A Gruta do Lou

Remorsos de um pastor que não deu certo

Saída para Albânia
Saída para Albânia

Às vezes bate certo remorso. Começo a pensar, então, como seria se houvesse seguido minha medíocre carreira de pastor. Terminaria o seminário, faria mestrado em Ciências da Religião lá na Metodista, escola onde só os fracos fazem essas pós graduações de natureza duvidosa e depois ficaria à espreita de um doutorado nos EUA, em alguma daquelas escolas desconhecidas e, como aquela em Denver – Colorado por mim cogitada, mas por aqui, quase ninguém sabe a diferença.

Nessa altura, estaria com a vida feita, casa própria em Curitiba ou Alphaville (duas cidades do mesmo tamanho e modernidade) ou, talvez, em alguma cidade litorânea, coisa mais parecida comigo. Talvez Natal ou Fortaleza. Pessoal adora fazer congresso de pastores por lá e ficaria tudo mais a mão. Land Rover Defender na garagem, talvez um Harley para passeios sabatinos e muita leitura depois da praia com água de coco. Domingo (pela manhã, apenas) um sermão hipócrita, mas intencionalmente polêmico sem deixar cair no lugar comum da heresia ou, pior, da ortodoxia.

Certamente não me sujeitaria a fazer parte desses sites de relacionamento tipo Orkut, Facebook ou MySpace. Muito menos, faria parte do Twitter. Pastores que se prezam não se dão a esses arroubos populares.

Não gosto de falar sobre isso porque minha esposa costuma desejar a culpa por eu ter me desviado dessa rota, para ela. Mas ela se engana redondamente. Muitas esposas de pastores fumam e isso não impede o ministério pastoral de seus maridos. Basta saber guardar esse segredo, como eles fazem com outros usos proibidos muito mais relevantes. Tão pouco o problema de saúde de nosso filho fez diferença. Sabendo usar, um problema desses cai muito bem aos propósitos pastorais. Gente graúda pertence ao sacerdócio com problemas mais graves ainda e se dá muito bem. Meu desvio se deu mesmo por minha própria conta e teimosia.

Saí um dia de casa e fui fazer uma viagem missionária que ninguém faria. Estranho foi ter recebido apoio do meu pastor e da minha igreja na época. Foi quando fui fazer uma missão de pesquisa na Albânia, o país mais fechado ao evangelho, na época. Depois de dois meses fora, voltei correndo porque nossa filha estava para nascer e nasceu. Resolvi ficar por aqui, mas sai da trilha. Voltei a dar aulas de Educação Física até me convidaram para trabalhar na Missão. Aceitei querendo acreditar que daquela forma voltaria ao centro da vontade de Deus. Ledo engano, mesmo tendo realizado outras missões nada ortodoxas.

Talvez o remorso se deva ao fato de nada ter dado certo e me encontrar feito um molusco desajeitado, amarfanhado e esquecido. Se tivesse prosperado financeiramente, ao menos, é provável que não sentisse nada. Estaria agora esperando o banco abrir para fazer algum novo investimento. Depois passaria na livraria para adquirir algum exemplar da moda e rumaria com a Dedé a um bom restaurante, a fim de comer uma massa própria a uma quarta-feira de cinzas.

No entanto, aqui estou cheio de orações não respondidas buscando um jeito de continuar esse tresloucado projeto no qual me meti agora. Você não tem ideia do que seja iniciar um negócio sem capital algum, dependendo do acaso ou de algo quase em extinção como a solidariedade generosa, cheio de contas atrasadas e quase nada na geladeira. Não há algo pior nessa vida do que a dependência.

Devo ter sido um crápula em vidas passadas e Deus resolveu me enviar de volta para fazer essa infame penitência. Para piorar, sou orgulhoso demais para viver de esmolas. Fico contabilizando tudo na esperança de devolver em dobro algum dia.

Agora a Inês é morta e não adianta chorar o leite derramado. Ficarei a espreita de algum descuido celestial. Às vezes eles baixam a guarda e algum anjo rebelde consegue me ajudar. Nada definitivo. Assim vamos vivendo de soluções paliativas em nossos desnecessários dias.

Esquisito sentir remorso por não ter vivido uma vida tão ou mais infeliz do que  a que vivo.

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10 thoughts on “Remorsos de um pastor que não deu certo

  1. Caramba!!! Pessoal sério, ningém sorrindo na foto…
    Lou, já tive tudo, até mais, o que você deseja ter ou se questiona
    por não ter conseguido.
    Hoje em dia não tenho mais nada.
    Sinceramente…me sinto melhor…
    A vida tem caminhos sinistros, é uma aula após outra.

