A Gruta do Lou

Profeta Secreto

Minha conversão protestante se deu tardiamente. Estava com meus vinte e cinco anos. Era formado e tinha minha profissão (Professor de Educação Física). Por uma dessas incoerências desta vida fugaz, iniciei meus estudos na PUC, fazendo o curso básico de Humanas (junto com pessoal de psicologia, pedagogia, fonoaudiologia, sociologia, etc.). Esse fato viria a provocar certas transformações em meus critérios de análise e síntese.

Logo percebi certas incoerências e inseguranças nos ensinos bíblicos e doutrinários da igreja, onde iniciei minha trajetória. Vinha pensando em continuar a estudar e resolvi ingressar no curso de teologia da Faculdade Batista. Fiz muitas matérias e desisti de várias. Queria aprender e não me formar, mesmo porque, o curso não era  nem reconhecido pelo MEC. Esse tipo de diploma eu já possuía, não o de Educação Física, claro, reconhecidíssimo.

Uma vez conhecedor dos meandros teológicos e devidamente influenciado pelo meio, supunha ser o pastorado meu próximo passo. Ledo engano. Até cheguei a pastorear uma congregação ali e outra acolá, mas nada que tivesse relevância. Alguns colegas estavam muito mais determinados a isso, do que eu. Destaque para o Ed René Kivitz. Meu primeiro destaque ministerial deu-se em uma área, absolutamente, em desuso entre os chamados históricos e altamente valorizada (na época) entre os pentecostais, a profecia. É isso mesmo, você não está ficando cego, ainda, fique tranqüilo.

Acontece que os chamados profetas daquele tempo tinham um jeitão a ser seguido. Preferencialmente, a função era exercida por mulheres e tudo começava com o falar em línguas. No inicio, tentei imitar essa gente, mas logo resolvi cair fora dessa forma de agir. Em mim soava falso e era falso, muitas vezes. Conclui que se eu tinha uma revelação, visão ou sonho sobre algo ou alguém, não precisava de artifícios ou pirotecnia para entregar ao destinatário. Precisava era de tato e sensibilidade.

Aparentemente, abandonei o ministério, mas, na verdade, segui praticando-o de forma velada. Quando tinha que dar algum recado, ia até a vítima e, em meio a uma conversa informal, mandava bala. Várias vezes, ouvi a frase: Deus falou comigo hoje, por seu intermédio.

Comecei a ensinar teologia em 1984, na Faculdade Metodista Livre. Depois fui agregando outras escolas. Cheguei a ensinar em quatro escolas ao mesmo tempo. Nessa época, passei a ser conhecido como professor de teologia. Fazia algumas palestras (conferências e pregações) e, apesar dos elogios, dificilmente era convidado a voltar. Quem insistiu mais comigo foi o Jasiel Gomes do “Jovens da Verdade.” Mas, a certa altura, rolou ciúmes e a Ivone (mulher dele) me chutou. No meu Orkut tem vários dos alunos dessas turmas. Alguns chegaram a morar em minha casa. Esse era meu estilo, devidamente assimilado pela Dedé.

Então voltei a ser profeta secreto. Em minha passagem pela Open Doors, recebi treinamento em Desenvolvimento (Relações Públicas e Levantamento de Fundos), do pessoal norte americano da Missão, então resolvi me tornar consultor de organizações missionárias (fosse qual fosse o campo missionário), aproveitando meu treinamento e a experiência adquirida no exercício dessa função, naquela casa. Entretanto, segui como profeta secreto.

Meu ministério profético sempre foi modesto, exceto naquele inicio, quando o pratiquei publicamente. Funcionou mais na área da revelação, pressentindo a situação e o futuro de pessoas e organizações.

Foi assim que eu me esquivei de fazer parte de vários ministérios eclesiásticos. Alguns deles, poderiam ter me dado fama e riqueza. Um deles está na pauta, em meio a grande escândalo. Nesse caso, profetizei de forma pública, quando a coisa não passava de uma igrejinha, o crescimento e a necessidade de cuidado com os desvios que poderiam levar a coisa toda para o precipício.

Esse ministério é muito duro. Difícil explicar o quanto dói ver uma profecia, desse tipo, se consumando. Pior é olhar para alguém ou uma organização e ver imagens tenebrosas. Sem falar na constante penúria em que vive, na maioria das vezes, um profeta. Hoje, então, estou em um dos meus piores dias, nesse quesito, mas não estou recebendo doações. Quero trabalho, sem compaixão.

Claro que um profeta, mesmo estando na masmorra, pode ser chamado, a qualquer instante, a decifrar os sonhos do rei e, aí a coisa pode mudar muito, se sua revelação for bem sucedida. Há risco de perder a cabeça, também. Uma profeta, minha amiga e companheira de ministério profético, chegou a esse patamar. Regozijo-me na bem-aventurança dela.

Enfim, o blog chegou para permitir a continuidade dessa tarefa árdua e solitária. Por aqui, vou destilando meu veneno profético. Claro que disfarço tudo para não ser óbvio. Aprendi isso com o Mestre. Não contar nada a ninguém, sobre as curas e os milagres, para que não venham a se converter.

4 thoughts on “Profeta Secreto

  1. Como o Mestre, vejo que faz sua lição de casa.
    Pq mudou o slogan da Gruta!?
    Cansou dos amargurados!?
    Ou os perdidos em suas falsas crenças são espécies de Grutenses!?

  2. Wander

    Agradeço sua observação. Na verdade, não tínhamos um slogan, mas um propósito que continua e é a razão de ser da Gruta. Até inclui no inicio da barra lateral. Creio que os grutenses são as maiores vítimas das falsas crenças e falácias disponíveis no mercado. Salvo algum engano.

  3. Pingback: Lou Mello

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