A Gruta do Lou

São Paulo é o meu coração

Ontem, ao acessar a plataforma do terminal rodoviário de Sorocaba em busca do insuportável ônibus urbano, única opção para chegar em casa quando não há grana para o taxi, por vota das vinte duas horas e quinze minutos, por um momento, senti a sensação de um forasteiro chegando a uma cidade estranha. Esquisito isso, pois estava voltando para casa. Apenas duas semanas passando a maior parte do tempo em São Paulo* e consegui essa façanha. Foi só um instante de prazer, logo desfeito pela presença daquela gente simplória e de poucos amigos, à minha volta.

É improvável, quantas vezes me pedirem impressões sobre esta cidade, quantas vezes não pouparei elogios sinceros a ela. Ela não tem culpa de São Paulo ser a cidade que é. São Paulo tem o poder de me cativar, de me prender e despertar a alma do poeta. O Amir Klink está certíssimo quando diz que o homem precisa viajar para voltar para casa e valorizar o que tem. Embora não tenha casa ou lugar lá, ainda, aquele é o meu lugar, a minha cidade, predestinada a servir como fundo histórico à minha pouco relevante vida.

Na noite de segunda feira, quando voltava para casa de minha mãe, caiu toda a água do dilúvio de Noé sobre a cidade. Para variar, eu estava no ônibus, naquele momento. Chegamos ao ponto final, o motorista abriu a porta e ficou esperando eu descer, o último dos passageiros. Olhei toda aquela água caindo e a distância que me separava até o toldo do supermercado em frente, respirei fundo e fui. Cinquenta e poucos metros sob aquele mar vertical e não sobrou nada seco em mim. Interessante notar que não senti raiva, afinal chovia em mim a água paulista maravilhosa. Fiquei todo orgulhoso em viver aquela experiência tão comum nos meus dias de criança. Caminhei pela enxurrada, saltei poças e os rios naturais formados à beira das calçadas, como se fosse menino outra vez.

São Paulo é um sonho que começa a se tornar realidade, enquanto Sorocaba é a realidade se desvanecendo para se tornar sonho. Quem sabe, daqui a dez anos, não sentirei saudades dela. Sou assim mesmo, cheio de ambigüidades e paradoxos. Mas gosto de ser assim. Não me suportaria previsível, burocrático e chato. A vida precisa de emoção e nisso, nós latinos, sabemos o que é viver. Talvez não seja o caso dos bolivianos, sempre mascando coca com cara feia e aquela roupa ridícula. Tão pouco dos peruanos, dos equatorianos e mexicanos, mas nós brasileiros e nossos arquiinimigos os argentinos sabemos sugar o dia. Pelo menos, entre os povos da América, esse é o quadro.

Geralmente, quando um homem deixa a cidade, foge de si mesmo. Não é o meu caso, estou indo em busca de mim, do meu verdadeiro eu, uma alma cativa da cidade de sua meninice. Não adianta a bíblia vir com insinuações maldosas tentando nos fazer acreditar que somos cidadãos do mundo. Conversa. Só a nossa cidade verdadeira nos recebe de braços abertos. São Paulo é cidade de todos nós, a única em um mundo carente de generosidade e afeto. Muitos forasteiros a tratam mal. Sujam as ruas, picham os muros e as paredes das casas, quebram os telefones públicos, pois odeiam nossa hospitalidade cosmopolita. Bando de ingratos insensíveis.

Estou voltado para ela e comigo lá as coisas entrarão de novo nos eixos, não da cidade, mas de nossas vidas maltratadas no serrado sorocabano. Entretanto, pretendo voltar a contribuir com o bem estar da minha amada metrópole, para o bem de todos os seus habitantes e nosso também.

*No último dia 25, São Paulo comemorou 455 anos de fundação e o quadro é da Tarsila do Amaral, sim senhor.

8 thoughts on “São Paulo é o meu coração

  1. Que bom que está indo para lá…

    Na cidade da garoa fica mais fácil ir filar bóia na sua casa..

    Abração Lou!

    Você será bem vindo sempre. Abração para você, também.

  2. Ó, seguinte: odeio São Paulo, se eu fosse contar tudo o que essa cidade já me maltratou daria um blogue.

    A única coisa boa de São Paulo é o aeroporto. E as rodovias. De saída.

    Antes eu achava que era o MASP, mas qualquer um rouba o MASP, desanimei.

    Adorei os numerinhos do quadro de Tarsila, me deram uma boa idéia.

    Parece que essa é uma das nossas vocações: dar boas idéias. 🙂

  3. Lou

    Só os paulistanos são capazes de se entender bem com a nossa cidade.

    Louca, cheia de defeitos, intransitável…e deliciosa.

    Recomendo que depois você coloque a sinfonia paulistana do Billy Blanco como trilha sonora desse post…

    Sugestão excelente. Sem falar que ando procrastinando para subir o plugin de música por post. Mas tentarei montar isso, de uma vez por todas. Obrigado.

  4. Tenho uma relação de amor e ódio com São Paulo.
    Quando saio daqui,penso:ah!que maravilha!!!Enfim sossego,segurança,
    blá,blá,blá…dois dias fora, e o tédio acaba comigo,volto eufórica.

    Essa mistura de gente,seus costumes,sons,aromas,mistérios me fazem
    vibrar.

    É claro que temos problemas, e estes são proporcionais ao tamanho da
    cidade.

    São Paulo é um vício difícil de abandonar…

    É… bem vinda ao clube.

  5. Nasci lá.Morei lá muito tempo.Lá estudei e trabalhei bastante.Curti muito teatro,bons passeios, parques,museus,shows e tantas outras coisas mais,que só um cidade como Sampa pode oferecer.Porém não consigo gostar do ritmo frenético daquela metrópole.São Paulo pra mim,só pra passeio.Não sou uma moradora sorocabana convicta não.Meu sonho é ir pra Atibaia.

    Atibaia é uma boa cidade, mas muito menor que Sorocaba.

  6. Quem acha São Paulo deliciosa é porque não conhece a periferia.

    Será? Mas a miséria não encanta a nenhum de nós. Como disse a Chris, o charme da cidade está nas pessoas e suas ações, acho.

  7. Quero ir pra Atibaia pelo clima e não pelo tamanho da cidade.E acho que ela não tem os mesmos ares provincianos de Sorocaba.Sorocabanos que me perdoem,mas foi um historiador daqui mesmo quem o disse.

    Gostei dessa informação. Pensei que fosse implicância de minha parte. 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *