A Gruta do Lou

O quê um bilionário deveria doar – e o quê você deveria?


The New York Times

Quanto vale a vida humana? Você até pode não querer colocar um valor, mas se realmente tivéssemos que o fazer, a maioria concordaria que este estaria na casa dos milhões. Para sermos consistentes com a base de nossa democracia e nossa constante crença na dignidade intrínseca do ser humano, também concordaríamos que todos os seres humanos são criados da mesma forma, ou seja, de que sexo, etnia, nacionalidade e residência não alteram o valor de uma vida.

Com a chegada do Natal e muitos americanos assinando cheques para suas favoritas instituições, esta é uma boa hora para perguntarmos como estas duas crenças – de que se a vida humana se pudesse ser avaliada estaria na casa dos milhões; e de que os fatores antes mencionados não influenciariam nesse valor – se alinham às nossas ações. Talvez neste ano estas questões estejam permeando outras discussões mais conhecidas, já que este foi um ano extraordinário para a filantropia, especialmente a focada na luta contra a pobreza global.

Para Bill Gates, fundador da Microsoft, esse ideal de avaliar todo ser humano da mesma forma começou a conflitar com a realidade alguns anos atrás, quando leu um artigo sobre as doenças existentes nos países em desenvolvimento onde estatísticas mostravam que meio milhão de crianças por ano morre devido ao “rotavirus”, a causa mais frequente de diarreia em crianças. Ele nunca havia escutado falar desse vírus. “Como eu podia nunca ter ouvido falar de algo que mata meio milhão de crianças por ano?”. Ele então descobriu que milhões de crianças morrem em países em desenvolvimento de doenças que foram, ou praticamente foram erradicadas nos Estados Unidos. Esta informação o chocou, pois ele imaginava que se existem vacinas e tratamentos que podem salvar vidas, os governos fariam qualquer coisa para que as pessoas que necessitam tivessem acesso a eles. Conforme ele mesmo falou em uma reunião da Assembleia da Saúde Mundial em Genebra no ano passado, ele sua esposa Melinda, não podiam “escapar da triste conclusão de que no mundo atual, algumas vidas são vistas como merecedoras de serem salvas, enquanto outras não são.” Pensaram para si mesmos, “Isso não pode ser verdade”, mas sabiam que era.

O discurso de Bill Gates na Assembleia da Saúde Mundial foi concluído com um tom positivo, com a esperança de uma próxima década onde “as pessoas irão finalmente aceitar que a morte de uma criança num país em desenvolvimento é tão trágica quanto a morte de uma criança de um país desenvolvido.” E essa crença de que toda a vida tem o mesmo valor também pode ser encontrada no website da Fundação Bill e Melinda Gates, no tópico “Nossos Valores” o qual discorre que “Toda a vida – não importando onde ela seja vivida – tem igual valor.”

Nós estamos ainda muito longe de agir de acordo com essa crença. No mesmo mundo onde mais de um bilhão de pessoas vive em níveis de riqueza nunca antes vistos, outro bilhão luta para sobreviver com poder de compra inferior a dólar por dia. Da população mais pobre do mundo a grande maioria é desnutrida, não possui acesso à água potável, a serviços básicos de saúde ou à educação básica infantil. De acordo com dados da UNICEF, mais de 10 milhões de crianças morrem por ano, cerca de 30.000 por dia, de causas relacionadas à pobreza e que poderiam ser evitadas.

Junho passado, o investidor Warren Buffett deu um passo significativo em direção a reduzir essas mortes, quando prometeu U$31 bilhões para a Fundação Gates e U$6 bilhões para outras fundações. Esta doação veio unir-se aos quase U$ 30 bilhões dados por Bill e Melinda Gates para sua própria fundação e deixou claro que a primeira década do século 21 é a nova “época de ouro da filantropia”. Considerando-se os ajustes inflacionários, Buffett comprometeu-se a doar mais que o dobro do total doado pelos dois grandes nomes da filantropia do passado, Andrew Carnegie e John D. Rockefeller. As doações de Bill e Melinda Gates não estão muito atrás.

