A Gruta do Lou

Um caso perdido

Quando acordei hoje, havia um pensamento novo em minha mente. Ele veio na seqüência das memórias do fim de semana. Tudo começou na sexta-feira quando, ao verificar meu saldo bancário, notei haver a quantia de R$ 0,07 centavos disponíveis, somente. Na agenda, nenhum compromisso marcado para os próximos dias, palestra ou pregação, ou maluco para internar (serviço insuportável para mim) e nem ao menos, um mísero computador quebrado ou infectado para consertar. Nada capaz de gerar alguma renda. A primeira preocupação, nessas horas,  sempre é a continuidade do tratamento de meu filho e o estoque dos medicamentos necessários estava zerado. Falei com o pessoal do Projeto e me informaram que o caixa estava vazio. Senti-me como o comandante do vôo 447 da Air France, por um instante, cheguei a procurar o microfone para informar a todos, tripulantes e passageiros, que a vaca estava indo para o brejo, ou atlântico. Menos, no meu caso ainda havia um ultimo recurso, duro e indigno para um grande orgulhoso como eu, mas inevitável, ou seja, esmolar. Enviei E-mails e fiz telefonemas a cobrar, mas até às três da tarde não havia nenhuma noticia auspiciosa. Incluí uma mensagem subliminar no blog, mas isso não funcionou, tampouco. Às três e meia chegou uma quantia pequena, porem insuficiente. Assim imaginei a alternativa: um pastor próximo, essa gente sempre tem uma maldita cesta básica à mão e aí, usaria o dinheiro para a mistura e o mínimo indispensável aos curativos e, boa, até hoje.  Ao lembrar o pastor parando com a Caravan (importada) dele, descarregando a cesta e ainda me deixando mais algum, senti, logo, uma ponta de inveja. Mas por que não fui um pastor? Chegamos à cidade ao mesmo tempo, ele tem o negócio dele e com sobras para ajudar algum amigo incompetente com dificuldades de fim de semana, enquanto sou obrigado a solicitar-lhe help. Bom, talvez tenhamos visão diferente sobre o ministério, a dele certa e a minha errada. Imagine que a igreja desse pastor, por escolha dele, é adepta da doutrina do G12. Coisa horrível. Mas a esposa dele está toda feliz, esperando o terceiro filho e com lugar cativo à frente do louvor da igreja, do mesmo jeito que a Sônia Hernandes sentiu-se, durante tanto tempo, enquanto ele desfruta o prazer de me humilhar com sua bondade generosa. Tudo bem, vamos deixar a igreja para lá. Falemos dos médicos, por exemplo. Com minha realidade, virei assíduo freqüentador de hospitais. Uma noite, sentado do lado de fora da UTI, onde meu filho recuperava-se de uma das suas cirurgias, conversei um pouco com uma enfermeira. Às tantas, ela me revelou que os suicídios de médicos naquele hospital eram freqüentes. Sinistro né? Choquei. Como acreditar que um médico possa ter motivo para matar-se? Seria por falta de grana? Pouco provável. Dei-me conta, então, que médicos podem ter os mesmos probleminhas que os pastores e os índios, qual seja, descobrir a falácia de sua atividade. Que ninguém nos ouça, mas a medicina é tão limitada ou mais, do que a teologia, tanto quanto a indigenagem (acabo de inventar). Cheia de mitos e inconsistências capazes de levar um jovem promissor médico ao vigésimo andar e fazê-lo mergulhar de uma janela qualquer no vazio sideral. Os pastores que se dão conta de sua realidade não praticam suicídio porque isso é um pecado maior para eles, a não ser os pastores japoneses, claro. Quando os missionários coreanos chegaram ao Japão com a mensagem do evangelho, ensinaram aos japoneses que todos pecaram e careciam da glória de Deus. Foi a maior alta de Harakiris da história japonesa, pois um japonês não pode conviver com essa verdade, salvo engano. Para ser pastor de uma igreja vencedora, das duas uma, ou você adere ao Rick Warren ou ao Paul Young Cho, diretamente ou via alguma versão deles, tipo Hybels ou Hagin. Não importa, o que eu venha a fazer, precisarei ser capaz de afogar essa moral horrorosa que tomou posse de minha mente e corpo. Agora pouco um amigo me ligou sugerindo-me iniciar um negócio de salgadinhos e logo me perguntei se seria capaz de fazer isso pagando o preço necessário para fazer a coisa dar lucro, tal como, fritar os coitadinhos em óleo usado, usar farinha de trigo do Dia (um arremedo do Carrefour que vende produtos meia boca a preços mais em conta) e fermento a granel, sem falar na carne de segunda e no frango rico em hormônios. Já sei, sou um caso perdido. Pelo menos economizo espaço em seu comentário.

lousign

1 thought on “Um caso perdido

  1. Esse post me fez lembrar a frase de Charles Chaplin: “Se tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades teria ouvido verdades que teimo em dizer brincando, falei muitas vezes como um palhaço mas jamais duvidei da sinceridade da plateia que sorria.”

    Se qualquer coisa minha fez você pensar no Chaplin, então ganhei o dia. Obrigado.

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