A Gruta do Lou

Psicose à moda Lou

082609_0417_PsicosealLo1Alfred Hitchcock

Edição Revista e Corrigida

As vinte e três horas e trinta minutos, consegui sentar frente ao meu computador e iniciar um breve relato das experiências horrorosas que vivi desde sábado à noite até hoje ao meio dia.

Tudo começou com surpreendentes dores abdominais que se negavam a ceder com os medicamentos caseiros, em especial o velho e político/ecologicamente correto Atroveram. Andei pelo quarto, busquei conforto deitado, andando, abaixado e nada.

Às seis horas da manhã de domingo, decidi abdicar do Grande Prêmio da Europa, em Valência, afinal só o Rubinho participaria sob as cores nacionais e pedi para a Dedé convocar o Resgate para me levar ao Pronto Atendimento (antes Pronto Socorro) mantido pela prefeitura local (gerenciada por um médico). Enviaram uma Kombi dirigida por um cara assustado que não abriu a boca e fez o caminho mais longo até nosso destino, para alegria das dores.

Dei entrada no PA às sete e trinta e depois de uma avaliação do quadro pelo médico de plantão, que não ousou tocar em mim, recebi a primeira dose de Buscopam e Plasil, via soro devidamente acoplado em uma de minhas veias. Depois das dores, vieram os vômitos e alguma desidratação. O corpo é frágil, não é preciso mais do que vinte e quatro horas para desintegrar-se.

Por volta das onze horas e mais algumas doses de Buscopam, outro médico me avaliou, dessa vez com alguma procura em meu abdome, me deu alta e uma receita contendo a indicação de Buscopam e um digestivo cujo nome não sou capaz de reproduzir. A dor cedera e os vômitos cessararam. Fui imprudente o suficiente para não adquirir os medicamentos. Aqui, cada centavo é muito importante e não aturariam desvios de conduta e objetivos.

Para meu espanto, fui informado da vitória do Rubinho no GP de Valência. Confesso que deixei um pensamento feio rodar em minha mente, ou seja, que o diabo havia me impedido de ver fato tão inédito.

No final da tarde, sorvi dois pratos de sopa creme de mandioquinha ofertadas pelo Pr. Elizeu , divinamente preparada pela Dedé e, mais tarde, um prato de mingau de Maisena encerrou minha dieta do dia. Logo após isso, comecei a sentir a calça me apertar, soltei o cinto e mudei a posição da cintura, mas não adiantou grande coisa. Devagar e continuamente as dores horrorosas voltaram.

À meia noite e trinta, liguei para o Elizeu e solicitei que me levasse de volta ao PA. O tempo que meu benfeitor levou para chegar me pareceu uma eternidade, mas ele veio e me conduziu. Dei entrada à uma e quarenta e cinco de segunda-feira no PA. Fiquei lá sozinho e tornaram a me aplicar Buscopam e Plásil. Os vômitos voltaram. Fui tratado assim até as dez horas, quando fui informado que seria transferido para a Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba , embora as dores tivessem melhorado.

A transferência foi rápida e dei entrada naquele magno hospital às dez e quarenta e cinco, transportado por uma simpática ambulância da prefeitura. A otimização e implementação do meu registro ali deu-se de forma estranha porque eu, o paciente brasileiro, fui obrigado a cuidar de todos os tramites relacionados. Depois de passar pela avaliação de um médico jovem que também não me examinou, como de hábito, entrei em uma enorme e interminável ciranda de exames clínicos, só encerrados por volta das 17 horas e trinta minutos. Nesse meio tempo o médico liberou mais uma dose de Buscopam, afinal já estava me tornando compulsivo, a essa altura.

Então meu médico me deu seu veredito: me internar com a finalidade de encaminhar-me a um exame de Ultra Som nas primeiras horas da terça feira, embora meus exames de sangue e urina apontassem a presença de bactérias não identificadas. A partir daí, passei agradáveis horas no posto de enfermagem aguardando uma vaga de internação, enquanto saboreava mais um pacote de soro com a primeira dose de antibióticos. Ofereceram-me mais uma dose de Buscopam, mas resolvi guardar o privilégio para mais tarde, caso as dores voltassem, embora meu abdome estivesse dolorido.

