A Gruta do Lou

Todos iguais sob a palavra

Ao longo da caminhada, fui forçado a encarar muitas discussões com  pessoas que se consideravam cristãs, entretanto, ficava surpreso com a dificuldade que elas demonstravam em compreender que o esforço de servir à caridade pregada por Jesus era capaz de desviar o homem de sua trajetória, muito embora lessem isso no Novo Testamento e o achassem perfeitamente normal. Aceitei com naturalidade que minha familiaridade com as palavras de Jesus de Nazaré resultasse uma compreensão melhor daquilo que a lógica habitual considerava como não razoável. Em meu caso, porém, custou-me a comprovar isso. Diversas vezes fui compelido a verificar que o meu ato de obediência à palavra de Jesus,  foi interpretado como presunção de minha parte.

Albert Schweitzer

A mim parece perfeitamente normal imaginar que cabe a nós, cristãos, a  tarefa de resgatar os freqüentadores da Cracolândia, em São Paulo, ou ajudar a curar e minimizar as situação dos mais de trinta por cento de portadores do vírus HIV, na África. Afinal lemos isso na Bíblia, em diversos textos, e o Mestre chega a ser enfático nesse sentido. Sempre me causou grande surpresa ser inquirido por causa disso. Pior é ser confrontado com bobagens do tipo: não seria melhor você cuidar de sua família ao invés de ficar por aí bancando o bom samaritano? Certa vez, em um seminário feito a seis mãos, onde eu era o menos expressivo dos expositores, na fatídica hora das perguntas, a primeira delas veio logo para mim: O que o senhor pensa do homossexualismo? Perguntou um jovem com cara e jeito de boiola. Respirei fundo antes de responder, afinal era uma pergunta capciosa e eu sabia disso. Fucei o baú de minha memória e achei algo capaz de me salvar daquela enrascada. Disse-lhe que só haveria uma posição cristã adequada em relação ao homossexual, ou seja, jamais perceber a existência dele como um individuo ou classe (no caso de serem muitos) diferente ou especial. Disse mais, isso vale para todos os grupos discriminados. Para mim, o simples fato de haver um grupo, como os homossexuais, negros, feministas, cardiopatas congênitos, dependentes químicos, com deficiência, idosos, de rua, etc., à parte das pessoas ou como um segmento separado ou marginal, demonstra haver preconceito e provável segregação acompanhada de hostilidade. Voltando à minha interpretação das palavras de Jesus, especificamente durante o Sermão da Montanha, só estaremos entre os “bem aventurados”, aos quais leio como “cristãos verdadeiros”, se formos vorazes buscadores da justiça e isso inclui liberdade, igualdade e fraternidade entre todos, sem exceções. Ato continuo, fui ironizado pelo jovem, que me considerou pouco modesto e demonstrou ter preconceito contra pessoas obedientes à palavra, pelo menos em minha concepção.

3 thoughts on “Todos iguais sob a palavra

  1. Pingback: Lou Mello
  2. Uma análise concisa e sóbria sobre o assunto. Apesar de não ser ortodoxa convenhamos…

    O texto fala tanto por si só, que só me resta concordar.

    …e não é fácil abordar algo importante sem ser ortodoxo, confesso.

  3. Quem mandou lançar pérolas aos porcos? Não que o rapaz tenha sido um “porco” por ter cara de boiola. De modo algum. Foi porco por fazer perguntas capciosas, com intenção porca.
    Quanto à nossa missão de cristãos, acredito que temos bombardeado o alvo errado, com as armas erradas e com a intenção errada.

    Aliás, errar o alvo tornou-se uma constante no povo cristão.

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