As doações de Gates e Buffett serão utilizadas primordialmente para a redução da pobreza, de doenças e de mortes prematuras em países em desenvolvimento. De acordo com o Fórum Mundial para Pesquisa em Saúde, menos de 10% da verba mundial para pesquisa em saúde é destinado ao combate de condições que são responsáveis por 90% da carga de doenças no mundo. No passado, as doenças que afetam somente os mais pobres não possuem nenhum interesse comercial para as indústrias farmacêuticas, pois estes não podem pagar pelos seus produtos. A Aliança Mundial para Vacinas e Imunizações (GAVI), fortemente financiada pela Fundação Gates, busca mudar esta realidade, garantindo a compra de milhões de doses de vacinas, quando de seu desenvolvimento, que possam prevenir doenças como a malária. A GAVI também auxiliou os países em desenvolvimento na imunização de 99 milhões de crianças com vacinas já existentes. Com estas ações a GAVI alega ter prevenido 1.7 milhões de mortes futuras.

A filantropia nessa escala gera muitas questões éticas: Por que estas pessoas estão doando? Isso faz bem? Devemos parabeniza-los por doarem tanto ou criticá-los por não doarem mais? Não é perturbador pensar, que decisões tão significativas são feitas por alguns poucos indivíduos extremamente ricos? Como nosso julgamento sobre estas pessoas reflete em nossa forma de viver?

Vamos começar pela questão dos motivos. Os ricos deveriam – ou assim gostaríamos, nós menos afortunados, de pensar – passar noites sem dormir devido a forma que destroem seus competidores, demitem funcionários, fecharem fábricas ou qualquer outras coisas que fazem em ordem de construírem suas fortunas. Quando pessoas ricas doam seu dinheiro podemos sempre dizer que eles o estão fazendo para aliviar sua consciência ou para gerar publicidade positiva. Já foi sugerido, por exemplo, por David Kirkpatrick, editor sênior da revista Fortune, que a virada de Bill Gates para a filantropia estava ligada aos problemas enfrentados pela Microsoft tanto nos Estados Unidos quanto na União Europeia. Será que Bill Gates estava tentando melhorar, consciente ou inconscientemente, sua própria imagem e de sua empresa?

Este tipo de acusação nos diz mais sobre o acusador do que sobre o acusado. Doar grandes somas de dinheiro ao invés de gastá-las com propaganda ou desenvolvimento de produtos, não é a melhor estratégia para aumentar a riqueza pessoal. Ao lermos que alguém doou uma boa quantia de dinheiro, ou seu tempo para ajudar outros, somos desafiados a pensar sobre nossa própria postura. Deveríamos seguir o exemplo, mesmo que de forma modesta? Mas se os ricos somente doam seu dinheiro para melhorar sua imagem, ou para compensar erros passados – erros estes que não são comparáveis a nenhum que possamos ter cometido, é claro – convenientemente então, o que eles estão fazendo não tem relação alguma com o que devemos fazer.

Existe uma estória famosa contada sobre Thomas Hobbes, filósofo inglês do século 17, que acreditava que todos nós agimos de acordo com nossos interesses pessoais. Ao vêlo dar esmola a um mendigo, um clérigo perguntou se ele ainda faria isso se Cristo não tivesse nos dito para fazer. Hobbes respondeu que sim, pois ele estava sofrendo ao ver a condição miserável daquele homem, e sua doação que aliviaria um pouco dessa miséria também diminuiria o sofrimento de Hobbes. Esta resposta é condizente com a teoria de Hobbes da motivação egoísta do homem, mas ao mesmo tempo alivia o peso do egoísmo. Se os egoístas sofrem ao verem um estranho com problemas, eles são capazes de serem tão generosos quanto qualquer altruísta.

Os seguidores do filósofo alemão Immanuel Kant discordam. Eles acreditam que uma ação só tem valor moral se é realizada sem o senso de obrigação. Fazer algo somente porque você gosta de fazer isso, ou porque gosta de ver as consequências dessa ação, segundo eles, não tem valor moral, pois se você não gostasse de fazer aquilo, você não o faria. Você não é responsável pelo que gosta ou não, entretanto é responsável por obedecer às suas obrigações.

Talvez alguns filantropos sejam motivados por um senso de obrigação. Além do valor igual aferido a todo ser humano, o outro valor base da Fundação Gates, segundo seu website, é de que “Para quem muito foi dado, muito é esperado”. Essa visão sugere que aqueles que possuem grandes riquezas têm o dever de usá-las para um bem maior do que seu interesse próprio. Mas se estas questões do motivo são relevantes para nossa avaliação do caráter de Buffett ou Gates, elas caem na insignificância quando consideramos o impacto do que eles estão fazendo. Os pais das crianças que poderiam morrer por causa do rotavirus, estão mais preocupados em conseguir ajuda para suas crianças, do que com a motivação da pessoa que irá fazer essa ajuda possível.

É interessante ver que nem Gates nem Buffett parecem estar motivados pela possibilidade de serem recompensados no céu por suas boas ações. Gates contou a um repórter da revista Time, “Têm muitas outras coisas que eu poderia fazer numa manhã de domingo” ao invés de ir a uma igreja. Isso é muito importante se considerarmos também Andrew Carnegie, famoso por sua liberdade de pensamento, e ao fato de que três dos quatro grandes filantropos americanos serem ateus ou agnósticos (a exceção é John D. Rockfeller), em um país onde 96% da população diz acreditar na existência de um ser supremo. Isso significa que Gates e Buffett estão provavelmente menos interessados em suas ações filantrópicas do que Madre Teresa, que por ser uma Católica fervorosa acreditava em recompensa e punição após a morte.

Mais importante do que o questionamento sobre os motivos é o questionamento sobre a existência da obrigação de doar do rico, e em caso positivo, de quanto deve ser essa doação. Alguns anos atrás, um motorista de táxi afro-americano ao me levar para o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento, em Washington, me perguntou se eu trabalhava lá. Eu disse que não, mas que ia dar uma palestra em uma conferência sobre desenvolvimento e auxílio. Ele então assumiu que eu era economista, mas quando eu disse que não, que minha formação era em filosofia, ele me perguntou se eu achava que os Estados Unidos deviam dar ajuda externa. Com minha resposta afirmativa ele complementou que o governo não deveria cobrar impostos das pessoas para dar esse dinheiro para outros, ele considerava isso roubo. Quando eu então o questionei se ele achava que os ricos deveriam dar parte de seu dinheiro aos pobres, ele me disse que se alguém trabalhou para ter seu dinheiro ele não os iria dizer o que fazer com ele.

Neste ponto chegamos ao nosso destino. Se nossa viagem continuasse talvez eu tentasse convencê-lo de que as pessoas só conseguem ganhar muito dinheiro quando vivem em situação social favorável, e de que eles não criam estas situações sozinhas. Poderia ter citado a declaração de Warren Buffett de que a sociedade é responsável por grande parte de sua riqueza. “Se você me largar no meio de Bangladesh ou do Peru,” disse ele, “você irá descobrir o quanto esse talento é capaz de construir quando no terreno errado”. O economista e cientista social ganhador do Premio Nobel Herbert Simon estima que em sociedades ricas como a dos Estados Unidos e do Nordeste Europeu, o capital social é responsável por pelo menos 90% do que as pessoas ganham. Simon compreende capital social não só por recursos naturais, mas ainda mais importante a tecnologia e a capacidade organizacional dentro da comunidade, além da presença de um bom governo. Esta é a base em que os ricos podem começar a construir seu trabalho. Simon acrescenta que “Em padrões morais, poderíamos ainda argumentar por um imposto sobre a renda de 90%”. Ao dizer isso ele estava consciente do impacto motivacional que isso poderia causar, e desta forma não lutava por impostos tão altos. Entretanto seus argumentos negam que os ricos são autorizados a guardar suas riquezas, pois trabalharam duro para construí-las. Se Simon estiver correto, são responsáveis no máximo por 10%.

