A Gruta do Lou

Prosperar sem pecar


Uma alternativa ética e bíblica aos adeptos da Teologia da Prosperidade.

 


 Disse-lhe João: “Mestre, vimos um homem que em teu nome expelia demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não seguia conosco”. Mas Jesus respondeu: “Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e logo a seguir possa falar mal de mim. Pois quem não é contra nós é por nós”. Marcos 9: 38 – 40

Nos tempos (década de setenta) em que frequentei a Igreja Cristo Salva em Indianópolis – S. Paulo, pentecostal e independente, do pastor Tio Cássio, onde me converti ao protestantismo, formalmente, comecei a ouvir falar das ideias de prosperidade. Ainda não estávamos sob a influência da Teologia da Prosperidade, que embora existisse desde do séc XIX, ainda não havia chegado por aqui, nesse formato. Se não me engano, foi o pastor norte americano Kenneth Hagin mais proeminente dentre os que fizeram a junção entre as ideias de vários pensadores de possibilidades (Robert Schuller, Norman V. Peale, Joseph Murphy, Emmet Fox, Smith Wigglesworth, Catherine Ponder, etc.), misturando pentecostalismo, ciência cristã, pensamento positivo auto-ajuda e prosperidade. Mas quem a popularizou as ideias de prosperidade (sem usar essa expressão), por aqui, foi o coreano Paul Yoong Cho, com o lançamento do livro A Quarta Dimensão pela Editora Vida. Isso só aconteceu na década de oitenta, se não me engano.

Talvez fosse necessário definir prosperidade, mas não me acho competente para tanto, embora isso não impeça uns e outros de fazê-lo. Expresso minha opinião com a foto das crianças acima, brincando, livres, integradas e com igualdade.

Pessoas sem auto-estima, sem liberdade, com a auto-imagem no chão, endividadas, sem ter onde morar, se alimentando mal, doentes, presas injustamente, abandonadas, preteridas, drogadas, bêbadas, solitárias, etc,. não são e não podem ser prosperas. Mas nosso tema se relaciona mais com a questão das igrejas pró e contra as doutrinas da prosperidade, se podemos chamar assim.

Tudo correu bem por aqui até o Ricardo Gondim lançar, em 1993, o livro “O Evangelho da Nova Era” avacalhando com as igrejas adeptas das doutrinas da prosperidade. Na relação dos livros dele, em seu prórprio site, esse livro não aparece. Para engrossar mais o caldo, outro infeliz chamado Paulo Romero lançou os Super Crentes, no mesmo ano, onde teve, inclusive, a ousadia de jogar caca na figura do Tio Cássio que, só com a unha do dedinho que lhe amputaram, fez muito mais pelo evangelho, no Brasil, do que esse bobalhão. Ele tinha os defeitos dele, pois era humano, mas foi importante, muito mais do que o Romero. Entre outros milagres, batizou a Dedé e a mim, celebrou meu casamento e me ungiu missionário – pastor.

Esses dois falastrões aí, eram ilustres desconhecidos, nessa época, e estavam só praticando a ofensa vertical para crescerem nos meandros eclesiásticos. Um deles reclama bastante, agora, por causa dos caras que fazem o mesmo com ele, mas estão de barriga cheia, ou seja, prosperaram. Faça o que digo e não o que faço. Eles praticaram a prosperidade que não querem para você e eu.

Essa maravilha abriu um divisor de águas, tipo rio Amazonas, separando de um lado, pesando poucos milhares de adeptos, as tais igrejas históricas e do outro, pesando muitos milhares de adeptos, todas as igrejas simpáticas às doutrinas da prosperidade.

De lá para cá, as igrejas da prosperidade arrebentaram em crescimento do número de adeptos, mesmo com o aumento de detratores, mais interessados em ganhar notoriedade do que por terem alguma razão. Enquanto isso, as igrejas do outro lado foram sumindo, salvo aquelas que, enrustidamente, adotaram o que era possível da prosperidade, sem aderir ou sair do armário, como as igrejas do próprio Gondim, do Ed e a Batista do Morumbi, em S. Paulo, multiplicando a passos de tartaruga pelo resto do país.

