Solilóquios do Lou – A Oração e o Horácio

cafe Café Capuccino

Caminhava errante havia dias, meses e anos, quando veio sobre mim uma vontade frenética e aniquiladora por uma xícara de café. Olhei em volta e, como nada se parecia a um barista decente, optei pelo Balaios, na confluência da Rua XV de novembro com a VII de Setembro. É um bar café pequeno, mas limpo e o barista é de primeira, além dos conhecimentos e experiência necessária, é um ótimo papo.

Cheguei lá por volta das dez e entrei, empurrando a porta de vidro mantida por uma mola que não lhe permite ficar aberta. Segundo me informou o homem do café, manter a temperatura no interior da casa faz parte do ritual necessário ao sabor e degustação de um café verdadeiro. Entre outras inúmeras razões para gostar de frequentar o Balaios, está o conhecimento e a história do café brasileiro.

Para inicio de conversa, ali só se saboreia essa bebida, que dentre todas, é o melhor antioxidante, segundo aqueles que comungam das mesmas crenças ou, pelo menos, fingem que sim. A maior e melhor delas diz respeito a uma verdade incontestável: nosso café abastece o mundo todo com o melhor grão, dentre todos. Não existe melhor café que não seja brasileiro.

Eu não havia depositado minha mochila sobre a cadeira junto a mesa que escolhi, a mesma de sempre, junto à janela que dá para a Rua XV, quando adentrou no Balaios um senhor. Não consegui deixar de notar sua presença. Homens não gostam de admitir quando outros homens lhes chamam a atenção por sua presença física e eu não sou exceção. Tudo nele era atraente. Sua barba branquinha, sua sobrancelha grisalha e seu cabelo penteado, mas longo. Suas roupas lembravam as europeias, mas com um toque bem tupiniquim representado pela camisa amarelo ouro. Calculei sua idade entre sessenta e setenta anos.

Para minha surpresa ele caminhou direto em minha direção, quando chegou a um metro de onde eu estava, estendeu-me a mão e disse:

– “Eu sou o Horácio, muito prazer em conhecê-lo pessoalmente.”

Agora completamente embasbacado, respondi gaguejando:

– “Muito prazer Horácio, eu sou o Lou Mello, desculpe, mas o senhor me conhece?”

– “ Sim claro.”

Respondeu sem titubear. Carlos, o barista, aproximou-se de nossa mesa, Horácio já sentara na outra cadeira fazendo sinal para que eu sentasse também. Sem que eu nada dissesse, ele fez o pedido:

– “Dois capuccinos médios e duas torradas na graxa, por favor.”

Que raios estava acontecendo ali? Quem era esse senhor encantador e presunçoso que sabia exatamente o que eu pediria no Balaios, mas eu nunca o vira antes?

O homem do café distanciou-se. Com dificuldade encarei aquela figura absolutamente cativante. Ele tinha seus olhos azuis penetrantes completamente direcionados aos meus parcos olhos negros. Ficamos assim por alguns segundos, até que ele rompeu o silêncio sepucral que se dera:

-“Lou, vamos encurtar a conversa, pois minha agenda está muito cheia, como sempre. Meu nome é Horácio, de Oráculo, mas você costuma me chamar: Deus!”

Putz! Meu coração passou em segundos para umas cento e oitenta batidas por minuto, podia senti-lo na garganta, fora a maldita sudorese que acompanha essas palpitações inesperadas, fiquei com o peito e as costas molhadas em um instante, e continuou:

-“Aqui estou para ouvir a sua oração. Sabe, você tem me deixado em uma situação muito desconfortável, mas não lhe nego uma certa razão. De fato, deixei você caminhar por aí segundo seu próprio discernimento. Afinal sempre confiei no que havia em você. Gosto muito do seu blog, especialmente quando você deixa seu humor vazar e me critica aberta e corajosamente. A parte que gosto mais é quando você diz que não escuto suas orações por estar ocupado com os magnatas e ai você cita gente insignificante que sobre o que não entende faz ousadas asseverações. Entretanto, suas gracinhas provocaram reações entre os que me cercam. A pressão cresceu tanto que me obrigou a vir ouvi-lo assim, pessoalmente, olho-no-olho.