Por volta das vinte e uma e trinta minutos, fui informado sobre uma vaga aberta para mim e fui levado ao meu quarto pela enigmática enfermeira Patrícia. Comecei a perceber que a Santa Casa de Misericórdia não era tão misericordiosa assim. O local, a mim destinado, era uma antiga sala de tratamento intensivo, abandonada e transformada em depósito de macas. O banheiro mais próximo ficava há mais de cinquenta metros via corredores da casa de saúde. O local pareceu-me empoeirado e sobre uma das macas havia um jogo de lençóis, sem travesseiro e cobertores, muito menos, apesar do frio.

Nesse momento, a mulher desaparecera me deixando só com minha miserável internação. Foi necessário voltar ao posto de enfermagem para questionar a categoria da hospedagem junto à Patricia, que saiu fora jogando o problema para sua chefe, a nada gentil Bete. A senhora, meio ditadora, tentou não perder a paciência com minha ousadia em questionar a internação oferecida, tão gentilmente. Quando mencionei a qualidade da coisa ela me informou que eu poderia abandonar o tratamento, sem direito a retomá-lo. claro. Quanto a minha sugestão de ir dormir na minha casa, inclusive por estar sem alimentação oral desde o prato de mingau, sem banho e roupas limpas, ela deu de ombros, estranhamente.

Pensei então. Se resistir algumas horas, faço o exame cedo e vou para casa. Pelo menos ganho a chance de descobrir a causa dessas insuportáveis dores que me sobrevieram. A noite foi coisa que Alfred Hitchcock

não seria capaz de imaginar. Deitei em minha maca com toda a roupa e botas inclusas, isso me permitiu aturar o frio, mas cheguei a lembrar do conterrâneo que perdeu a vida em um monte no Malawi por hipotermia. De tempo em tempo a luz do “quarto” era acesa com sutileza de elefante. Outros três pacientes foram internados em meu apartamento sem banheiros, dois meninos e um senhor. Os meninos vieram acompanhados de suas mães e todos foram abrigados nas macas sem cobertores e reclamavam de dores abdominais. Às acompanhantes não foi permitido o uso das macas e elas se viraram com um cadeira comum, mesmo. Veio, um a um, em intervalos devidamente programados para não me permitir qualquer chance de descanso. Tudo isso fora conversas pelos corredores, ambulâncias chegando, etc.

Às seis horas, fui abençoado com mais uma dose de Buscopam e antibióticos, cujo nome continuou em segredo. As sete, a gentil enfermeira Michele veio anunciar a hora do banho, informando que um dos lençóis funcionaria como toalha enquanto nos entregava um sabonete neutro, tipo motel. Quando finalmente resolvi caminhar até o longínquo banheiro e aguardar minha vez, a Michele veio correndo me avisar que era hora do exame e o banho ficaria para depois.

Fomos ao andar do exame, no prédio novo, lógico, que é onde o hospital misericordioso atende os pacientes felizardos portadores de convênios médicos, caminhando no sistema de filinha. Tudo aconteceu muito rápido, cada exame não durou mais do que cinco minutos, inclusive o meu. Dentre o grupo, um caso de apendicite foi confirmado e em um dos meninos. Logo entendi que meu problema ainda permanecia inconcluso. Saímos dali como entramos, em uma fila de indigentes.

A partir daí, percebi um clima de suspense e todos, menos eu, achavam que seriam vítimas de alguma cirurgia. No começo desdenhei secretamente da opinião dos colegas, mas comecei a mudar de idéia quando descobri que um cirurgião viria nos dar o veredito final. Depois do banho mezzo a mezzo, naquele banheirinho chimfrim, deitei na minha maca e adormeci, logo após ter meu soro, com antibiótico e Buscopam, religado.

Estava caindo pelas tampas depois de tantas reviravoltas. Acordei de supetão e juro ter visto a Dedé passando pela porta do quarto sem parar. Tentei sair atrás dela, mas estava algemado ao meu soro. Pedi a um das mães para fazer o serviço. A moça saiu e voltou dizendo não haver nenhuma mulher no corredor. Fiquei perplexo, mas meu celular tocou e era a Dedé, avisando estar na portaria do hospital e que a segurança a estava impedindo de entrar. Dali, ela seguiria até a administração do hospital para reivindicar uma autorização especial. Sabe aquelas coisas de países vivendo sob ditaduras? Pois é, a sensação era essa.