    Bem observado! Ninguém sorriu nessa foto. Eu estava com inveja dos que ficavam e eles de mim. 🙂 Se eles pudessem ver como estou agora, naquele dia, estariam dando gargalhadas na foto.

  2. Caramba!!! Pessoal sério, ninguém sorrindo na foto…
    Você é uma pessoa generosa,um Ser do Bem… não conheço
    pessoalmente, mas tenho a sensação de ter ouvido ou lido
    coisas que você escreve, desde sempre… só que agora sinto
    de forma mais consistente…
    A vida tem caminhos sinistros,é uma aula após outra.

    Não sei. Às vezes, como o Karl Barth, suspeito que Jesus já levou a Igreja dele embora e eu fiquei vivendo na ilusão de que ele ainda voltará. Se fiquei, boa coisa não sou.

  3. Lou,

    Primeiro, obrigado pela indicação do meu blog ao Prêmio “Olha, que blog maneiro”. Fico honrado com a indicação, principalmente vindo da Gruta, um dos melhores blogues da blogosfera. Sobre o remorso, digo que se fosse olhar para alguns personagens bíblicos com as lentes evangélicas atuais, se diria que muitos deles foram uns derrotados, frustrados e, cheios de encostos. Quando se lê Hebreus 11, esquecem que lá não estão só os que fecharam bocas de leões, andaram no fogo, abriram rios e tiveram ressurreições. Não, lá também estão os que foram serrados ao meio, foram despresados, andaram errantes, cobertos com peles de animais (nada ecologicamente correto), mas que o mundo não era digno deles.

    Um abraço.

    Seu blog merece muito mais. Quanto ao remorso, suas palavras potencializam as minhas e seguimos nessa luta muito inglória de chamar a atenção para a existência dos desprezados que foram serrados ao meio, mas morreram como ilustres anônimos.

  4. Lou meu querido amigo,

    Você sabe o quanto que eu te estimo!
    Sempre que leio estes teus posts, eu sofro com você!
    Então deixo aqui uma palavra de uma meditação que fiz há uns anos atrás: Eliseu 4:1 a 7.

    Desculpa, mas quando te leio assim, te considero tão “viúva” quanto eu sou.

    O verso de número 2 foi o que mudou a minha vida em uma hora de desespero:

    “…Que te hei de fazer? Dize-me que é que tens em casa.
    Ela respondeu: Tua serva não tem nada em casa, senão uma botija de azeite.”

    O meu azeite eram: peças para montar “colares” e material de dar aulas. Na época, além das aulas, montei muitos colares para pagar matrícula das crianças.

    Hoje, me concentro só nas aulas. Não tenho a pretensão de achar quer sou a melhor professora de Inglês, mas dou o “melhor de mim”. Ao longo dos anos investi em material bom, investi em cursos de reciclagem para professores, e os alunos foram chegando…hoje, só no boca-a-boca.

    LOU QUERIDO,DIZE-ME QUE É QUE TENS EM CASA. QUAL É O TEU AZEITE?

    BEIJO FRATERNO MUITO CARINHOSO DESTA TUA AMIGA DE GINÁSIO E IRMÃ NA FÉ!

    Neli

    PS:Obrigada pela indicação para o prêmio de blog maneiro! Adorei!

    Muito recentemente, estendi uma nova botija ao profeta. Era algo que tinha em mãos: Trabalhar em apoio aos Dependentes Químicos. Fiz esse trabalho no inicio do século e depois me afastei. Não requer muito investimento, apenas estar em São Paulo. Renovei os contatos e encontrei um lugar para trabalhar. Tenho ido para lá, sempre que possível. Suas palavras me lembraram uma frase de Paulo (apóstolo) em II Corinthios 2: Consolando com as mesmas consolações com que fostes consolados. Os caras que menciono, entre linhas, nesse post, não seriam capazes de me consolar como você fez. Obrigado.

