A Gruta do Lou

O Revolucionário

cem_mil_1 Cem mil marchando pelas ruas de São Paulo

Estou assistindo à minissérie “Queridos Amigos” e experimentando sentimentos estranhos. Parece que a ideia da autora é enfatizar o valor da amizade, vamos ver. Nunca vi nada melhor do que o filme “A Felicidade Não se Compra”(em minha filmoteca) em louvor a esse tema. Espero que a Maria Adelaide Amaral supere o meu preferido Frank Capra, dessa vez.

No enredo dela, a ambientação é feita em um tempo (uns vinte anos) após os acontecimentos da penúltima ditadura no Brasil (a última está em andamento, mas poucos deram-se conta). Logo no começo, houve uma cena que cheguei a pressentir minha aparição em pleno horário líder de audiência da maior monopolista da televisão brasileira. Era a chegada do falecido Ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, em 1979, no aeroporto do Galeão.

Por uma dessas coincidências esquisitas, ele e eu voltamos do exílio no mesmo dia e hora. Não sei qual foi o voo dele. O meu, era um KLM originário em Rotherdan, com escalas em Zurique e Las Palmas. Na verdade meu exílio foi voluntário, pois eu viajara dois meses antes, com destino à Albânia, e com o objetivo de pesquisar a situação da igreja cristã, sob o domínio do governo marxista leninista de Enver Hoxa, onde estive por duas semanas, de fato. Sob os auspícios de uma missão norte-americana, andei pela Áustria, Albânia, França, Bélgica, Alemanha, Holanda, etc., ajudando a igreja sofredora (onde não havia liberdade religiosa).

Fui liberado da estranha alfândega carioca e segui rumo à porta de saída. A meu lado seguia esse senhor baixinho. Por um minuto ficamos sós e ele me olhou e me cumprimentou e eu retribuí, pensando, conheço esse coroa de algum lugar. As portas automáticas se abriram e uma legião absurda de fotógrafos e pessoal de rádio e TV disparou flashs e e luzes em nossa direção. Cheguei a ter o ímpeto de dizer a ele algo do tipo: Acalme-se! Não sei como eles descobriram que eu estava chegando agora. Felizmente toda aquela zorra era para ele e não para mim. Minha missão continuava secreta e salva.

Esta cena foi ao ar na minissérie. Não consegui ver se eu cheguei a aparecer ou não. Certamente o filme original guarda a minha imagem junto com o Miguel naquela histórica chegada.

Comecei então, a pensar e lembrar os fatos daqueles anos em que as coisas aconteceram. Nessas histórias que costumamos ouvir e ver sobre essa época, os heróis da resistência e virada democrática, sempre são atuais políticos, artistas, escritores e jornalistas.

Fico pensando nos milhares de heróis anônimos que lutaram a meu lado, (sim o lado Lou “o revolucionário”,) nas ruas do centro de São Paulo contra a maldita Força Pública.

Gente que me passava bolinhas de gude para jogar no caminho dos cavalos daqueles infelizes, ou os caras que me ensinaram a devolver bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo para o lado das forças repressoras.

Pessoas com as quais invadi prédios do centro sob fogo cerrado desses militares assassinos. Vem-me à mente os milhares de brasileiros paulistas com os quais marchei resoluto por aquelas ruas queridas em favor da liberdade e democracia.

Participei de comícios onde gente como José Dirceu, Luiz de Paula Travassos e Wladimir Palmeira nos juravam que podíamos ficar tranquilos que não haveria repressão. Isso nunca aconteceu. Em todas as minhas participações dei de cara com os ratos atirando todo tipo de merda em cima de nós.

Nessas horas, nunca vi esses líderes, apenas os anônimos como eu estavam lá. Pior é que eu era um mero representante dos secundaristas, enquanto eles todos representavam os universitários.

Depois dessas escaramuças, tínhamos que voltar para dormir sobre o telhado de nossa escola ameaçada de invasão pela Operação Bandeirantes e o CCC (Comando de Caça aos Comunistas) que além do amável pessoal do Dops, tinha a folclórica participação dos nossos irmãos presbiterianos do Mackenzie. Nossa disposição era enfrentá-los até a morte. Que bobagem.

