A Gruta do Lou

Quando as coisas não saem como eu quero


Nos tempos do seminário, brincávamos ao constatar que uma das menores palavras da língua portuguesa continha um imenso significado. Estou me referindo à palavra “fé”. Não creio que alguém ache tarefa fácil definir fé.

O Rick Warren define fé como teste de Deus. Para ele, Deus está sempre testando a fé dos seus eleitos (o cara deve ser calvinista) para proveito da própria vitima. Cada um precisaria ter noção da fé que tem. Para Paulo, o apóstolo, a vida cristã sucede de fé em fé, conforme afirma em carta aos Filipenses, o que me leva a imaginar que uma experiência de fé precede outra experiência de fé, a caminho e sempre ou pouco maior ou mais importante.

Para mim, a pior parte desse negócio de viver por fé é ver minhas vontades sendo solapadas a cada etapa. Isso me deixa muito puro. É isso mesmo, puro, puro idiota que pensava saber alguma coisa. Não sei como Deus consegue fazer isso com a gente, mas faz. Perdi a conta das vezes em que tinha tudo calculado e Ele me deixou com o mico na mão.

O Rick vai ainda mais longe afirmando que uma vez tendo optado por uma vida pela fé, não há volta, é para sempre. Não sei se o Rick é a melhor referência para falar sobre fé, ou qualquer outro tema teológico, mas sou obrigado a concordar, nesse quesito. Depois que fiz essa imprudente opção, Deus não largou mais do meu pé e fica aí sempre querendo provar que está certo e eu errado, ou me desencaminhando ou, ainda, me descarrilhando. Droga.

Nos últimos anos, o velhinho me deixou só com a minha fé, feito um Jó. Nada mais de encontros no alto do morro, nem nos cafés ou nas praças de alimentação dos shoppings. Talvez isso tenha acontecido por causa da imprudência de Paulo com essa história de crescer espiritualmente de fé em fé, sei lá. No máximo, umas visitas noturnas do sofrido e malandro anjo protetor do meu filho, o Raniel, que sempre aproveita para me dar alguma notícia do reino.

Em minha proverbial humildade, afirmo que poucos desses teólogos twitteiros tiveram a fé que eu tive. Duvido que qualquer um deles atravessaria o atlântico sem nenhum puro no bolso, como fiz, certo de que Deus era comigo. Uma vez, essa é boa, estava sem nenhum, nem para dar esmola, e morto de fome, quando ouvi Deus me dizer (sei que você não vai acreditar nisso) para ir ao Mcdonald, bons tempos aqueles. Cheio de fé, não só fui como ainda levei o Siepierski comigo. Claro, no caminho me senti um idiota e ouvi os demônios fazendo a dança da morte em volta da minha cabeça. Estacionei e, mal desci do carro, uma jovem me abordou, enquanto outra fazia o mesmo com o Siepierski. Calma, não era o que você está pensando, elas queriam saber se topávamos fazer um teste de sanduiches para o Mcdonald, com direito a um lanche, com fritas e refrigerante grátis, no final. Putz, nunca comemos tanto naquele lugar, como naquele dia, e sem pagar lhufas. Depois disso, nem sinal dos capetas, mais. Ainda tirei um sarro da cara do Siepierski perguntando-lhe: “Você teria fé para vir ao Mcdonalds sem dinheiro, crendo que Deus nos providenciaria um lanche desses?”

O fato é que as experiências de fé se multiplicaram em minha vida, entretanto, todas as vezes que dou de cara com os meus planos indo por água abaixo, minha tromba cai. Cara, como isso é frustrante. Você assume compromissos, todos com o tradicional “sem falta” e chega o dia e nada. Deus não está nem aí para meus planos. Ligo para ele e só dá caixa postal. Nem o Gondim sabe onde ele anda. A D. Arlete sabe, mas fica com aquele ar de profeta sabe tudo e só fala por enigmas e parábolas que a gente só entende quando a vaca já foi para o brejo. Até parece eu, quando sou consultado. Ah, como é bom estar por cima da marmelada ou da carne seca se você for nordestino.

Mas o fato é que somos exigidos segundo a nossa fé, todos os dias. Quem tem mais, terá que dar mais, não adianta tentar esconder sua fé em qualquer lugar. Ele sabe que você a tem e irá trata-lo por esse critério, como está fazendo comigo nesse exato momento, enquanto frustra tudo que eu havia planejado para hoje e os próximos dias. Pior será ver que, no fim, tudo deu certo, mas do jeito dele. Nesse propósito você verá coisas incríveis acontecerem, que até Deus duvidará. Essa semana, meu amigo e advogado nas horas mais tristes me disse, ao se referir a uma causa cível na qual estamos envolvidos: “Meu, isso é um milagre”. Tal o inusitado do andamento do trem.

As coisas não andam mais segundo o que quero, mas segundo a fé, que implica em confiar, totalmente, cegamente, infinitamente.

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1 thought on “Quando as coisas não saem como eu quero

  1. Lu, vc exprimiu em um texto muita coisa do que penso da fé. Acho que pra cada um ela é de um jeito e essa tromba que nos cai toda vez é Deus dizendo: Fica se achando fica. Acho que o que Paulo fala as vezes , me leva a pensar que o Rick em certo ponto tem razão. A fé é um teste não de Deus , mas pra nós mesmos vermos que somos nada sem ele. Se não depositarmos nossa fé nele, estaremos sempre com aquela cara de idiota ou outras vezes de surpresos, pois como diz Alice Maciel , ele é capaz de abrir porta onde nem tem parede. Amei o texto e que Deus continue a te ser por pai. Bjs

    É, na maioria da vezes, surpresos, como os discípulos no barco: “Quem é este que até os ventos e os mares se lhe obedecem?’

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