  5. A VIDA é para VIVER. Tudo o que descreves significa VIDA. Também sei o que é não ter nada na geladeira, ter 2 filhos bebés, muita conta para pagar, 2 irmãos dependentes de drogas, uma mãe doente, e, por aí fora…
    Sei o que é passar por isso e não viver na dependência de que alguém venha ter pena de mim.
    Depender da Graça e ainda assim ser suporte para outros que têm menos que eu.
    Isso deu muito trabalho.
    Deu dias sem dormir trabalhando 24 sobre 24 horas.
    Trabalho honesto, sofrido. Se preciso, bater de porta em porta para entregar livros e receber encomendas. Com uma mala pesada e a calçada para andar a pé.
    Sei o que é ter que apanhar mais de 4 transportes para chegar no trabalho.
    Sobretudo, sei o que é Depender de DEUS.
    E sei o que são as consequências físicas dessa labuta.
    Ficaram marcadas.
    Bem marcadas.
    Ainda assim sei o que significa não desistir e seguir em frente.
    Aceitando o que não é possível mudar, e ainda assim ser feliz.
    Como Paulo dizia: sei o que é ter abundância e não ter nada, porque todas as necessidades estão supridas através das riquezas na Glória, por Cristo Jesus, Amém.
    é isso que desejo para você. Que continuo orando.
    Saindo dessa auto-comiseração e auto-pena e “auto-remorsos”
    God bless you,
    T.

    Você sabe que esse seu jeito de falar (escrevendo) me fez admirá-la. Tenho até muito medo de magoar-te, às vezes. Mas apesar de tudo, vou bem. Sigo, sim, sempre muito indignado com o rumo do cristianismo. Apesar de desligado da vida de igreja, sinto uma grande dor ao ver o que fizemos com ela, a igreja. Meus colegas de seminário, ultimamente, têm extrapolado todos os limites suportáveis em aceitar a imoralidade e a promiscuidade em seu viver e isso me preocupa muito, alem de me entristecer, também. Certo é que não sei se faria melhor do que eles se tivesse as mesmas oportunidades. Mas acho que já fiz alguma diferença chamando a atenção deles via blog. É pouco, mas um bom começo, certo? Obrigado de novo, pelo carinho e preocupação.

  6. Olha, Lou como quase todos que postaram, tive uma vida de rainha. Papai de classe média alta, boas escolas, faculdade boa, mas custeada pelo mesmo.Tive tudo. Jóias, carros, passeios muito bons, tudo do melhor. Quando estava pra sair do país, com a finalidade de fazer uma especialização, Jesus,me pegou de calças curtas e não teve jeito. Me rendi a Ele de todo coração. E, como pra variar, junto veio a pobreza… abri mão mesmo de tudo para seguí-lo. Aí vieram as missões, os trabalhos, as mãos estendidas… passei grandes apertos, necessidade mesmo, quase fome. Vivo ainda na dureza, mas vivendo na esperança e fé de cada dia… entendendo que cada amanhecer é novo e sabendo que Deus tem colocado e colocará muitas outras pessoas em meu caminho para que lhes estenda as mãos. Não me arrependo de nada, nadinha mesmo, alegrando-me em ver os frutos colhidos na seara que por sinal não termina nunca.

    Pelo jeito, atirei no que vi e acertei mais do que isso. Legal ler seu testemunho, como os outros, também. Acho que vou sentir pena de mim mesmo, mais vezes. 🙂

  7. Uma palavra a todos que leram, não leram ou irão ler esse post:

    Como sempre, escrevi mal e ao enfatizar minhas próprias mazelas, acabei tirando o foco do problema maior. Na verdade, minha intenção era espinafrar meus colegas de seminário amancebados e encantados com os assédios diabólicos do senhor desse mundo. Peço desculpas e, se possível, não se importem comigo. Sou grato, infinitamente, com todo o carinho e apreço demonstrado. São brasas sobre a minha cabeça. Acredite.

  8. Caro molusco desajeitado,
    Tô de volta à blogosfera, aguarde!
    Quanto ao remorso, sou mais aquela frase “a gente só se arrepende do que não fez”. E vc, meu mano, já fez um bocado!!!

    Então? É isso mesmo. Viu a última frase do post? Tava demorando essas férias. Caramba! Bem vindo.

  9. Caro Lou,entendemos que seu intento maior,foi nos mostrar que muitos colegas se deixaram encantar pelo mundo e tudo que nele há.
    Mas há de convir comigo, que nada de mal existe em se abrir, falando de suas mazelas, afinal os irmãos servem pra quê? No mínimo pra consolar. E nós, ao contarmos nossos testemunhos, estamos dividindo um pouquinho uns com os outros… só não venha nos pedir para que não nos importemos com você. Tá ok?

    Combinado……
    Oh! Mas não se importem comigo tá? 🙂

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