A Gruta do Lou

Ócio improdutivo

E o vento levou
E o vento levou

Capitulo I – Segunda Feira

Certas segundas-feiras, como hoje, tudo que desejaria ser era um desses malucos existentes por toda parte. Desses neuróticos que saem às segundas feiras para o trabalho.

Sim, porque eles têm um trabalho e, muito provavelmente, uma carteira de trabalho com um registro de trabalho e, depois de fazerem a mesma coisa vinte e poucos dias de cada mês, em dia certo recebem um bom valor em dinheiro por isso, descontados os encargos, impostos, etc.

Estranho, mas tenho a sensação de serem todos mais novos do que eu. Para encontrar gente de minha idade, nesse dia e hora, só indo andar na ciclovia da avenida, a pé.

Posso estar errado, mas suspeito que a Dedé, também tem esse tipo de pensamento, certas segundas feiras. Talvez, nada muito certo, ela fique invejando as vizinhas, cujos maridos saem para o trabalho, sim porque se supõe que essa seja a razão deles saírem todas as segundas na mesma hora, faça sol ou não.

Há um grande risco dos meus filhos pensarem o mesmo que os pais deles, às segundas-feiras, ou em algumas delas. Quem sabe eles pensem em forma de pergunta, do tipo: Por que meu pai não sai todas as segundas feiras para trabalhar como fazem nossos vizinhos, amigos, parentes, ou seja, essas pessoas normais e bem adaptadas. Tinha que ter nascido em um lar onde há um pai desequilibrado como o meu, que nessa altura do campeonato, não tem emprego e passa o dia todo grudado no computador escrevendo em blogs e lendo bobagens?

Como ninguém ousa me dizer nada disso, a não ser em meio a alguma discussão mais exaltada ou em situação de excesso etílico, sigo me escondendo atrás do contrato secreto do casamento (aquele que existe, mas ninguém nunca viu) e ai daquele que disser qualquer coisa fora do script. Sou um grande vagabundo (denominação usada para definir pais quem não trabalham em empregos fixos e estáveis, mesmo se desejarem), mas ninguém tem o direito de me lembrar desse detalhe.

Sabe, não é a melhor situação da vida, em plena segunda feira, ao invés de estar no meu trabalho aguentando algum chefe neurótico ou psicopata, fazendo um trabalho detestável, estar fazendo junto com um bando de caras com os quais não teria nenhuma afinidade, mais a loira velha e mal oxigenada me assediando com aqueles olhares constrangedores, com as pernas escandalosamente cruzadas, cheias de fashion lags e a japonesa muda me censurando só com seus falsos olhares, sem saber o quanto detesto estar ali e a todos eles.

Embora isso me assegurasse uma grana compulsória na conta, todos os meses. Ao invés disso, estou aqui no conforto do lar, em meu próprio computador, me sentindo culpado por estar aqui onde gostaria de estar, escrevendo no meu blog, essas palavras sem nexo e nenhuma relevância.

Sem falar no fato inquestionável dos milhares de pessoas iguais a mim, homens e mulheres na meia idade que estão escrevendo em seus blogs, em plena segunda-feira pela manhã, enquanto as contas continuam vencendo e o mundo está prestes a desabar sobre suas cabecinhas ocas, não passarem de uma cambada de vagabundos pessimistas e perdedores ou estão aposentados e abandonados, o que dá no mesmo.

Não sei por que insistimos em não pensar positivamente e em não transformarmo-nos através de alguma mudança comportamental. Sabe, você e eu precisamos pensar em nossas esposas (ou maridos vagabundos) e filhos. Eles não têm culpa de nada. É preciso ir à luta.

Saia já e cate papelão e latinhas de refrigerante vazias, durante o dia todo e depois vá vender lá no depósito de recicláveis da prefeitura, administrado pelo cunhado do ex-vereador Julio Cesar, aquele pulha. Com sorte, antes das onze da noite você estará em casa e, pasme, com doze reais no bolso, se voltar a pé, e nada nas mãos ou nos pés, além de bolhas e arranhões, claro.

Pior é ser o único a pensar que seria digno de algo mais nobre e recompensador. Por que não? Silêncio total. Anos atrás, o Douglas, aquele que levei para a Portas Abertas por julgá-lo um bom contador e hoje é o secretário executivo (lugar onde eu deveria estar) me aconselhou a arrumar um emprego de garçom. Nada mais apropriado para uma cara jeitoso e nada estabanado quanto eu.

O pastor Jonathan, aquele da Missão Antioquia e Vale da Benção que levei para a África como parte de minha equipe missionária, fez melhor:  aconselhou-me a abrir um pequeno comércio, algo como uma banca de jornal ou uma lanchonete. Segundo ele, poderia começar com um carrinho de cachorro quente em alguma esquina e depois evoluir.

Já o Zenon, a quem considero o melhor pastor terapeuta da paróquia, ganhou de todos e me nomeou seu vendedor de livros nº 1, em uma equipe onde só havia eu. Em dias de Curso de Aconselhamento para Pastores, vendia muito bem, especialmente naqueles quando o Pastor Ageu Silva (ex-vice presidente do Bradesco e atual pastor de uma Igreja Batista em Osasco) aparecia. Era uma festa. Voltava para casa de Metrô com metade dos livros que levara em meu carrinho transportador de malas, adaptado para transportar livros, com alguns pedaços de papelão, aqui e ali. Livros da mais elevada procedência, óbvio.