De qualquer forma, mesmo que os consideremos merecedores da riqueza que construíram, isso não responde a questão do que eles deveriam fazer com esse dinheiro. Poderíamos dizer que eles têm o direito de gastar com festas luxuosas, aviões particulares e luxuosos iates, ou por assim dizer, de jogá-lo privada a baixo. Mas poderíamos também pensar que fazer esse tipo de coisas enquanto tantos outros morrem devido a doenças evitáveis, é errado. A pouco mais de três décadas atrás, quando de uma emergência humanitária onde hoje é Bangladesh, escrevi um artigo usando o seguinte exemplo. Ao passar a beira de um açude vê-se uma criança pequena caída e quase afogando. Apesar de não sermos responsáveis pela queda da criança, quase todos concordam que se podemos salvá-la sem muitos problemas ou inconveniência para nós mesmos, devemos fazê-lo. Qualquer outra atitude seria insensível, indecente, ou em uma só palavra, errada. O fato de que ao salvar a criança podemos, por exemplo, estragar um par de sapatos novos, não é uma boa razão para deixarmos a criança se afogar. Da mesma forma, se pelo mesmo valor de um par de sapatos novos pudermos contribuir para um programa de saúde em um país em desenvolvimento salvando a vida de uma criança, devemos fazê-lo.

Talvez a nossa obrigação de ajudar os pobres seja ainda maior do que exemplo ilustra, já que somos menos inocentes do que a pessoa que não sabia o que fazer ao ver a criança caída. Thomas Pogge, filósofo da Universidade de Columbia, afirma que ao menos um pouco de nossa riqueza é à custa dos pobres. Ele baseia esta reivindicação não simplesmente na crítica usual às barreiras impostas pela União Européia e pelos Estados Unidos aos produtos agrícolas provenientes de países em desenvolvimento, mas também aos aspectos menos conhecidos do comércio com estes países. Por exemplo, empresas internacionais estão dispostas a fazer acordos de fornecimento de recursos naturais com qualquer governo, não importando como este tenha chego ao poder. Isso favorece grupos rebeldes a tentarem tomar o poder, pois terão recompensa financeira da venda dos recursos naturais da nação.

Ao negociar com ditadores corruptos de países em desenvolvimento, Pogge afirma que corporações internacionais não são moralmente melhores do que pessoas que compram produtos roubados. A única diferença é de que as políticas e normas internacionais reconhecem estas corporações não como possuidoras de produtos roubados, mas como proprietários legais desses produtos. Esta situação é beneficial às nações industrializadas, pois nos permite obter matéria prima necessária a prosperidade, mas é desastrosa para os países em desenvolvimento ricos em recursos naturais, pois torna a riqueza que deveria impulsioná-los em uma maldição que gera um ciclo de golpes, guerras civis e corrupção que não são de nenhuma ajuda ao povo no geral.

Desta forma, nossa obrigação para com os pobres não está somente em fornecer assistência a estranhos, mas também em compensar danos causados a eles. Também se pode argumentar que não devemos nenhuma compensação aos pobres, pois nosso estilo de vida os beneficia com a geração de emprego – assim a riqueza é distribuída às camadas mais pobres da sociedade ajudando mais do que doações. Entretanto os ricos de nações desenvolvidas praticamente não compram nada proveniente das comunidades mais pobres. Apesar de durante os últimos 20 anos de globalização econômica muitos terem conseguido sair da situação de pobreza, infelizmente a expansão do comércio ainda falhou em beneficiar os 10% mais pobre da população mundial. Enquanto algumas das populações mais pobres, em sua maioria vivendo na África SubSahara, não tem nada a oferecer que interesse aos ricos, outros não possuem a estrutura para vender suas mercadorias.

A solução para estes problemas, conforme pode ser razoavelmente sugerido deveria partir do estado e não da filantropia privada. Quando auxílio é proveniente do governo, todos que pagam impostos contribuem com algo, sendo que mais é coletado dos com mais poder aquisitivo. Por mais que reconheçamos os feitos de Gates e Buffett, também podemos nos perturbar com um sistema que deixa o destino de centenas de milhares de pessoas à sorte das decisões tomadas por dois ou três cidadãos. Entretanto a quantia destinada ao desenvolvimento internacional dada pelo governo dos Estados Unidos, de 22 centavos por dólar ganho pela nação, é praticamente a mesma coisa, em porcentagem, que a destinada por Portugal e metade da destinada pelo Reino Unido. O que faz isso ainda pior é o fato desse dinheiro ser destinado a locais de interesse estratégico para os Estados Unidos – o Iraque é hoje de longe o maior recipiente, e ainda Egito, Jordão, Paquistão e Afeganistão figuram entre os 10 maiores receptores de dinheiro americano. Menos de um quarto da ajuda externa prestada pelos Estados Unidos, aproximadamente um centavo de cada 100 dólares do PIB americano, é realmente direcionada para as nações mais pobres.

