A Gruta do Lou

Qual é a de Jesus?

Estava pensando com meus botões a respeito de Jesus.

Suas características não eram severas ou contundentes. Ele não se intrometia, não dava palpites na vida alheia e dizia para as pessoas não julgarem ao próximo.

Seus feitos mais notáveis foram milagres. Talvez, a notoriedade tenha recaído sobre esses acontecimentos devido à necessidade que se seguiu. Não sei.

Interessante perceber que não foi um teólogo, propriamente dito, a pessoa a perceber as verdadeiras intenções da igreja, anos depois, ao escolher os textos que deveriam fazer parte do cânon bíblico.

Uma contribuição importante nesse tema foi dada por Dostoievsky com O Grande Inquisidor. A igreja precisava de um Cristo com autoridade, milagres e mistério e não teve dúvidas em pintar seu personagem com esses atributos.

Há certa, e importante, discrepância entre as palavras de Jesus, suas andanças e o personagem veiculado pela igreja. Jesus, de fato, aparece como um líder sem apetite para os holofotes. Todo tempo foge da fama e do poder. Solicita aos seus agraciados para manterem segredo de seus feitos. Enfatiza a necessidade de não alardearem sua pregação, mas divulgarem seus ensinos na base da relação um a um.

Ele tem toda a aparência de um homem discreto, de hábitos simples, sem extravagâncias e muito sereno. Fala baixo, observa muito, utiliza-se de perguntas mais do que afirmações e mostra-se sensível com as pessoas, sem se importar com o status delas. Gosta de bater um bom papo em volta de uma mesa bem servida.

Mas os textos onde os milagres estão descritos aparecem com destaque nos quatro evangelhos, descumprindo e não atendendo aos apelos do próprio envolvido. Um comportamento um tanto estranho dos evangelistas.

As igrejas de nossos dias insistem em dar continuidade a essas práticas paradoxais. Entretanto, se perguntarmos qual a verdadeira relação do Nazareno com cada um de nós, a resposta será de um Cristo redentor, sim, mas sereno, não intrometido, não invasor, respeitando os limites do nosso livre arbítrio, companheiro, parceiro, amigo de todas as horas e, acima de tudo, fiel às nossas incoerências e ambiguidades. Não no sentido de concordar ou discordar delas, mas de aceitar-nos, pois somos assim.

Claro, eu também gostaria de ter um gênio da lâmpada para poder fazer meus três pedidos e me livrar de algumas das minhas maiores mazelas. Quem não gostaria? Mas a proposta do Nazareno é outra. Precisamos conhecê-la para respeitá-la.

Ele foi um Deus encarnado para ganhar nossa adesão incondicional. Igualou-se para ter nosso respeito total. Ele conheceu o mundo injusto e desigual onde nós vivemos. Caminhou entre o egoísmo e o individualismo da nossa raça. Conviveu com tudo isso e foi vítima desse mundo, assim como nós. Sabe muito bem o que passamos em nossas vidas.

Sua proposta é muito simples: O Reino de Deus.

Ops: Com ajuda do George Eldon Ladd e do Julio Zabatiero (sem que eles saibam) vamos tentar fazer algumas incursões por esse terreno nos próximos posts. Fiquem por aqui.

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8 thoughts on “Qual é a de Jesus?

  1. Nós adoramos Jesus, mas a verdade é que se Ele estivesse entre nós fazendo o que fez há 2000 anos, nós estariamos chamando Ele de louco varrido.
    Mas é assim mesmo… paradoxo.
    Muito obrigada.
    Gob bless you.
    T.

  2. Opa, camarada. Visito seu blog com frequência. Não deixo posts ora por faltar tempo, ora por preguiça.

    Lendo aqui posts antigos. Uma incorrigível mania de priorizar não exatamente as últimas publicações.

    Interessante isto. “Mas os textos onde os milagres estão descritos aparecem com destaque nos quatro evangelhos, descumprindo e não atendendo aos apelos do próprio envolvido.”

    Sempre tentei compreender tal paradoxo. Sim, o Ivan Karamazov, um ateu, é quem vai nos explicar, lá na figura do Grande Inquisidor.

    Era necessário destacar o poder de Deus, em detrimento do seu amor e de seu apreço pelo livre arbítrio. Dá mais ibope.

    Abração.

  3. Alysson
    O livro do Ladd e os esboços do Zabatiero estão em cima de minha mesa. Qualquer hora dessas sai. Ora por falta de tempo, ora por preguiça, como costuma dizer um amigo, ainda não dei continuidade ao projeto. Pode ser um pouco de medo de encarar a tarefa. Nessas horas, meu lado inferior começa a querer falar mais alto. Mas eu o silenciarei, acredite. Tenha fé, também.

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