Reflexões sobre a solidão

A sensação de estar sozinho em meio a tantas pessoas é muito estranha. Sempre que chego em São Paulo, uma das cidades mais povoadas do mundo, ao andar pelas ruas, no metrô, em todos aqueles lugares públicos entupidos de gente, não consigo parar de pensar na solidão.

As vezes acho graça pelo fato de estar cercado de gente por todos os lados e, ao mesmo tempo, completamente só. Reparo no senhor cuidadosamente bem vestido, sentado ao meu lado no trem, deve ser advogado, certamente descerá na estação Sé onde descem os advogados. Do outro lado está uma moça bem bonita. Está vestida com roupa branca sob o sobretudo cinza e descerá na estação Santa Cecília, onde desce o pessoal da área médica. Ao reparar nela, percebo uma careta de desaprovação, pois ela imagina alguma intenção menos cavalheiresca de minha parte. Ledo engado, pais de filhas moças preferem perder essa atitude, imaginando que os outros também evitarão olhares perversos à sua querida. A senhora sentada à minha frente me olha com desaprovação, pensando: quanto mais velhos, mais safados. Ainda bem que a negrona a seu lado me lança um olhar bondoso, pensando ser eu um pastor ou padre, por causa da minha aliança de madeira.

Na verdade, conheço todo mundo. Mesmo não sabendo os nomes, os reconheço por suas vestimentas e seus olhares me dizem o que estão pensando. Já tive a oportunidade de fazer palestra sobre o tema: O Corpo Fala, baseada no livro de Weil e Tompakow. A última que fiz foi na Igreja Batista da Água Branca (IBAB), do Ed Rene Kivitz. No dia seguinte, estava ajeitando o retroprojetor para o Zenon, antes dele iniciar a palestra dele, quando me agachei atrás das cadeiras para colocar o fio na tomada, ouvi uma senhora comentar com sua parceira ao lado:

– Espero que essa palestra seja melhor, porque aquela de ontem, sobre o corpo foi de doer.

Foi a última vez que abordei o tema. Provavelmente sou melhor usando as técnicas do que falando delas. Pensando bem, aquela velha coroca tem a cabeça menor do que a do Lula e nunca entenderia algo tão sutil e inteligente. Voltarei a falar sobre os corpos falantes e dedicarei a ela e ao Ed, o culpado por haver gente má no mundo. Não darão conta de suas ovelhas, todos os pastores, esses lobos em pele de cordeiro? Bobagem, o Ed será a exceção à regra, pois sempre foi bondoso comigo e isso conta pontos inestimáveis junto aos avaliadores celestiais. Por isso insisto sempre: sejam bondosos comigo.

Poderia falar com as pessoas como se elas fossem velhas amigas. Às vezes faço isso. Embora evite falar com os estranhos e tenha desenvolvido técnicas sofisticadas para manter essa gente intrusa, com mania de conversar conosco a qualquer hora, distante, posso dar a alguém o privilégio de uma conversa de velhos amigos, sem nunca termos nos falado antes, aleatoriamente. Nesses casos, faço a experiência de tratar a pessoa como alguém que conheço a vida toda. Reparo se ela usa aliança e pergunto do marido (ou esposa), dos filhos, dos pais e até dos vizinhos. Geralmente, eles lançam perguntas do tipo: Desculpe, o senhor me conhece de onde? Ou Como é mesmo seu nome?

Essas atitudes paradoxais e exóticas me ajudam a combater essa sensação de vazio, sempre querendo nos tragar, especialmente, quando deixamos o conforto e a segurança do lar.

Deus não liga muito para isso, uma vez que recomenda aos seus pastores nos ensinar ritos de silêncio obsequioso e meditação no deserto ou no alto do monte Moriá. Dizem que quem faz esse tipo de imbecilidade nunca mais será o mesmo, isso se conseguir retornar vivo de lá.

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15 respostas para “Reflexões sobre a solidão”

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  3. Aliança de madeira… decerto, coquinho. A minha também é. Passei a usá-la depois que a Elaine teve alergia a níquel (!?)
    Já me perguntaram, de sopetão, se eu era padre…

    Oh, o cara que me vendeu, de batina e tudo, garantiu que era de madeira e fora lustrada com cera fabricada a partir de um favo de mel criado no Golgota. 🙂 A mim perguntaram se eu era um ex-padre.