Quando adicionamos a filantropia privada à ajuda externa do governo americano esse quadro melhora, pois os americanos fazem mais doações individuais per capita do que praticamente qualquer outra nação. Mesmo considerando-se as doações privadas, países como a Noruega, Dinamarca, Suécia e Holanda geram uma ajuda externa de cerca de três ou quatro vezes mais em proporção ao tamanho de seus países, e grande parte desse dinheiro é direcionado às nações realmente mais necessitadas.

Os esforços filantrópicos para o alívio da pobreza mundial não estão suscetíveis ao argumento de que o governo está cuidando desse assunto. E mesmo se a ajuda externa oficial americana fosse mais bem direcionada e comparável à de países mais generosos, ainda assim existiria espaço para a filantropia privada. Alheia a considerações diplomáticas ou a interesses nos conselhos da ONU, doadores privados conseguem evitar com maior facilidade governos corruptos e esbanjadores. Podem ir diretamente a campo, trabalhar com pequenas comunidades e organizações “grassroot”.

Eles também não estão presos a lobistas. Como foi recentemente divulgado pelo The New York Times, bilhões de dólares da ajuda externa americana está vinculada a produtos internos. O trigo destinado à África deve ser produzido na América, apesar dos peritos afirmarem que esta política deprecia o comércio africano local, reduzindo o incentivo ao aumento da produção agrícola local. Centenas de milhares de camisinhas destinadas à África, com o objetivo de diminuir os avanços da epidemia de HIV/AIDS no continente e salvar milhares de vidas, devem ser fabricadas nos Estados Unidos, apesar de custarem duas vezes mais do que o produto similar fabricado na Ásia.

A filantropia privada também é livre para se aventurar onde governos não ousam agir. Através de uma fundação que leva o nome de sua esposa, Susan Thompson Buffett, Warren Buffett auxilia organizações que lidam com questões como direito reprodutivo, planejamento familiar e direito de escolha. Outra iniciativa bastante incomum, ele doou U$50 milhões ao plano da Agência Internacional de Energia Atômica de montar um “banco de combustível” para fornecer combustível de reator nuclear à países que obedecem os acordos de não proliferação nuclear. Esta ideia, discutida há muitos anos, é um passo importante em desencorajar a construção de fábricas para produção de combustível nuclear

e que poderiam ser alteradas para a produção de armas. Segundo Buffett, é “um investimento num mundo mais seguro”. Apesar de ser algo que os governos poderiam e deveriam estar fazendo, nenhum ainda deu o primeiro passo.

A filantropia privada, se planejada de forma inteligente e planejada, pode ser a resposta à reivindicação de que ajuda não funciona. É claro que assim como em qualquer outro empreendimento humano feito em grande escala, alguma porção dessa ajuda pode ser realizada de forma ineficaz. Contanto que a ajuda prestada não seja contra produtiva, mesmo uma ajuda relativamente ineficaz é capaz de produzir uma melhora no bem estar humano do que o gasto excessivo feito pelos ricos.

Os ricos, então, devem doar. Mas quanto? Mesmo tendo doado quase $30 bilhões de dólares, Bill Gates continua ainda encabeçando a lista dos americanos mais ricos segundo a revista Forbes, com uma fortuna de $53 bilhões de dólares. Sua propriedade próxima a Seattle, com cerca de 66.000 metros quadrados é avaliada em mais de $100 milhões de dólares, com impostos territoriais de cerca de $1 milhão. Dentre suas posses está o Leicester Codex, único livro escrito à mão por Leonardo da Vinci ainda em uma coleção particular, e que foi adquirido por ele em 1994 por $30.8 milhões. Será que ele fez o suficiente? Ou ainda, se ele realmente acredita que toda vida possui igual valor, o que ele está fazendo morando de forma tão luxuosa e em poder de um código de Leonardo da Vinci? Não existem mais vidas que poderiam ser salvas vivendo de forma mais modesta e juntando esse dinheiro ao montante já doado?

