nem tudo é desprezível. Jesus disse várias frases sobre isso, como aquela: Quem vem a mim, vem ao Pai, ou quem me viu, viu ao Pai ou ninguém vem ao Pai se não por mim. Foram atenuantes de Jesus para aplacar nossa ignorância acerca de Deus, talvez.

Se empilhassem todos os livros escritos sobre Deus, daria para chegar a Lua, algumas vezes, se não me engano ou algo assim. O ser humano precisava escrever sobre Deus, falar coisas dele, sonhar com ele. Os grandes poetas fazem isso o tempo todo em relação ao objeto de seus amores.

Naquele momento, perdi a coragem de falar qualquer coisa sobre Deus. Qualquer palavra que eu arriscasse dizer seria especulativa. Por que Deus me escolheu e ao meu filho e permitiu esse mimo ao diabo? Não sei. Deus intervém? Não sei? Deus é onipotente, onisciente e onipresente? Não sei. Deus é amor? Não sei. Deus criou todas as coisas, inclusive as ruins como as cardiopatias congênitas e outras doenças complicadas? Não sei. Ele é o contrário de tudo isso? Não sei.

Lembrei-me da conversa de Deus com Elias, que imagino tenha disso relatada pelo próprio profeta, Deus estava no silêncio e em nenhum outro lugar.

Então disse a aquela plateia muda, de gente jovem, alguns muito emocionados: “olha talvez Deus estivesse muito mais presente naqueles quinze minutos nos quais não lhes disse nada do que nesse tempo todo que estou tentando lhes dizer que não conheço a Deus”.

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e em retribuição o homem criou deus à sua imagem. (B. Pascal)

Tomarei uma decisão, agora, tendo todos vocês como minhas testemunhas: De agora em diante, seguirei caminhando na senda cristã, só pela fé e nunca mais direi nada sobre Deus, que não venha com um talvez, ou eu creio ou ainda, em minha opinião…

Capricornio PB

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3 thoughts on “Um cristão que não conhece a Deus

  1. “conhecer” Deus é mais ou menos como aceitar que pode existir amor verdadeiro naquele ser que se apresenta numa rede social de relacionamento,jurando que nos ama,que vai cuidar de nós por toda a vida.Nunca o vimos,nunca o tocamos,nunca o ouvimos…nem temos certeza se ele “realmente” existe..mas,conseguimos nos emocionar,chorar,sonhar com todas aquelas “lindas bobagens” que ele escreve…
    talvez nosso cérebro use a mesma estratégia para decifrar,catologar,e aceitar
    as emoções de amor e fé.

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