  4. Você não está sozinho, quanto a se sentir sozinho!

    Mas tem gente a valer sentindo-se só. E os caras querem acabar com a igreja, depois de acabar com a família.

  5. Eu reparei de cara quando te vi pela primeira vez a sua aliança de madeira, acho bacana, parece coisa franciscana, sim. Você também usava uma camisa azul escura muito quente para o calor daquele dia, mas bonita. Sua calça era preta, sapatos idem, as meias combinavam com a camisa.

    Já estudei esse lance aí do corpo fala quando me enfiei em teatro, pelos anos oitenta, é bacana mesmo, e eu também tenho essa mania de olhar pessoas nos trens, e também sou mal interpretada.

    Mas uma coisa que ninguém consegue comigo é estabelecer uma conversa assim espontânea num metrô da vida, duvido que você conseguiria. Blocada.

    Ah, eu consigo. Sou um falso introvertido. Uso isso quando me convem. Como dizem meus filhos: não sou confiável.

  6. Observar os pessoas no metrô, em estações, é olhar uma
    vitrine de emoções… vemos de tudo, e nos vemos em
    muitos…

    Muito legal, gostei.

  7. Cara! Esse mundo não tem sentido! E nem sei se devia ter. Somos todos animais É a lei da selva.
    E você tirou meu blog da sua lista de amigos. Só porque eu deixei momentaneamente de vir aqui…
    🙁

    E o velho ditado se faz real, ou seja, quem está vivo sempre aparece. Cara que prazer. Já retornei seu link. Sem informações fizemos o enterro do seu link, com marcha funebre e tudo. Desculpe, se puder. Abração e por favor, volte para ficar. Blogosfera sem você não dá. Abraços em toda a família, também.

  8. Não me levem a mal…cadê a aliança de oiro? tá, tá, tudo bem, a de coquinho também vale…
    Estar numa grande cidade, já dá sensação de solidão, imagina longe da família…
    Agora, uma de minhas manias favoritas sempre foi ficar olhando todo mundo no metrô, vendo a maravilha que são as pessoas, diferentes em todos os sentidos, uma multidão colorida, que enchia alma e coração.


    As alianças de ouro, várias, foram devidamente engolidas pela Caixa Econômica Federal e sua ambição desmedida.

  9. Solidão, esta eu conheço bem, mas ta sempre acompanhada de muito choro e reflexão.

    A solidão é tudo isso, mas também nos obriga a conhecer melhor a nós mesmos, o segredo da vida.

  10. Chega uma idade que falar de corpo sempre é “de doer”…

    E eu que pensei que tinha esgotado o assunto de atividades musculares

    Nunca se sabe quando o tema é esse. Bom, como avaliou alguém, sua descrição está irreparável. Duvido que algum ex-professor de Educação Física metido a consultor de ONGs fizesse melhor. Ficou dez.

  11. Gente, me permitam repetir um troço que adesivei num comentário lá no blogue da Bete. É uma verdadezinha boba que o Álvaro de Campos me disse outro dia: “Nada traz tanta religiosidade quanto olhar muito para gente.” Aqui onde vivo, tem metrô não. O costume é alinhavar essa religião, digamos, do auto-reconhecimento alheio, nas manhãs com chuvas fininhas de maio, quando a cidade sai à feira, ou para qualquer coisa banal nas poucas ruas do centro. Se de madrugada a chuva abençoa o sertãozão, o pessoal amanhece mais disposto a deixar a gente se ver no espelho deles…


    Tá vendo, basta ousar compartilhar a si mesmo, como diria Paul Tornier.

  12. Ô Lou. Foi só pra provocar. Eu não fiquei ofendido não. É difícil eu ficar ofendido. Estou num plano espiritual superior. Quase um anjo.
    Bete, obrigado pela lembrança. Eu costumava blogar durante o expediente no trabalho, mas o chefe novo não gosta nada disso, então sabe como é que é. Além disso, o pessoal da TI bloqueou a maioria dos blogs. Em casa não dá tempo. Tem que dar atenção pra família etc. Olha a hora em que estou aqui! Eu já devia estar dormindo mas estou sacrificando meu sono para prestigiar o blog dos amigos ingratos.
    🙂

    Imagine quando ele se ofender… 🙂

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