Nessa altura, passei os olhos pelo pequeno salão do Balaios, a procura do Carlos ou alguém que pudesse me socorrer, pelo menos, chamar o Resgate, pois já esperava um infarto inevitável.

-“Sossegue filho, você não terá nenhum ataque. Eu estou aqui, lembra? E eu sou Deus, como você costuma dizer.”

Então sorriu largamente. Senti-me inexplicavelmente melhor e arrisquei perguntar:

-“O senhor quer ouvir minha oração? Estou entendendo isso direito?

-“Sim, exatamente! Viu, poucas vezes os homens reagem como você diante de mim. Na maioria das vezes que me apresento em forma humana, preciso gastar muito tempo convencendo as pessoas que sou Deus, mas você está convencido depois de poucos minutos e poucas palavras. Então, qual é a sua oração?”

Claro que eu estava me perguntando qual seria a minha oração. Provavelmente essa era uma oportunidade única e eu precisaria acertar em cheio, como se fosse bater um pênalti aos quarenta e sete minutos do segundo tempo, com o jogo empatado.

-“Agradeço a oportunidade”. Falei com pigarro na garganta. “Desejo paz na terra e saúde às pessoas. Gostaria que a miséria diminuísse e, se possível, fosse extinguida. As diferenças so…” Ele fez sinal com a mão direita para eu parar.

-“Lou, não atenderei nada disso e você sabe por quê. Assisti várias de suas aulas sobre mim e sempre me fascinava o quanto você me entendia. O mundo seguirá seu curso inevitável. Criei os céus, a terra e, sobretudo, o livre arbítrio. Serei fiel, sempre, ao meu compromisso, haja o que houver. Quero ouvir a sua oração e nada mais. Sei que você, em sua nobreza, gastaria todo o nosso tempo sem falar de suas preocupações, aquelas pessoais.” Falou assim, enquanto escrevia uma frase no guardanapo, que dobrou cuidadosamente, deixando-o à mostra, sobre a mesa.

Carlos chegou com as xícaras e os pratos, para meu alívio. A pausa me ajudou a recobrar algum equilíbrio, então me enchi de coragem e disse:

-“ Senhor, nunca acreditei que orar era fazer pedidos, como se o senhor fosse o gênio da lâmpada. Minha oração é a mesma, aquela que o senhor disse não ouvir, coisa em que acredito, ou seja, o que eu pediria para quem tudo me deu? Claro que tenho um coceira danada para pedir a cura de meu filho, mas suponho que isso faz parte, também. Assim, aproveito para agradecer-lhe por tudo e peço perdão por tantos furos que dei por essa vida.”

Um sorriso largo e maravilhoso estampou-se naquele rosto luminoso. E arrisquei uma pergunta:

– “E aquela luz que cega quem lhe vê, quando é que vai queimar meus olhos?”

Seu sorriso virou uma grande gargalhada, então. Colocando sua mão sobre as costas da minha mão que estava sobre a mesa, disse:

-“ Lou adoro seu jeitão de falar, de ser e esse seu olhar de criança carente. Sua riqueza é infinita, pois você me conhece como poucos. Siga em frente, meu caro. Esse sempre foi o caminho certo. A minha paz seja convosco.” Falou isso, levantou, beijou minha face e saiu.

Fiquei olhando-o caminhar na calçada da Rua XV em direção ao Largo do Canhão, através da janela, até ele sumir. Olhei para o guardanapo dobrado e arrisquei ler o que ele havia escrito:

-“Pague a conta, por favor.”

לּהּמּ

Author: Lou

20 thoughts on “Solilóquios do Lou – A Oração e o Horácio

  1. Lou,

    com essa vc marcou pontos lá em cima para você e para todos visitantes da gruta!!

    Interessante que entrei na gruta a 15 min atrás e vi que o texto era grande e já ia ler o finalzinho. Mas pensei, “não, não, depois volto aqui e leio”.

    Agora entendo… foi o Horácio, ou mais provavelmente algum de seus súditos que deve ter sussurrado aos meus ouvidos para não ler o final!