Se não me engano, todos eles e mais alguns, estavam querendo me dizer alguma coisa. Sei lá. Talvez esteja mais para plebeu do que para nobre. Agora se Deus tinha para mim esses propósitos mais populares, deveria ter me enviado ao mundo negro e forte. Putz! Como sou preconceituoso. Pode? Por que um quase branco e estatura nada a ver não pode carregar sacos de cimento e mexer massa para os mestres de obras nordestinos? Que besteira! Numa coisa todos estão certos, caso houvesse insistido, daria um péssimo pastor. Talvez, nesse instante, estivesse cumprindo pena em alguma praia paradisíaca da Flórida, ou andando por aí em minha Harley para passeios sabatinos.

Mas é segunda-feira e estou aqui me sacaneando com péssimos pensamentos e, pior, sem saber onde despejar minha carcaça inútil. Se você veio à Gruta em busca de alento, danou-se. Gruta é lugar de párias, desiludidos, endividados, desenganados e procurados pela Cia, feito o Ben Laden, o líder das FARC e eu.

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5 thoughts on “Ócio improdutivo

  1. Tem lugar para um cafajeste, católico por profissão, que sai pra trabalhar toda segunda-feira na ONG de sua Igreja e, durante o expediente, goza de grandes doses de leitura de blogs protestantes, ateus e, pasme!, até pentecostais, enquanto o que tem pra fazer vai cavalgando em sua incompetência, com a devida precaução de colocar, em qualquer papel desavisado, em cima dos papéis que estão em cima da mesa, adesivos nos quais escreve “pronto”? Tem lugar, tem?

  2. Animador de festa infantil, cansa um pouco, mas a grana é boa e dá
    pra comer bem.

    Segurar cartaz tipo: Compra-se Ouro, deve render 10,00 pilas ao
    dia, mas tem lanche, embora a condução seja por sua conta…

    Meu amigo,você não está Só !!!

    Vagabundos Unidos,jamais serão vencidos!!!

    Ah! Ja fiz isso, uma vez, animar festa infantil. Os pais dos meus alunos viviam nos convidando (professores de E. Física) para isso. Na única vez que aceitei, ouvi o pessoal dizer em nossa chegada: os palhaços chegaram. Nunca mais aceitei. Poderia fazê-lo como palhaço, nunca como professor. Agora, ainda não experimentei segurar a placa. Me conhecendo bem, acho que nunca o farei, a menos que seja uma situação de sequestro. 🙂

  3. Pelo que se depreende da definição dos filólogos, o ócio se coloca como o oposto ao trabalho; aliás, nesse sentido, o negócio se mostra como a negação do ócio (neg-ócio). Lou,o trabalho com patrão e carteira assinada é mesmo uma escravidão(coisas do capitalismo selvagem),horrível,por vezes torturante. Mas e um negocinho próprio não seria legal?Olha,como disse a Raquel,nessa você não está só,quantos nessa mesma situação!Estarei de todo o coração torcendo por você.Vamos pedir pra Papai do Céu. Sei que nos seus Posts,você desenvolve personagens,mas nesse parece que você está se abrindo,salvo engano…não se zangue comigo,pois gosto muito docê e dos seus… Grande abraço,e gotinhas de bençãos dos céus…

    A sua resposta está em Oséias. Deus ordenou-lhe casar-se com uma prostituta para entender (ele profeta) como Ele (Deus) sentia-se em relação ao seu povo. O princípio é: o profeta é chamado a sentir as dores do povo a fim de poder ajudá-lo e não acredito em profetas que não são capazes disso. Agradeço sua preocupação sincera.

  4. Lulão, segunda feira é meu dia de acordar com uma bola gelada no estômago. Se já era quando eu tinha emprego, imagine agora?
    Ce acredita que já tem vizinho comentando que eu não quero mais saber de trabalhar? isso porque uma vizinha apareceu aqui pedindo um currículo meu (detalhe, eu não tinha me queixado pra ela nem pra ninguém) eu eu por pouco não mandei ela à m…

    Eu explico: os vizinhos aqui só pedem currículo da gente por curiosidade, pra fuçar, nunca recebi ajuda de vizinho, não vai ser agora. Mas ganhei fama – vagabunda. E de uma vizinhança que quase não me vê, ou seja, desde os meus quinze anos eu trabalho fora, bastou parar um pouco, estar sem rumos, sem respostas, e…virei vagabunda. Mais um rótulo pra minha coleação.

    Isso é bom. Primeiro porque Jesus gosta desse tipo de pessoas e quando eles lhe dão esse “apelido'” a estão colocando nos braços do Salvador. Depois, é…. bom…. manda eles a m…

  5. Vagabundos unidos, na internet jamais serão vencidos!!!!
    Sou um péssimo vagabundo: vivo cheio de afazeres! Agora mesmo, preciso parar de ler meus blogues favoritos pra ir ao banco desbloquear a senha de acesso à conta do meu condomínio (deram-me a função de tesoureiro, visto que não tinha nada pra fazer mesmo…) e ao correio, postar uma carta pro meu sogro (outro vagabundo, só porque se aposentou e é procurado por credores).
    Esse tal de ócio, não conheço não. Já osso… é duro de roer!

    É… você precisa se corrigir logo, antes da próxima reunião da diretoria de nossa sociedade. Nesse caso, caberia uma exclusão sumária.

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