A Gruta do Lou

O Reino chegou

“Aquele, porém, que lhes prega o evangelho de Jesus precisa conhecer a fundo a significação original de suas palavras e chegar da verdade histórica à verdade eterna. Empenhando-se nisso terá amiudadas oportunidades de observar que só assim começará a entender realmente o que Jesus nos tem a dizer!”

Albert Schweitzer em Minha Vida e Minhas Idéias

Certo professor disse que os mitos estão aí para serem derrubados. Um colega de seminário, em plena aula de Novo Testamento, cujo professor era ninguém menos do que o venerável Dr. Russell P. Sedd, perguntou se Jesus não teria sido um mito. Foi a única vez que vi no rosto do magnânimo mestre uma raiva incomensurável. Também não penso, sequer, na possibilidade de Jesus ser um mito. Entretanto, uma parte considerável do que se diz dele faz parte de uma mitologia incomparável e sem precedentes ou pós com dentes.

Desde criancinha, ouço falar pela cidade que Jesus veio para nos salvar. Devido à beleza, encanto e puerilidade dessas palavras, deixei ficar sem nada questionar. Entretanto, Albert Schweitzer causou impacto suficiente para abalar minhas estruturas mitológicas a respeito do Mestre Nazareno. Jesus nunca solicitou a repetição da ceia, conforme os melhores textos de Marcos e Mateus, frustrou-se com a missão dada aos discípulos, bem como desencantou-se com a própria na tentativa de convencer o povo sobre a chegada do Reino de Deus e o arrependimento, como prática melhor se comparada ao sacrifício, muito ao gosto judeu, que não redundou em cumprir seus objetivos perdoadores.

O povo religioso daquela época acreditava em sangue por sangue e dente por dente. Essas crenças vinham de longa data. Abraão passou por uma experiência duríssima, envolvendo seu único filho, para entender que Deus não aprovava tais práticas. Se conheço bem ao Criador, ele tinha e sempre teve verdadeiro horror a tais métodos, embora a questão da redenção devido ao pecado seja inevitável, do nosso ponto de vista. Jesus chegou com uma conversa que eles não queriam ouvir, tanto quanto nós, em nossos dias, não queremos escutar. Certa vez, um homem que andava por nossa igreja, e de bobo não tinha nada, veio com um papo onde afirmava não haver perdão para ele, pois havia tirado a vida de uma pessoa. Olhei para todos os lados e para dentro de mim e fui obrigado a concordar, não havia a menor chance de perdão para ele ali, a não ser que concordasse em nos deixar esquartejá-lo ou algo assim.

Apesar de tudo que se passou lá no Golgota e nas vinte e quatro horas que o antecederam, até hoje, cremos que tudo aquilo ocorreu porque temos pecados tão graves que só as dores, o sangue e a morte, e morte na cruz, do cordeiro, filho único de Deus, poderia nos redimir e olhe lá. Mas a pergunta que não quer calar é: Essa era a idéia de Jesus? Não creio. O sofrimento, o sangue e a morte vicária satisfazem nossa sede vampiresca e nossas religiões e crenças pagãs. Mas Jesus não fez nada disso para nos salvar. Desculpe se isso contradiz suas convicções milenares.

Perdão e salvação da parte de Deus pai não podem, em hipótese alguma, depender de recíproca humana, mesmo que a vitima tenha sido o filho encarnado dele e Jesus sabia disso. Na verdade, trata-se e sempre se tratou de uma ação voluntária nascida desde o momento em que o pecado iniciou sua caminhada nesse mundo, a partir do ato tresloucado de Eva, a serpente, o chifrudo do Adão e todos os idiotas que descendem deles. Deus resolveu perdoar. Só isso. Não há sacrifício capaz de saldar ou corresponder a tal gesto divino, nem mesmo a infeliz morte de seu filho.

Quando Jesus percebeu que sua pregação benevolente e desinteressada, seja por sua boca ou a dos seus discípulos, era inócua, entendeu a inevitabilidade de sua morte. O mundo daquela época e de qualquer outra era, jamais perdoaria alguém com um discurso herético daqueles. Que história é essa de arrepender-se e receber o Reino de Deus? Só isso? Não conseguimos acreditar nisso. Se Jesus houvesse morrido com o propósito de pagar nossa conta, teria consumado a maior contradição da história. Claro que ele, sendo o filho de Deus, poderia ter dado um jeito de se livrar de toda aquela tortura desnecessária. Entretanto, percebeu que a sua não intervenção na história redundaria na perpetuação de sua mensagem: Arrependei-vos, pois é chegado o Reino de Deus.

lousign

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6 thoughts on “O Reino chegou

  1. Lou,
    Penso que reduzir a redenção ao que se passou no Golgota e no dia que que o antecedeu, conflita com a afirmação da Bíblia que apresenta Cristo como sendo o Cordeiro de Deus que foi morto já na fundação do mundo. ( Apc. 13:8 ).

    Paulo

    Obrigado pelo comentário. De fato, esse é um dos conflitos. A menção ao Golgota foi só uma alusão ao sacrifício. Meu propósito foi mesmo levantar a bola sobre graça X sacrifício. Como a graça se encaixaria em um contexto de expiação, etc. Uma conversa para muitas horas. Um abraço.

  2. Um argumento multifuncional, meu caro: 1. Já podemos esquecer os outros crucificados (afinal, eles merecem, né?); 2. Estamos tranqüilamente quitados da suposta dívida (podemos comemorar, louvar e nos emocionar); 3. Todo mundo deve saber disso, por bem ou por mal (e com um lugar especial e quentinho para os infiéis); 4. Hollywood agradece…

    Tá limpo, se entendi. Sou meio fraco em ler receitas, pois não consigo decifrar a letra dos médicos. 🙂

  3. Lou, discordo. Se é que eu entedi. Mas lembro da segunda carta de Coríntios 12.9 onde diz que a graça dEle nos basta. Se basta quer dizer q é suficiente. A graça pra mim é o sangue derramado, a redenção. Concordo com o ponto de vista de nosso amigo Paulo Silvano.
    😀

    Eu sei e como sei. Nem na próxima encarnação admitiremos tal sandice. Imagine aceitar uma salvação básica pela graça, sem sangue, suor e lágrimas, sem falar na via dolorosa. Só um insano como eu para pensar uma tolice dessas. 🙂

  4. Essa coisa toda é muito complicada, né? Me lembrou o infindável estudo do Brabo “Nasce um Homem” que, creio eu, deve desembocar na mesma discussão. Veremos.

    Veremos…

  5. Pois é, e eu pensava que era a única herege… Sempre desconfiei que Jesus castigou a todos os que não entenderam a Graça do Reino, morrendo de forma dramática, prá não dizer trágica, para nos fazer carregar a culpa por essa morte… “Castigo eterno” ou inferno.
    Eita cara sabido, pô!

    Como o mestre tinha o objetivo oposto, nos livrar da culpa, a sua morte não teve o significado que corre por aí, há uns quinhentos anos, pelo menos, quando Lutero suspeitou desde o começo.

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