A Gruta do Lou

Onde não há Torá não há farinha

De Nilton Bonder, em A Cabala do Dinheiro

Tenho um amigo judeu, o Daniel Fresnot, ele traduziu o livro de Jó de uma edição francesa da Torá e agora está traduzindo o Gênesis. Noite dessas, me ligou perguntando o nome do receptáculo mencionado por Jesus na comparação do vinho. Isso me fez pensar (e não me venha com piadinhas sem graça, sei que demoro para entrar nesse estado superior das raras mentes pensantes) quanto nós sabemos do valor real desses textos sagrados que temos em nossas mãos, em forma de bíblias?

Vivemos em uma era onde quase tudo que há foi ou está em processo de banalização. Os textos sagrados não são exceção. A fragmentação a que eles estão sendo submetidos, as interpretações horrorosas e tacanhas, as manipulações e abordagens desrespeitosas, para dizer o mínimo, estão em nossa frente gritando por misericórdia e socorro. Há, por todos os lados, um utilitarismo cruel e irresponsável de uma de nossas melhores fontes da vida.

Tenho, insistentemente, batido na tecla da miserabilidade a que homens e mulheres estão submetidos mundo afora, a começar comigo. Nossos pastores e irmãos espirituais tornaram-se nulos em seus próprios conhecimentos e, sobre o que não entendem, fazem ousadas asseverações, quando o assunto diz respeito a essa massa humana falida e gritante por socorro. Parece-lhes mais fácil carimbar essa gente com o rótulo “vagabundo” a debruçar no estudo incansável dos textos bíblicos, subtraindo os ensinos sagrados neles contidos para poder usá-los em seus ministérios, depois. Você e eu sabemos que esses conteúdos mais densos não estão à tona. Para encontrá-los é preciso cavar fundo e isso implica em trabalho pesado.

Não sei qual seria a razão, mas me parece que há uma espécie de contrato secreto onde reze que pessoas em situação de penúria e endividamento não mereçam mais meros tratamentos humanos, como se houvessem descido abaixo dos seres que rastejam sob a terra. O texto acima, sem dúvida, nos remete a Elias e sua viúva predileta e não me entenda mal, o profeta encontrou uma dessas pessoas transformadas em uma pária pela sociedade e, muito mais do que um milagre, entregou-lhe a Torá, em outras palavras, praticou os textos sagrados. Não havia farinha, portanto não haveria ali a Torá. Não se sinta desconfortável se isso não lhe lembrar nenhum dos pastores a quem você costume dedicar seu dízimo e melhores ofertas.

Evidentemente, o texto sagrado ensina que a razão para existir tantos abaixo da linha da miséria é exatamente proporcional a tantos que desconhecem ou não possuem a Torá, ou os textos bíblicos sagrados e, portanto, estão desprovidos de farinha ou qualquer outro bem necessário para tirar-lhes desse estado. Onde não há Torá não há farinha. Grave bem esse texto.

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

3 thoughts on “Onde não há Torá não há farinha

  1. Por via das dúvidas,estou tirando o pó da minha velha Bíblia.

    Você me fez lembrar a história do pastor que foi visitar uma irmã e perguntou se ela estava fazendo as leituras bíblicas, ela respondeu que não, pois havia perdido os óculos. O Pastor procurou e achou a bíblia da mulher e sobre o livro sacro, adivinhe, os óculos dela.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.