A Gruta do Lou

Um bom e experiente trabalhador

Estava assistindo um jornal qualquer na TV e, de repente, estavam noticiando que, devido à escassez de mão de obra especializada, resolveram chamar aposentados do setor (construção de plataformas marítimas) para suprir a necessidade. Eram todos sessentões e estavam felizes da vida, além do sentimento de adequação, do orgulho em sentirem-se úteis ainda, estão ganhando dois salários agora.

Isso me fez pensar na minha própria condição. Não sei por que, tudo me leva a pensar em mim. Morro de pena de mim mesmo. Para começar não sou aposentado, apesar dos meus cinco, quase seis dígitos e já ter completado trinta e cinco anos de trabalho. Depois, já faz tanto tempo que trabalhei com a maldita carteira assinada que nem me lembro mais onde foi. Precisaria olhar essa peça de horror para saber.

Não sei construir plataformas marítimas, mas não deve ser muito difícil, pelo menos não para aqueles caras. Mas há muitas coisas que poderia fazer e muito bem, como no caso deles, bem melhor do que os iniciantes. Para começar sou professor de educação física e exerci a profissão longos anos e experimentei várias áreas da profissão. Dei aulas, dirigi grupos de exercício, participei de projetos em esportes, dirigi equipes, etc. Depois virei diretor de desenvolvimento, após ser treinado por uma organização norte americana, responsável por organizar a estrutura de manutenção de uma das mais importantes ONGs evangélicas da área dos direitos humanos.

Fiz um curso na GV e continuei nessa área como consultor, às vezes pondo a mão na massa, outras ensinando como fazer e ministrando muitas, muitas palestras sobre captação de recursos, relações públicas, banco de dados, marketing direto e estratégias. Inclusive, acabei dirigindo uma escola de ensino fundamental e médio, sem falar no monte de empresas que ajudei a construir o planejamento estratégico. Até pastor eu fui, imaginem, mas não contem para ninguém. Essa parte eu prefiro esquecer.

No meio de tudo isso, aprendi a usar um microcomputador como poucos, aliás, é através disso que tenho posto comida na mesa, ultimamente. Ah! Escrevi muito, embora não tenha objetivado lucro e o Paulo Coelho tenha me avisado que a direção a seguir era outra. Mas ele é um idiota.

Tudo bem, estou velhinho, nem tanto que não possa pegar no batente por mais uns dez anos. A saúde vai bem e estará melhor se andar mais. Agora, não entendo o pessoal lá do céu. Se é tão ruim ficar sem trabalho, chegando a ser olhado como algo pecaminoso, sem falar nas dívidas e vergonhas que sou obrigado a passar, por que eles não liberam alguma plataforma para eu construir por aí. Será que ninguém nesse mundo constrói plataformas de educação física e esportes, ou de estruturarão de ONGs ou escolas. Se não der, posso até dirigir uma van escolar, só precisaria mudar minha licença de dirigir, mas sou bom nisso.

Ando pensando muito em colocar à disposição mais um tema na minha lista de palestras e cursos. Aprendi a planejar com a ajuda de análise de riscos. Usei isso na minha vida e fiquei meio viciado. Não consigo pensar de outro modo. Quando alguém me pergunta o que fazer, seja em que área for, olho a folha de papel mental (pode ser o monitor), traço uma linha no meio, de um lado os prós e de outro os contras e vamos enfrente. Sei, não precisa me lembrar, sou meio louco mesmo.

Trocando em miúdos, quero trabalhar e preciso de ajuda para conseguir chegar a isso. Me isolei em uma cidade muito boa, mas onde não há oferta de trabalho para gente tão simples como eu. O dinheiro acabou e a paciência, idem. Meus amigos não atendem meus telefonemas imaginando o que vem lá, os parentes só lembram de mim quando veem um vagabundo passando e os irmãos, bom, desses quero a maior distância. São muito bons quando as vacas estão gordas.

Agora, detestaria ser ajudado por alguém penalizado. Mas preciso desesperandamente encontrar alguém desesperado por um bom e velho trabalhador, cheio de idéias e muita inocência para queimar.

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1 thought on “Um bom e experiente trabalhador

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