    É mesmo ótimo!

    Um grande e forte abraço,

    Roger

  2. Wander

    Foi bom você tocar nesse assunto. De fato eu estava liso. Mas o Horácio é um turco de primeira, ou seja, nunca dá ponto sem nó. Como Ele saiu sem tomar o café dele, resolvi convidar um senhor que estava do lado de fora, um maltrapilho. Pequei um copo descartável com o Carlos e despejei o conteúdo da xícara de porcelana nele, embrulhei as torradas e entreguei tudo ao homem que saiu feliz da vida. Então, com altivez, pedi a conta. O Carlos bateu em minhas costas levemente dizendo: Hoje é por minha conta, a próxima você paga. 🙂

  3. Olá Lou,
    Quando entrei e observei o teu novo e horrível template (sim Lou, alguém tem que te dizer estas coisas, é tão mau que perdi mais de 15 minutos só para comentar e não consegui! Tive que mandar um mail!) e mais um looooongo poste senti uma forte convulsão para clicar imediatamente na cruzinha de saída. Mas depois, talvez pela misericórdia divina, ou por ter estado a orar esta manhã por ti e pela tua família, lá resolvi começar a ler.

    Gostei. Até consegui chegar ao fim (deve ter sido o teu segundo poste gigante que consigo ler até ao fim). Até gostei bastante. Deu para rir e para pensar na nossa pequenez e na grandeza de Deus.

    Agora vou tomar um bom café italiano. Sim, porque para mim café é cimbalino.

    Abraço forte.
    (Muda-me esse template! Rsrsrs)

  4. bem, vamos lá:
    alguns detalhes
    1- num encontro desses, nao se olha o guardanapo, Lou, fechamos os olhos e ficamos apenas com as palavras na mente…
    🙂
    2-meu comentário seria o que a Vilma já fez…
    🙂
    🙂
    3- que nomes são esses que você arruma?
    Horácio?
    🙂
    beijos,
    alê

  5. Deus já visitava suas criaturas desde muito tempo. Basta ver o nome do adorável e sábio dinossaurinho verde dos quadrinhos do Mauricio de Souza. Qual o nome dele, hein?

  6. Só para aguçar, a raiz de Horácio é mesma de oração e oráculo. Horácio é um nome latino cujo significado, São Google diz ser: evidente, presente.
    Acho que Ele escolheu esse nome, hoje, porque vinha para revelar, para entregar a Sua palavra, no sentido de oráculo. Ficou claro, certo? 🙂

  7. Que feliz coincidência!!! Sempre convido Deus para tomar um capuccino comigo, em 15 minutinhos. Ele gosta muito dessa delícia, principalmente quando é da Kopenhagen, e sempre sou eu que pago a conta também.
    Este Deus é demais!!!

  8. Olá querido irmão/ A e com muita alegria que encontro mais um blog a ser dedicado a este grande Deus, gostai muito da forma que o querido/a irmão fez o seu blog esta muito criativo e bem construído que Deus continue abençoar este grande trabalho.
    Querido irmão/A também tenho um blog meu qual chamo o oficial gostava muito de que o irmão/a visse e deixa-se uma opinião, e muito importante para que eu possa cada vês fazer melhor o endereço do blog e este que passo a mencionar.

    Irmão me Ajude a divulgar este trabalho, para que Deus possa ser Louvado glorificado exaltado como ele e digno por pode atingir muitas almas .

    O Irmão se tiver entrecado me deixar o seu contacto de Email para que eu posso enviar um Email a disser que foi actualizado.

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    Querido / O Irmão será que posso mencionar o seu blog no meu

    Que Deus a abençoe ricamente a sua vida e dos seus, fique com a paz do Sr.

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  9. Advinha o que eu vou fazer agorinha? Coar um café fresquinho, arrumar os sequilhos no pratinho, e aguardar… a capainha pode tocar a qualquer momento…

    Conheci uma irmã que fazia algo parecido, diariamente e sem nenhuma garantia de que Ele viria. Um dia veio um profeta e encheu a casa dela de azeite. Até hoje ela não deu conta de consumi-lo. 🙂

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