Catei meu soro com pedestal e tudo, fui até o balcão de internações para reivindicar a entrada de minha esposa. Sem sucesso, fui encaminhado ao balcão dos enfermeiros, os únicos com autoridade para autorizar a entrada de minha esposa. Alegaram que isso seria impossível, pois só crianças e maiores de sessenta anos tinham permissão de receber acompanhantes (que não era o caso). Fiquei com inveja de um dos meninos, colega de “quarto” que, além de ter sua mãe ao lado durante toda aquela noite sinistra, ainda recebeu uma visita do pai, sem que a mãe precisasse deixar o local, mas não mencionei isso, por questões éticas.

Percebi que era a segunda chance de me livrar dessa casa de horrores e determinei que me retirassem o aparato do soro, coisa que os verdugos de branco e verde (essas cores não dão sorte) se negaram. Depois de algumas escaramuças  logrei êxito, o escalpo foi retirado e cai fora, sob a ameaça de perder os direitos de nunca mais ser atendido nesse hospital primitivo e estranhamente interessado em realizar cirurgias em pessoas de pouco poder aquisitivo.

Isso tudo explica minha ausência momentânea. Claro que, amanhã farei um relato desses acontecimentos nos principais jornais do país. No momento, sigo tomando doses orais de Buscopam e recebendo a deliciosa dieta da médica das médicas, D. Dedé. Ao longo da tarde, entrei em contato com a Dra. Márcia, médica cardiologista especialista em cardiopatias congênitas e a supervisora do Projeto Coração Valente, conseguindo dela a promessa de assumir a continuidade do meu tratamento.

Sinto-me nesse instante como alguém que acabou de ser libertado da prisão. O mesmo sentimento que temos quando saímos de qualquer depósito de gente, desses existentes por aí, em nossa primitiva existência nesse planeta.

Capricornio PB

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10 thoughts on “Psicose à moda Lou

  1. Fui descendo e imaginando que encontraria a tag Ficção lá embaixo, mas logo fui diagnosticando que o relato era tenebresoso demais para ser mentira.

    Agora o senhor pode voltar a vestir a sua roupa que estou escrevendo aqui a sua receita. A boa notícia é que sua condição tem cura: basta mudar-se para um país que não tenha o maior índice de desigualdade na distribuição de renda do planeta. Essas coisas fazem mal a qualquer um.

    Sonhei muitas vezes em fazer essa mudança. Um dia fiz e me dei mal, descobri a tal cidadania. Infelizmente, temos que construir a nossa e não é tarefa fácil, não mesmo. Obrigado pela preocupação.

  2. Lou, que brabeira hein?
    é… Brasil…]
    o bom é estar “bom”…
    enfim…
    melhoras,
    vou orar por você!
    🙂

    Obrigado, suas orações são poderosas porque você é uma mulher justa. Certamente Deus a ouvirá. Abraço.

  3. Curioso como algumas coisas da realidade da vida são estranhas. Assim como seu relato de passagem pelo hospital soa como uma história de sofrimento em uma penitenciária, me lembro do sentimento de ter recebido uma multa na via Dutra ano passado, por que uma lâmpada da luz de freio estava um pouquinho menos forte que a outra (embora ainda estivesse acendendo normalmente). Ser multado por um guarda que queria na verdade apenas um “café”, traz um sentimento semelhante a ser assaltado.

    Meu advogado diria para você se adaptar e deixar de ser rebelde. Se o cara queria um café… Bom, pelo menos ele acha que eu deveria ter aceitado tudo humildemente, mesmo que fosse uma cirurgia abdominal desnecessária. Pobres devem receber esses arroubos como se fossem bençãos, ou algo assim.

  4. Pensava que era mais uma ficção das tuas, mas vejo que não.
    Estás em boas mãos: Déde e Deus.
    Desejo as melhoras.
    DTA

    Certamente que estou em boas mãos. Além dos citados, há o pessoal do blog, aqueles que comentaram, como você, outros que enviaram mensagens por E-mail e o Rubinho que me ligou logo cedo para saber os detalhes e me dar instruções ricas. Sinto-me abençoado.

