A Gruta do Lou

Pai, o herói quase esquecido de todos nós

Seu Nivaldo, no centro.

Embora tardiamente, e considerando que onde ele está agora, os calendários devam ser diferentes, resolvi fazer uma homenagem ao meu pai, e ao pai dele, já que não consegui fazer muito sucesso como tal, nessa vida, nem no tal dia dos pais. Quem sabe na próxima, se puder aproveitar o aprendizado desta.

O Dia dos Pais não tem o mesmo glamour e apelo do Dia das Mães. Isso deve se explicar ou ser explicado pelos “competentes” senhores e senhoras estudantes de psicologia e antropologia. Provavelmente, invocariam o celebre e tradicional argumento do matriarcado, muito comum em países latinos. Esses lugares são facilmente reconhecidos por terem suas santas padroeiras, todas relacionadas à Maria, mãe de Jesus Cristo. Obviamente, essas santas são atribuídas pela Igreja Católica, ao longo da história, por critérios desconhecidos.

Por outro lado, o primeiro grupo de estudiosos poderia invocar o Complexo de Édipo,

English: Sigmund Freud
English: Sigmund Freud (Photo credit: Wikipedia)

mais a gosto de seu padroeiro Sigmund Freud.

A grande verdade, como diria o velho político e um dos mártires da “Revolução” de 1964 Dr. Adhemar de Barros, em que pese um cem número de acusações contra ele, todas declinadas por seus opositores, mãe é santa. Inclusive, esse senhor teve o cuidado de nunca mais fazer sexo com sua mulher, pois ela se tornara mãe com a ajuda dele e não ficaria bem fazer essas coisas pecaminosas com a mãe, que é santa. Direcionou essa tarefa à sua já super atarefada secretária, segundo dizem por aí.

Sendo assim, nós brasileiros, que não somos tão latinos quanto os hispânicos, também temos nossa padroeira, a santa mãe de Jesus Cristo, devidamente projetada em nossas próprias mães. E isso não é privilégio só de católicos praticantes, mas de todos os brasileiros, se não me engano. Raras seriam as exceções. Duvido que queiramos ouvir a explicação freudiana sobre o fenômeno. Só de ouvir, nos sentiríamos muito mal e sujos. O barato é que isso atinge a todos, inclusive as mulheres brasileiras. Nem por isso, estou isentando o povo do resto do mundo. Cada um arrumou um jeito de sublimar seu complexo. O que quase ninguém faz é superá-lo.

Então ficam todos por aí exaltando suas mães como santas. Nada contra homenagear e amar (nunca no sentido do amor eros, lógico) a mamãe. Muitas delas merecem mesmo, pela generosidade e cuidado que têm ou tiveram com seus filhos. Outras, nem tanto.

Bom, meu pai, originalmente Nivaldo de Mello, não foi um grande pai. Na verdade, poucas vezes conversamos como os psicólogos e pastores preconizam que pais e filhos devam conversar. Uma vez eu sai da escola e fui para a casa de um colega sem avisar ninguém. Fiquei lá com meu amigo até o final da tarde, depois a santa mãe dele nos serviu um lanche gostoso, até onde posso me lembrar, pois estava no auge de meus oito anos de idade, até que o imprestável do pai dele achou por bem me levar para casa. Quando chegamos, havia uma pequena multidão lá, com carro de polícia e tudo, sei lá por que. Desse momento, só guardei a imagem de meu pai demonstrando um alívio do tipo “A Guerra acabou” e meu filho voltou vivo para casa.


Meu avô, o cãndido Sr. José  Cândido de Melo, virava meu pai durante as férias escolares de julho, quando eu era depositado sob sua tutela lá em São José dos Campos, onde meus parentes paternos e maternos se materializaram. Ele era legal, Juiz de Paz, uma figura que saiu de cena e talvez não devesse, advogado, violinista, mágico, barbeiro, dono de bar, farmácia e tudo que dava grana, na época, fora a agiotagem que ele praticava sem conhecimento das autoridades, embora muitas delas utilizassem seus serviços nessa área, sem falar em seu hobby pouco ecológico de criar passarinhos em cativeiro. Era um cara interessante, mas autoritário e pão duro, até. Para azar do meu tio mais novo, parecia gostar mais de mim do que dele, o que resultou em alguns rounds de luta livre, sempre vencidas por mim. Isso dividia o pessoal, uma tia a meu favor e o
utra a favor dele. Então o juiz, meu avô, sempre me absolvia, deixando meu tio com a culpa. Isso nem sempre era justo.

 Voltando a meu pai, nos tempos de juventude, todos os sábados ele corria para casa antes do sol se por (costumava passar os sábados por aí, não imagino onde) para me levar dinheiro. Ele temia muitíssimo que eu não tivesse dinheiro para sair com a namorada da vez. Talvez tivesse algum trauma disso, sei lá. E para terminar a série de elogios, ele era um cara muito talentoso, desses que sabe cantar, representar, desenhar, pintar e tudo que desejasse fazer. Esses dotes eram ótimos, principalmente, quando eu era criança, nas enfermidades e nas festas juninas, quando demos grandes shows por onde passamos. Explico, ele nos caracterizava, a família toda, como perfeitos caipiras, com script e tudo, e éramos a atração principal desses eventos, sempre.

Ah! Em tempo, talvez deva me orgulhar por meu pai ter sido um dos primeiros atores da televisão brasileira, quando em 1950 representou papeis na chamada Novela Caipira, coisa que só eu devo lembrar., embora não houvesse nascido nesse tempo. Depois voltou em alguns capítulos do Vigilante Rodoviário, na década de sessenta, onde também atuei como figurante, uma ou outra vez.

Salve seu Nivaldo ou como era conhecido no meio artístico, seu Carlos Ayrthon (Esse nome era uma homenagem a um irmão meu falecido, que nunca conheci), meu pai, de quem tenho relativa saudade.


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