A Gruta do Lou

Preconceito contra adulto vulnerável

 

A expressão é do palhaço Jô Soares, “preconceito contra adulto vulnerável”. Em dias de um novo preconceito a cada dia e uma nova lei a cada hora, ora, não custava nada a Câmara e o Senado promulgarem uma lei homologando o termo e enquadrando-o como crime inafiançável na Lei Penal.

Caso essa lei já houvesse, eu teria processado uma senhora que me atendeu lá na Fundação Ayrton Senna.

Imagine você, a cena (sem trocadilho): Todo mundo me enchendo os pacovás para eu arrumar emprego. Cobranças de todo lado com predominância do Banco Itaú via empresa de cobrança. Segundo as “atendentes”, isso acontece porque a máquina que faz as ligações não pode ser parada. Cara isso me dá medo. Mesmo explicando calmamente, para os interessados, a questão da idade, das falhas de memória, rugas, falta de cabelo, saliências abdominais, dificuldades visuais e auditivas, eles insistem.

Então, certa manhã, levanto a fim de acabar com isso, pondo em prática o velho plano de tentar algo na Fundação Ayrton Senna. Olha, pode ter havido igual, agora, um incentivador do cara melhor do que eu, está pra nascer. Claro que ele morreu sem saber disso, mas é vero. Então calculei que chegara a hora de pegar um troquinho, dele, né?

Meu plano não era arrumar emprego lá, mesmo porque essa possibilidade já estaria descartada a priori. Meu objetivo era recolher do chão onde Ayrton Senna da Silva pisou, todas as fichas das ONGs preteridas pelo Instituto que leva o nome do grande campeão. Só para você entender, entre outras coisinhas, essa organização funciona como uma mantenedora de projetos benemerentes e, de quando em quando, abre inscrições para ONGs interessadas em receber verbas para seus próprios projetos, segundo critérios concebidos por Viviane e sua turma.

Escolhidas as sortudas, as outras são descartadas e suas fichas jogadas ao chão. Posteriormente, uma faxineira privilegiada (afinal ela limpa o chão em que Ayrton pisou), sem importar a cor da pele, com ajuda de uma vassoura nova (a que varre melhor) e uma pá, recolhe essas fichas desprezadas e as empacota com sacolinhas verdes com destino certo para a central de reciclagem do Lula e seu baby, salvo engano.

Minha proposta seria oferecer a essas organizações enjeitadas, como também fui muitas vezes (não lá, obviamente), a possibilidade de habilitar-se para sair-se melhor em outra oportunidade ou até, serem capazes de prover seu próprio sustento e nunca mais voltar a precisar do dinheiro da Sena, digo do Senna. O que seria melhor? Isso, ou a empresa de reciclagem do Lula?

Pois é. Mas entre uma coisa e outra, eu era um adulto vulnerável.

Tudo começou com o telefonema para o instituto. Fui muito bem atendido por uma mulher de voz jovial. Depois de expor resumidamente minhas intenções, pedi para ela me encaminhar para a pessoa certa. Ela solicitou o número do meu celular e E-mail e prometeu resposta breve. Após alguns dias, recebi uma mensagem dela informando que seria atendido por uma outra mulher, provavelmente a tal pessoa certa, em dia e hora pré-determinados.

Confiante como sempre, dirigi-me para lá. Lugar legal para se ir, em uma rua paralela à Av. Faria Lima, em um prédio tri legal, cheio de arquitetura e chiquês, entrei resoluto a recolher as fichas desprezadas. Cheguei um pouco antes do horário, apesar da minha fama injusta de não ser pontual. O problema é outro, detesto marcar encontros, reuniões, warevis, com hora marcada, especialmente em São Paulo. Mas, a mulher estava ocupada, claro, e me deu chá e um chá de cadeira de cerca de uma hora, enquanto eu tomava mais chá e fazia selfs.

Enfim, ela me chamou. Notei tratar-se de um senhora de meia idade vestindo um vestido da filha (provavelmente) ou de algum defunto bem mais magro, sobre um sapato salto 15 e, mesmo assim, ela não chegava aos meus pés, digo, queixo, fora o perfume de gosto duvidoso. Convidou-me a sentar junto a uma mesa de reuniões e tratou de sentar-se à cabeceira, só pra dar um ar de toda poderosa. Detesto essas “reuniões”. Apresentou-se, ocasião em que fiquei sabendo tratar-se de uma gerente de recursos humanos. Então perguntou o que eu desejava. Expliquei tudo Tim tim por Tim tim, apesar de saber que ela não entendia patavina de marketing, enquanto ela me examinava, focando mais o alto da minha cabeça. Não sei por que.

Ficou claro que ela havia dado uma boa olhada no meu site e já sabia que eu era um “velho” especialista em fundraiser (levantamento de fundos, vulgarmente conhecido como captador de recursos por aqui). A certa altura, fez questão de salientar o fato do Institutozinho da irmã do grande campeão ter uma excelente equipe de capetação digo, captação, com pessoal jovem e dinâmico. Entenderam a indireta? Também fez questão de salientar, diversas vezes que não estava entendendo meu propósito (deve ser parente da Dilma) e que o Institutozinho jamais iria referendar um desconhecido. Entenderam? Um adulto vulnerável e, portanto, desprezível. Fora que eu não estava solicitando referendo algum, queria era trabalhar.

Se não me engano, isso daria um processozinho por danos morais e, se a lei em favor dos adultos vulneráveis houvesse (conheço o Estatuto do Idoso) , outro por preconceito contra um idoso.

Mas ficou tudo por isso mesmo, a não ser por esse post.

Capricornio PB

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