  5. Puxa! Tem tudo a ver com Hitchcock… O que supomos que vai acontecer, acontece…

    Cadê “os santos” daí para apoiarem vc nessa hora?

    Não podendo ajudá-lo de outras formas (espero que um dia possa fazê-lo), estou orando por tu.

    abraço fraterno.

    Como disse à Vilma, sinto-me abençoado. Os santos, para mim, são os que estão por aqui. Suas orações são a ajuda perfeita, não as subestime. Obrigado e um abraço.

  6. Nesses dias você fez falta pra nós, mas vejo que fez ainda mais falta pra você ser tratado como gente num lugar onde gentes são tratadas como seres inanimados; até mesmo o direito novelesco de ter a companhia da pessoa amada na hora de uma dor foi contrariado. Um lugar desses com o nome de Santa Casa de Misericórdia parece cinismo de vampiros em filmes de terror, mesmo. Melhoras tsunâmicas, meu amigo.

    Obrigado meu caro. Sei que em prisões, as encomendas (roupas, mt. higiêne, celulares, drogas, etc.) só podem ser entregues pelos familiares aos presos, na hora da visita. Agora, por que raios na Santa Casa de Misericórdia de Sorocaba, uma esposa não pode entregar as coisas ao marido? No meu caso, nem droga havia, só o carregador do celular. 🙂 Claro que precisaríamos conversar um pouco, sobre as minúcias de um lar e essas bobagens. Imagine que estava, secretamente, desejando solicitar a presença do meu Notebook. Santa inocência! Eles não permitiriam nunca. Abração.

  7. Oi Lou…eu assisto esse filminho redículo,várias vezes ao ano,hoje por exemplo, ia ter seção,me ligaram logo
    cedo transferindo para 16/09…mais 21 dias de suspense,
    depois é aquele horror mesmo…
    Fico feliz por você já estar fora desse circo…daqui, ficarei orando por você e os seus.

    Duvido,que o Sr.Alfred, se metesse a escrever histórias
    de suspense e horror se conhecesse a nossa rede pública de saúde…ele não aguentaria…

    De fato, o Hitchcook não suportaria uma seção de torturas como essa, nem que isso lhe desse o melhor dos enredos. Se estivesse em seu lugar, acho que buscaria tratamenos alternativos. Um ex-colega de escola deu outra entrevista ao Jô, foi ao ar na última segunda-feira. Ele é portador de leucemia e se trata fora do sistema convencional. Atualmente, ele mantém uma organização que distribui o medicamento que ele acabou encontrando nos EUA e está há dez anos vivo e bem, depois do diagnóstico. Se quiser ver, clique aqui.

    Sei que são diferentes, mas o aspecto motivação e esperança podem ajuda, ao menos e se não me engane. Obrigado pela preocupação e carinho. Tô me achando o tal. 🙂

  8. Lou espero que já esteja melhor.

    De qualquer forma, aqui em casa a gente acredita numa coisa chamada oração, e estamos orando pelo seu reestabelecimento.

    Claro que não esperaria menos de vocês. Obrigado, mantenha o cajado erguido, pois isso é o mais importante. Grande abraço.

  9. Meu amigo que luta…por aqui em terras lusas nada é muito diferente não, infelizmente. Estou há mais de 6 meses a espera de uma cirurgia no joelho, já passei por todos os exames, inclusive com médico anestesista e até agora nada…Mas ainda bem que somos destes que não desanimam. E cremos que, Aquele que é por nós, é maior que toda esta estrutura podre que nos rodeia. Que Deus continue a cuidar de ti e eu fico daqui a orar. Conte com isto.
    Abraço!

    Um conhecido meu teve um AVC em Lisboa quando estava por aí. Cantava muito bem, inclusive abrilhantou meu casamento ao máximo e perdeu essa capacidade, infelizmente. Nunca mais ouvi falar dele. Mas o serviço de saúde português não teve culpa, ao que se sabe. O Obama ganhou a eleição prometendo dar o povo norte americano um serviço de saúde digno. Logo se vê que trata-se de um problema mundial, cuja causa está no primeiro e único mandamento: amar ao próximo como a ti mesmo. Todo mundo pensa que nunca precisará do serviço. Obrigado pela preocupação e orações.
    Abraços para vocês, igualmente.

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