Mas a ideia não foi deles, foi copiada dos espertinhos pastores norte americanos Rick Warren e Bill Hybels que fizeram o serviço sujo de limpar e aparar as arestas das doutrinas da prosperidade, sem admitir, óbvio, vestir roupas mais da moda (na opinião deles) como camisas havaianas, Lacoste, bermudas, com calças jeens, abandonando o paletó e gravata de vez. Fizeram uma igreja da nova era mais light, digamos assim. Eles não pregam que se você der 10 para a igreja, Deus lhe devolverá mil, nem fazem correntes da prosperidade e muito menos queimam cartinhas no monte Moriá e todas aquelas coisas com cara de profanas, mas fazem reuniões com os empresários, la, la, la, e etc.

Entretanto, tirar certas práticas prospéricas fez a multiplicação de adeptos cair muito e isso carece de estudos, a meu ver. Acredito que o segredo, preste atenção pois revelá-lo-ei agora, é manter tudo, menos o pecado. Dizem por aí, que a maioria dos pastores dessas igrejas adeptas da chamada Teologia da Prosperidade, a saber: Universal, Mundial, Internacional da Graça, Assembleia de Deus-Vitória em Cristo, Renascer, etc. pecam por ambição, no mínimo. Nada que os adversários do lado de lá, também não façam, segundo dizem. Então, é só eles pararem com isso e os outros pecadinhos. Pronto!

Quando o David (Paul) Yonggi Cho veio a São Paulo e falou a um Estádio do Pacaembu lotado, eu estava lá graças ao meu amigo Walter Brunelli, que me colocou na tribuna dos pastores, ao lado dele. Ouvi o Cho profetizar que o Brasil seria o maior país evangélico do planeta e enviaria a maior quantidade de missionários da história de missões. Isso está perto de ser cabalmente cumprido e não é graças às igrejas contrárias à prosperidade.

O problema é que só as organizações humanas destroem ou são capazes de evitar a destruição da raça humana. Sendo assim, me parece que será melhor manter a igreja por aqui, pois as outras organizações estruturais da sociedade (governo, mídia, escola e família) estão mais para destruir. Evidentemente a Igreja enquanto instituição, seja da prosperidade ou da pauperidade, está sofrendo intensos ataques, em nossos dias, tanto quanto a família e a escola, instituições ainda com certa credibilidade. Essa guerra entre as igrejas não acrescenta e não terá vencedores.

Não sei se fiz a coisa certa ao abandonar a igreja, seja qual for. Tenho altas prevenções contra organizações e hierarquias e as igrejas tem e são isso de sobra. Se desse para juntar as pessoas sem hierarquia e CNPJ, para estudar a Bíblia, orar e compartilhar, acho que toparia. Em primeiro lugar, anunciar o evangelho e, depois, até poderíamos dar ênfase aos textos que estimulam à prosperidade ou discutí-los com calma e mente aberta. Acredito que Deus gosta disso, desde que consigamos manter a cobiça e a ambição desmedida de fora. Ao invés disso, dividir sempre, com quem tem menos. Mas, deixar a igreja, foi uma atitude covarde, individualista e que deve ser deixada fora do alcance das crianças.

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2 thoughts on “Prosperar sem pecar

  1. Sinceridade? Vai lá: esse negócio de prosperidade X não-prosperidade só tira o foco do principal: ser seguidor do Homem não é fácil, e olha que Ele só pediu para a gente amar a Deus e aos homens…

    1. É verdade. Pessoal, naquela época, não tinha toda essa gama desmedida de cacarecos, eletrônicos ou não, para consumir. A prosperidade financeira tem a finalidade de dar às pessoas o que é básico, mais toda essa parafernália, hoje em dia. Quase não sobra tempo para amar. Os que não prosperam, nem direito a amar e ser amados têm.

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