Ainda assim temos que reconhecer que julgando pela proporção de sua fortuna doada, Gates se compara com a maioria das outras pessoas encontrada na lista da revista Forbes, incluindo o ex-colega e co-fundador da Microsoft, Paul Allen. Allen, que deixou a empresa em 1983, durante sua vida já doou mais de $800 milhões de dólares para causas filantrópicas. Isto é muito mais do que provavelmente um de nós será capaz de doar. Mas na lista Forbes Allen encontra-se em 5º lugar, com uma fortuna estimada em $16 bilhões. Ele é dono dos times Seattle Seahawks, Portland Trailblazers, de um iate de 413 pés com heliporto e 2 helicópteros e ainda um submarino de 60 pés. Ele doou somente 5% do total de sua riqueza.

Será que existe uma linha moral que se encontra entre os 5% doados por Allen e os aproximados 35% de Gates? Poucas pessoas atingiram um patamar que as permitiriam falar a Gates que ele não doou o suficiente, mas Zell Kravinsky pode. Há poucos anos atrás, Kravinsky doou cerca de $45 milhões de dólares para organizações relacionadas à saúde, mantendo somente uma casa na Filadélfia e o suficiente para o sustento de sua família. Quando ficou sabendo que centenas de pessoas morrem por ano na fila de espera por um rim, Kravinsky contatou um hospital e doou um dos seus para um estranho.

Após ler sobre ele no The New York Times, o convidei para falar às minhas turmas em Princeton. Ele se mostra angustiado pelo fato de muitas pessoas não entenderem a lógica por trás de seu altruísmo. Kravinsky possui um raciocínio matemático, talento este que com certeza auxiliou na escolha dos investimentos que seriam mais lucrativos, e ele diz que a chance de se morrer como resultado de um transplante de rim é de uma em 4.000. Para ele, desta forma, negar um rim a uma pessoa que poderia morrer sem ele é valorizar sua vida 4.000 mais do que a desta pessoa, o que Kravinsky considera “obsceno”.

O que o diferencia da maioria das pessoas, é que ele toma o igual valor de todos os seres humanos como um parâmetro para sua vida, e não somente como retórica. Ele compreende que muitas pessoas o consideram um louco, inclusive sua esposa acha que ele exagera. Ela diz que um dia um de seus filhos pode precisar de um rim e ele ser o único doador compatível, mas já terá feito essa doação. Apesar de amar seus filhos tanto quanto pais amam seus filhos, Kravinsky ainda mantém a posição de que não se pode inferir um maior valor a seu próprio filho do que ao filho de um estranho. Quando questionado se ele deixaria seu filho morrer caso isso significasse salvar a vida de mil outras crianças, ele disse sim. Na realidade, ele disse que deixaria seu filho morrer mesmo que isso significasse salvar a vida de somente duas outras crianças. Entretanto, para satisfazer sua esposa ele voltou ao ramo imobiliário, fez algum dinheiro e comprou uma casa maior para sua família. Mesmo assim ele permanece comprometido em doar o máximo possível, contanto que mantenha sua vida doméstica razoavelmente tranquila.

Buffett diz que ele acredita em dar a seus filhos “o suficiente para que eles possam fazer tudo, mas não tanto a ponto de não precisarem fazer nada.” Para ele, isso significa “algumas centenas de milhares de dólares” para cada um. Muito mais do que a maioria dos americanos é capaz de deixar para seus filhos, para os padrões de Kravinsky, com certeza muito mais do que o necessário. (Kravinsky disse que a parte mais difícil não foi doar os primeiros $45 milhões, mas os últimos $10.000, quando você precisa economizar de uma forma que é difícil manter-se no mundo dos negócios). Mas mesmo que Buffett deixasse um milhão de dólares para cada um de seus filhos, ele ainda assim doaria mais de 99,99% de sua riqueza. Numa sociedade onde a norma é deixar todo seu dinheiro para os filhos, quando alguém faz isso ainda é melhor parabenizar do que criticar pelas centenas de milhões que poderiam ter doado a mais.