Se soubesse, exatamente, pelo que estava lutando de verdade, teria gasto melhor aquele tempo. Nunca fui citado em nenhum relato desses escritores, artistas, jornalistas e políticos que se fizeram heróis de nossa revolução. Tão pouco meus milhares de companheiros de batalhas pelas ruas da cidade. Meus romances daqueles dias não serão transformados em minisséries e essa história nunca fará parte de livro algum que se preze.

Mas eu participei dessa droga. Jamais esquecerei o sangue correndo na face de meus irmãos desconhecidos, naqueles dias.

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11 thoughts on “O Revolucionário

  1. A Bel, postou sobre essa nova mini série. Eu imagino que ela vá mexer mesmo com os sentimentos dessa geracao. Afinal de contas foi um ano dourado e que nao vai voltar.

    abracos

  2. Georgia

    Para mim não foram anos muito dourados, diria que foram mais avermalhados. Meus colegas foram presos, alguns sumiram e eu conheci os meandros do Doi-Codi e, se meu pai não conhecesse as pessoas certas, não sei se estaria aqui escrevendo, hoje. Nesse caso, talvez a ditadura tivesse feito um bem. 🙂

  3. Ale

    Só escrevi esse texto porque há tempos me incomoda esse negócio desse pessoal (artistas, políticos, escritores e jornalistas) monopolizarem a luta só para eles. Não nego a participação de ninguém, mas queria homenagear os ilustres desconhecidos como eu e a nossa importância no processo, tanto quanto a dos figurões.

  4. Vilma

    Você veio. Legal! Quem sabe na próxima você se anima e até faz um comentário daqueles seus especiais que tanto me motivaram ao longo dessa jornada.

  5. Eu também sou culpada de algumas bobagens. Só que o detalhe é que eu era bem mais novinha que você. .. Costumávamos nos ajuntar no Largo São Francisco, para ler poemas de Pablo Neruda e Lorca, porque a repressão não entendia espanhol, então a gente mandava ver nos textos. De vez em quando algum milico se enchia e tascava uma bomba de gás lacrimogênio. Pra mim aquilo era uma festa. Viu? Por ser novinha, só curti o lado bom da coisa, a agitação, a emoção e a bagunça…

  6. Amigo Lou,
    Apois, o filme “A Felicidade Não se Compra”, doFrank Capra, só me faz pensar que a felicidade vale o mesmo dinheiro que ele ganha no final, aí parece mais uma balela e eu me distraí de novo.
    Depois, esta minissérie global, me parece como as outras todas; distração de novo e sacal.
    Os amigos são sempre o da ocasião, é quem está bem perto, é quem te conhece agora.
    Lamento se por um acaso eu lhe parecer insossa e má, mas eu sinto muitas coisas boas hoje, amanhã não sei.
    Beijos muitos,
    L.

  7. Oi Lou, concorco com vc e parabenizo por lembrar-se dos incógnitos (que na grande maioria das vezes são os que “fazem” a história)…tenho muitos amigos e amigas que viveram essa fase de nossas história, que sofreram e foram violentados física e moralmente nos porões sujos e nefastos do poder vigente, meu pai como alemão tb foi perseguido e tivemos que nos mudar de São Paulo para uma fazenda no interior do Vale do Paraíba….não me lembro de muitos fatos, mas o medo jamais esqueço.
    Alice

  8. Pingback: Lou Mello
  9. Não participei de nadinha disso pois era mais nova. Mas parabenizo o pessoal que lutou contra o regime repressor. Incógnitos, todos, tiveram o seu valor. Mas pra variar, como sempre, quem fica na frente da batalha são os que serão esquecidos. Não chore, o importante é a luta pelo ideal e a participação…

    Isso foi apenas a exaltação de uma lembrança. Não vale mais nada. A história requer novas ações, coisa que compete às novas gerações.

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