Quero viver minha própria vida

Lou H. Mello

 

Tempos atrás, juntei três caras que escreveram um texto muito parecidos. Os três escrevem muito bem (Ricardo Gondim ‘Tempo que Foge’, Rubem Alves ‘O tempo e as jabuticabas’ e Mario de Andrade ‘O Valioso Tempo dos Maduros’).

Evidentemente, coloquei-os em ordem crescente em termos de fama e acuidade. Certamente, os fãs levantaram os pelos de suas costas, cada um reivindicando a autoria para seu ídolo. O primeiro, sendo o único dos três ainda vivo, defendeu-se jurando sobre uma de suas milhares de bíblias, certamente a Nova Versão Internacional, que não havia clonado o texto de ninguém.

Algum tempo depois, outro excelente escritor, além de médico neurologista, o norte-americano Oliver Sacks, escreveu o dele e também muito parecido com os três anteriores e, embora tenha falecido pouco depois, o fez admitindo ter se inspirado (ou quase copiado) no texto análogo do filosofo David Hume, de abril de 1776.

Até aqui, cinco textos muito parecidos e não me espantarei se houver outros.

Enfim, esse texto criado a cinco mãos (e cada um contem as mudanças pessoais) ganhará hoje, mais um “inédito” muito parecido, escrito (ou clonado em parte como fizeram os outros citados) pelo papai aqui. Não sei se será o sexto, apenas que será o meu e, desde já, agradeço a cada um deles pela inspiração concedida.

Em alguns outros textos publicados em meu blog, devo ter citado frases desses textos (quase sempre com a menção devida), pois eles são tão ricos e verdadeiros que não dá prá não citá-los, em meio à minha experiência.

(Consulte os documentos no PS.)

 

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Ainda que preze as jabuticabas e as cerejas, sinto-me como um jovem que apanha um cacho de amoras para comer, as primeiras, ele chupa displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o cacho.

Não tenho mais tempo a perder com mediocridades. Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados. Não tolero gabolices.

 Creio não dispor de tempo para projetos megalomaníacos ou participar de conferências que estabelecem prazos. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.

Não disponho de mais  tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos, muito menos para conversas intermináveis, discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha. Não tenho mais tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Cito a frase de Mário de Andrade:As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos”.

 A essa altura, as amoras já eram. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa… Sem amoras, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, que não se encanta com triunfos, que não se considera eleita antes da hora, que não foge de sua mortalidade, que defende a dignidade dos marginalizados, e que deseja tão somente andar ao lado do que é justo.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena.

Cabe a mim agora escolher como viver o tempo que permanece disponível para mim. Desejo viver da maneira mais rica, mais profunda e produtiva possível. Nisto me encorajo nas palavras de um de meus filósofos favoritos, também, David Hume que, ao saber que ele estava mortalmente doente aos 65 anos, escreveu uma breve autobiografia em um único dia em abril de 1776. Ele o intitulou “My Own Life” (Minha Própria Vida), muito parecida com o texto presente e também com os outros já citados.

“Agora calculo uma pronta dissolução”, escreveu ele. “Sofri pouca dor com minha desordem; e o que é mais estranho, tenho, apesar do grande declínio de minha pessoa, pra mim, nunca sofrer um momento de abatimento em meu espírito. Possuo o mesmo ardor de sempre e a mesma alegria com companhia. “

E, contudo, uma linha do ensaio de Hume me parece especialmente verdadeira: “É difícil, escreveu ele, estar mais distante da vida do que estou atualmente”.

Pelo contrário, sinto-me intensamente vivo, e quero e espero, no tempo que me resta, aprofundar minhas amizades, escrever mais, viajar, se tiver forças, para alcançar novos níveis de compreensão e insights.

Isso envolve audácia, clareza e fala clara, tentando endireitar minhas contas com o mundo. Mas haverá tempo, também, para a diversão (e até mesmo alguma tolice, também).

