A Gruta do Lou

Se acaso

Lupicínio Rodrigues

 

“Eu não sei se o que trago no peito/ É ciúme, despeito, amizade ou horror;/ Eu só sei é que quando eu a vejo,/ Me dá um desejo de morte ou de dor”:

Lupicínio Rodriques

 

Certamente não publicarei esse texto no blog. O pior de todos os erros seria admitir minha falência. Melhor morrer mentindo e salvar alguma dignidade.

Acho que isso se chama desamparo e ninguém menos que Jesus Cristo o sentiu quando se viu pregado naquela cruz ridícula com a qual ceifaram sua a vida. Sem esquecer que foram os sacerdotes da época seus carrascos, embora não tenham sujado as mãos com carne e sangue tão medíocre, entregando essa parte aos romanos, mais acostumados a eliminar a ralé. Depois vocês não sabem porque os considero baitas sacanas.

Os sacerdotes de hoje devem ser a reencarnação daqueles algozes do Filho do Homem, certamente mais aprimorados em maldade e safadeza. O apóstolo Paulo foi outro a sentir o desamparo quando se viu atrelado a uma corrente presa em uma bola de ferro impossível de ser movida. Também teve morte horrorosa, segundo dizem, teria sido decapitado. Pelo jeito, não há salvação para quem foi premiado com esses destinos cruéis.

Dia 16 próximo passado, Lupicínio Rodrigues completaria um século de vida se vivo estivesse. Bem longe disso, faleceu pouco antes de completar sessenta anos, segundo dizem, devido a problemas no coração. Acredito nisso, mas não tanto nas questões físicas e clínicas, mas seu coração deve ter parado cansado de viver sendo constantemente abandonado, enjeitado, traído e mal amado. É paradoxal demais, um cara escrever mais de uma centena de músicas, falando só das conhecidas (dizem que há mais outra centena, ainda a serem reveladas, ao menos), e viver e morrer desamparado de amor, amizade e companhia.

Se acaso você chegasse
No meu chateau e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Não acredito que o problema dele tenha sido só desilusões de amor relacionadas às mulheres de sua vida. Esse cara conheceu o limbo, olhar, mesmo em meio a multidões, e sentir só desprezo. Conviver com seus familiares como se fosse um zumbi, sem atenção, carinho ou mesmo respeito. Lá pelas tantas, a pior das conclusões: sou responsável por tudo que me sobrevém: o tal atestado de incompetência.

Aí não há coração que resista, se não for pior, pois muitos acabam sem a memória, a dignidade e a vida, igualmente. As pessoas não perdem a memória, apagam-na, por vários motivos, culpa, negação e falta de amor, também. Quem quer admitir ser um mal amado?

Pronto, acho que já posso voltar para cama e dormir um pouco. Isso estava dentro de mim, fazendo o maior barulho para eu abrir-lhe a porta para que pudesse sair. Quem consegue dormir com um barulho desses?

morcego-12

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