A Gruta do Lou

Planos & Projetos

Foto: Bruno Cals

Chove lá fora. A chuva está tão fria…

Sempre que acordo com a chuva, lembro da música. Parece ser o dia das águas. Choveu a noite toda e não há indícios de trégua. No sul, há previsão de ciclones. Xiiii! Fiz algumas tentativas de localizar pessoas socorristas e nada. Pessoal enforcou a sexta-feira, mesmo. Isso para um viciado em quebra-galhos, como eu, é mortal. Aqui plantamos de manhã e colhemos à tarde para comer à noite. Desse jeito tudo vai para o beleléu. Quem será esse cara: o beleléu? Provavelmente mais um excomungado. Fato é que a geladeira está vazia e a despensa virou depósito de trecos avulsos.

Nosso projeto para os cardiopatas congênitos não vai. Talvez se fosse um cancerzinho ou uma lepra, quem sabe? Não sou de desistir fácil de uma briga. Sou do tipo que dá um boi para não entrar e uma boiada para sair. Não culpo ninguém por isso, a não ser a mim mesmo. Todos os projetos, mesmo os filantrópicos, precisam de investimento. Pode parecer esquisito, mas os projetos funcionam como um negócio qualquer. Assim como não se abre um comércio sem capital ( e quem o faz fere uma das principais leis do negócio), não se constrói um projeto social sem investimento. Nesse caso, ninguém deve agir por presunção. Mesmo que tenha dinheiro para tocá-lo sozinho, deve envolver a comunidade, pois o projeto estará destinado a ela e o pessoal deve participar em todas as fases do processo.

Enfrentando o problema há vinte anos, essa idéia cresceu dentro de nós. Comigo foi sempre um tormento a mais, pois estou envolvido com a organização de projetos, uma boa parte de minha vida. Então resolvi, finalmente, dar vida à idéia. Alguns fatores se somaram, pareceu ser a oportunidade certa e dei início escrevendo um projeto para a prefeitura e depois outro (com a mesma cara do primeiro) para o Fundo Municipal, administrado pelo Conselho (CMDCA) de Sorocaba. Ao invés de investimento, começaram os problemas. Gente que eu nunca vi brigando comigo. Estranhos demonstrando ciúmes. Gente dizendo "não", sem olhar o projeto. Até suspeitas de roubo da nossa idéia rondou o pedaço. Imagine, ninguém faz, quando aparece o otário querendo fazer, então surge essa casta que não sai sem jejum e muita oração.

Mas meu fôlego não é grande. Temos nosso filho carecendo de ajuda e estamos em uma ilha deserta com a bateria do celular descarregada. Temo precisar adiar a idéia, outra vez ou abandoná-la de vez. Cada um que se vire com seu problema. Mas me sinto culpado pensando assim. Sei o que é preciso fazer, mas não tenho como. Não há quem me coloque no poço quando as águas são agitadas, Senhor.

Não posso ficar aqui escrevendo muito, em meio a esse feriado maldito. Tenho que tratar de umas minúcias domésticas, tais como comida por exemplo. Vou à padaria tentar tapear o português, outra vez. Quem sabe não trago uns pães para casa? O Geraldo do mercadinho não acredita mais em mim e tem coração mais duro, afinal é mineirinho. O japonês do açougue, nem pensar.

Quem sabe amanhã as coisas melhorem. Grutenses sempre terminam suas reflexões com esse pensamento .

4 thoughts on “Planos & Projetos

  1. Lu, um dia fui a uma palestra do CMDCA a pedido do Jeame, e o preletor não lembro o nome, falou feito Tiago: Pedis e não recebeis porque pedis mal. E ele deu a conta da quantia assombrosa que ficava parada à disposição na falta de projetos corretos. Na hora até acreditei, mas quando repassei essa informação pro Ailton ele me explicou da enorme dificuldade em atender a um sem número de exigências. Então como é que fica, o CMDCA atende o que exatamente? O Jeame sobrevive até onde eu sei com dinheiro de fora, se bem que parece que eles perderam um mantenedor estrangeiro. A ajuda da igreja é pífia, eles vivem passando o chapéu nas igrejas, mas mesmo as batistas não mandam tanta ajuda assim, as meninas do telemarketing costumavam brincar chamando aquele mailing de vale dos ossos secos. A solução era o povo cristão entender da necessidade de se praticar o dízimo social, porque nós temos igrejas ricas, e eu estou falando mesmo das tradicionais, mas que não estão engajadas em causa social nenhuma, aqui e ali algum projeto (errado a meu ver) de cestas básicas e é só. Então os dizimistas, muitos até com muito boa vontade, estão ajudando apenas a engordar igrejas ricas, nada mais.

  2. Bete

    Anos atrás, trabalhando na excomungada Portas Abertas, criei uma estratégia de educação de pastores e igrejas (pessoas nelas) para a contribuição em favor dos projetos chamados para-eclesiásticos (missionários, sociais, culturais, etc.) Aos poucos, começamos a encontrar resultados muito bons, fruto desse trabalho. Infelizmente, não pude dar continuidade porque um imbecil resolveu pedir a minha cabeça em uma bandeja de prata, porque a mulher dele (psicóloga do Col. Batista) previu (sic) minha provável promoção para o lugar do marido dela. Muito menos, os tapados que continuaram lá, o fizeram.
    No JEAME, como em muitas outras entidades, o erro é estrutural: eles buscam doações, quando deviam buscar pessoas.
    Nosso problema com o coração Valente, é o investimento inicial. Feito isso, o segundo passo é formar uma base de pessoas sustentadoras, para não cair no mesmo erro.

  3. Aí Luiz, =)

    acabo de citar Chesterton no meu blog… dei o título da citação de: Um Deus Ateu, se vc ler vai entender o por quê.

    mt interessante, dps dá uma passada lá e me provoque + um pouquinho.

    Obrigado
    Deus abençoe

  4. V. Carlos

    Fiz a viagem até seu blog. Legal você ter ficado encucado com isso. Às vezes, as pessoas pensam que tiramos essas coisas estranhas do nada. Como diria um velho amigo e professor: depois dos gregos não inventaram mais nada.

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