A Gruta do Lou

Pisando em terra firme

Então Jesus disse a Pedro: Venha, não tenha medo! Pedro desceu do barco e começou a caminhar sobre as águas. Tudo que ele via, naquele momento, era a figura do Senhor à sua frente flutuando como ele, enquanto suas palavras ecoavam em seus ouvidos. Pouco a pouco, ele desviou o olhar para o mar, depois para o céu, sentiu o vento bater em seu rosto e as palavras do mestre sumindo. Não deu outra, começou a afundar e experimentou medo, dos grandes, daqueles em que o cara pergunta: Mas o que estou fazendo aqui?

Às vezes me sinto assim, como hoje. Gostaria, desesperadamente, de ver a silhueta do Mestre sobre as águas e ouvir suas palavras mansas, mas loucas, me convidando a caminhar com ele naquele piso nada apropriado. Parece que desci do barco, anos atrás, e agora vejo tudo, menos ele.

Estranho, pois estamos às vesperas da Páscoa e sinto-me tão inseguro e desnorteado quanto Jesus deve ter sentido em seus momentos pré cruz, guardadas as devidas proporções, lógico. Será que ele está me enfiando em mais um daqueles retiros compulsórios para me fazer andar por onde ele andou?

Nesses momentos me dá uma vontade imensa de adotar algum tipo de economia secular, capitalista ou chavista, não importa, desde que não estivesse a mercê da providência divina. Como será que o povo se sentia no deserto antes de chover maná? Putz! Me sinto péssimo. Coloquei tudo diante dele, me ofereci para fazer o que ele quiser, até cortar cana, se o ego dele precisar desse tipo de confirmação de amor e decisão. Nada.

Claro que há poucos dias eu estava me sentindo muito melhor, quando ele me providenciou o necessário, do nada. Mas sou mesmo um grande patife, dado a certas picaretagens, como pregar por uma boa oferta pré estabelecida ou mercadejar a palavra de Deus. Se bem que, nos últimos tempos, essas coisas tornaram-se escassas, também.

No momento, estou afundando e não acho a droga da mão do Mestre. Será que ele me convidou mesmo para andar aqui? Ai que saudade de uma boa e segura terra firme.

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2 thoughts on “Pisando em terra firme

  1. Pior é não ver nada, nada. Nem as outras pessoas que estão afundando ao teu lado, pelo mesmo motivo, e que também não te veem. Estar só é terrível, mais ainda quando não é verdade, mas não percebemos.
    Estamos todos no mesmo barco – ou fora dele – caminhando/afundando no mar…

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