A Gruta do Lou

Quando deixo de ser eu mesmo

Algum tempo atrás, minha esposa e eu estávamos almoçando na França. Havia no cardápio língua de boi ao molho madeira. Minha mulher chamou o “maitre”: “Eu não gosto de língua de boi; o senhor poderia me oferecer outra coisa no lugar?” – “Certamente! Tenho um excelente filé mignon, se isso lhe agrada”.. Durante o almoço falávamos, naturalmente, do sentimento de culpa, meu assunto de estuda da época. “Sabe de uma coisa?” disse minha esposa, “eu fui tomada de um sentimento de culpa quando pedi a mudança no cardápio, porque você come sempre tudo o que lhe oferecem e tenho a impressão que você me julga caprichosa e difícil”. “Mas eu não disse nada!” -“Não”, replicou ela, “mas o seu silêncio foi bem expressivo!”

Minha reação imediata foi me defender: “Como!? Procuro ser o campeão do direito de cada um ser o que é, sem reservas e sem fingimento; e você não ousa manifestar os seus desejos, com medo de minhas críticas!” Assim, eu tentava devolver-lhe a responsabilidade do sentimento de culpa que ela havia experimentado. Ela, contudo, tinha razão: no meu silêncio embaraçado, durante o diálogo com o “maitre”, o julgamento estava presente, sim; pouco consciente, é verdade, mas o suficiente para que ela percebesse intuitivamente. Posso tornar-me o campeão ardoroso do dever de cada um ser o que é, sem perceber que faço pesar sobre a minha esposa uma crítica silenciosa quando ela tem um comportamento diferente do meu ou se mostra diferente de mim.

Cultivo, assim, um sentimento de falsa culpa nela. Porque a verdadeira culpa é, principalmente, você não ousar ser você mesmo. É o medo do julgamento dos outros que nos impede de sermos nós mesmos, de nos mostrarmos tal como somos, de manifestarmos nossos gostos, desejos e convicções, de nos desenvolvermos, de nos expandirmos segundo a nossa própria natureza, livremente. É o medo do julgamento dos outros que nos esteriliza, que nos impede de produzir todos os frutos que somos chamados a produzir. “Fiquei com medo ” diz, na parábola dos talentos, o servo que escondeu o seu talento na terra, em lugar de fazê-lo valorizar. (Mt. 25:25 BLH)

(Paul Tournier; Culpa e Graça; ABU; p. 16 e 17)

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2 thoughts on “Quando deixo de ser eu mesmo

  1. É ai que mora o perigo num relacionamento. Nao ser éle ou ela mesmo e fingir as coisas.
    Eu gosto de língua de boi porque fui acostumada a comê-la, mas tem gente que nao gosta. Que mal a nisso?
    Acho que já temos uma vida que temos que engolir tantas coisas e porque tem-se que engolir tudo?
    Comer para mim é um prazer. Eu nao como aquilo que nao gosto e me nego a comer. Aliás digo que estou de jejum, hahahahahahah.

    Pensei que vc já estivesse blogado sobre o tema. Já passei aqui cedo e agora voltei. Acho que o dono da Gruta tá dormindo demais, rs.

    Abracos e volto depois

    Abracos Georgia

  2. Muitoo interessante o texto Luiz.

    Como não existem + edições desse livro eu o puxei em e-book e logo logo vou imprimir. Meus pais já conheceram o livro (minha mãe conheceu, meu pai chegou a o ler)… Ambos se interessaram e vão ler também.

    Um assunto mt importante para a vida cristã.

    Abração Lou
    Fique na Graça e na Gruta =)

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