Sinto um foco e uma perspectiva clara subitamente. Não há tempo para nada não essencial. Eu pretendo concentrar-me na minha família, em mim mesmo, no meu trabalho e nos meus amigos. Eu não vou mais olhar para o Jornal Nacional, todas as noites. Não prestarei mais tanta atenção à política ou nos argumentos ridículos sobre o aquecimento global.

Isso não é indiferença, mas desapego – ainda me importo profundamente com o Oriente Médio, com toda a manipulação dos maiorais para absorver tudo que valha alguma coisa e com a crescente desigualdade. Certamente esses serão meus negócios, enquanto viver, mas pertencem ao futuro. Regozijo-me quando encontro jovens talentosos. Sinto que o futuro está  e estará em boas mãos.

Tenho estado cada vez mais consciente, nos últimos 10 anos ou mais, das mortes entre meus contemporâneos. Minha geração está a caminho, e a cada morte até aqui, senti um abrupto arrancamento de um pedaço de mim mesmo. Não haverá ninguém como nós quando partimos, pois não há ninguém como qualquer outra pessoa, nunca.

Quando as pessoas morrem, elas não podem ser substituídas. Deixam buracos que não podem ser preenchidos, pois é o destino – o destino genético e neural – de cada ser humano ser um indivíduo único, encontrar seu próprio caminho, viver sua própria vida, morrer sua própria morte.

Não posso fingir que estou sem medo. Vivo como um mestre das Artes Marciais ou um Cidarta moderno que encontrou seu Nirvana ao perder o medo da morte. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Até aqui, amei e fui amado; me dei muito e dei algo em troca. Li, viajei, pensei, meditei, esperei e escrevi. Tive uma relação com Deus e também com o mundo, a relação especial de escritores e leitores.

Acima de tudo, tenho sido um ser sensível,  neste belo planeta e que, em si, tem sido um enorme privilégio e aventura.

§§§§§

Selecionamos (Foi publicado por Oliver Sacks uma carta aberta no jornal americano The New York Times,, anunciando seus últimos meses de vida) 7 trechos emocionantes do texto do neurologista que, ao falar da doença e da morte, esconde ensinamentos sobre a própria vida:

 

  1. Viva um dia de cada vez
  2. Enxergue as situações por outro ângulo
  3. Sofrimento pode ser um combustível
  4. Ter consciência e não negar a morte
  5. Não gaste tempo com o que não importa
  6. Sempre há um lado bom – mesmo que você não acredite
  7. Aproveite o que a vida tem a oferecer – e se aventure!

Curioso como é crescente o risco de perdermos a sensibilidade e o juízo de valor sobre a essência da vida. Talvez seja culpa do excesso de consumo, dos apelos novidadeiros, da banalização do tédio. Mil culpas, nenhuma convincente. A grande verdade é que, como dizia o sábio Nelson Rodrigues, “nada nos humilha mais do que a coragem alheia”.
E é preciso muita coragem para resgatar e viver a essência do que somos. E curtir devidamente as amoras da vida… antes que, como dizia Vinicius, o inesperado faça uma surpresa.

Isso não significa que esteja escrevendo meu epitáfio. Longe de mim tal ideia, mas que estou ciente da simbiose entre eu e o sofrimento. Entretanto, se sair daqui em breve, tudo bem, aí está algo registrado.

PS : Provas documentais nos
anexos.

Ricardo Gondim – Tempo que Foge

http://www.ricardogondim.com.br/poemas/1401/

A citação do Rubem Alves – Sem Tempo para lidar com mediocridades
http://pensador.uol.com.br/frase/Nzc0MTEz/

O texto do outro autor, Mario de Andrade Ana Rosalina Andrade Benedito
https://palavrastodaspalavras.wordpress.com/…/o-valioso-te…/

E a declaração do Oliver Sacks, veja o item 5.
http://www.brasilpost.com.br/…/oliver-sacks-carta-cancer_n_…

 

 

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