Filósofos como Liam Murphy da Universidade de Nova York e meu colega Kwame Anthony Appiah da Princeton afirmam que nossas obrigações estão limitadas atender uma parte justa da tarefa de aliviar a pobreza no mundo. Segundo eles, deveríamos calcular o montante necessário para assegurar que os mais pobres tenham condições de vida decente, e então dividir esse valor pelos mais avantajados. Isso daria o valor que cada um de nós deve doar, e tendo feito isso teríamos, então, cumprido nossas obrigações para com os pobres.

Quanto seria esse valor? Uma forma de calcular seria pegarmos como objetivo, ao menos pelos próximos nove anos, as Metas de Desenvolvimento do Milênio, estabelecidas pela Conferência do Milênio das Nações Unidas em 2000. Nesta ocasião, a maior reunião de líderes mundiais na história comprometeu-se a, até 2015, cumprir uma lista de objetivos, que inclui:

  1. 1. Erradicar a pobreza extrema e a fome
  2. Objetivo para 2015: Reduzir pela metade o percentual de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia e daquelas que sofrem de fome.
  3. 2. Alcançar a educação básica universal
  4. Objetivo para 2015: Garantir que todos os meninos e meninas completem a educação fundamental.
  5. 3. Promover a igualdade de gêneros e dar poder às mulheres
  6. Objetivos para 2005 e 2015: Eliminar a disparidade entre os gêneros no ensino básico e médio,
    preferencialmente até 2005, e em todos os níveis de educação até 2015.
  7. 4. Reduzir a mortalidade infantil
  8. Objetivo para 2015: Reduzir em dois terços a taxa de mortalidade entre as crianças com menos de cinco anos de idade
  9. 5. Melhorar a saúde materna
  10. Objetivo para 2015: Reduzir em três quartos a taxa de mulheres que morrem durante o parto.
  11. 6. Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças
  12. Objetivo para 2015: Deter e começar a reverter a disseminação de HIV/AIDS e a incidência de malária e outras doenças importantes.
  13. 7. Assegurar a sustentabilidade ambiental
  14. Objetivos: Integrar os princípios de desenvolvimento sustentável às políticas e programas dos países, além de reverter a perda dos recursos ambientais. Até 2015, reduzir pela metade a proporção de pessoas sem acesso à água potável. Até 2020, alcançar melhoria significativa das vidas de pelo menos 100 milhões de moradores de favelas.
  15. Desenvolver uma parceria global para o crescimento

    Objetivos: Avançar no desenvolvimento de um sistema comercial e financeiro aberto, que inclua um compromisso com a boa governança, desenvolvimento e redução da pobreza. Tratar das necessidades especiais dos países menos desenvolvidos e das necessidades especiais dos Estados em desenvolvimento sem saída para o mar e pequenos Estados insulares. Tratar de forma abrangente os problemas da dívida dos países em desenvolvimento. Desenvolver trabalho digno e produtivo para os jovens. Em cooperação com a indústria farmacêutica, fornecer acesso a medicamentos essenciais a preço razoável aos países em desenvolvimento. Em cooperação com o setor privado, disponibilizar os benefícios de novas tecnologias – especialmente tecnologias da informação e das comunicações.

    Ano passado, uma força tarefa da ONU, comandada pelo economista Jeffrey Sachs, estimou o custo anual para se alcançar estas metas em $121 bilhões de dólares em 2006 e aumentando para $189 bilhões em 2015. Se levarmos em consideração as promessas oficiais já existentes de auxílio, o montante ainda necessário é de somente $48 bilhões em 2006 e $74 em 2015.

    Vamos olhar agora para a renda dos americanos ricos e super ricos, e nos questionar quanto eles poderiam doar. Os economistas Thomas Piketty da École Normale Supérieure de Paris e Jordão; e, Emmanuel Suez da Universidade da Califórnia de Berkeley simplificaram esta tarefa com estatísticas baseadas no importo sobre a renda dos cidadãos americanos de 2004. Os números são baseados em renda bruta, excluindo-se ganhos de capital, o que é normalmente substancial nesta camada de poder aquisitivo elevado. Com o intuito de facilitar, os valores foram arredondados para baixo. Na maioria dos casos estamos falando de famílias e não de indivíduos.

    A primeira faixa analisada por Piketty e Saez constitui-se de 0.01% dos americanos pagadores de impostos. Existem 14.400 nesse grupo, ganhando uma média de $12.775.000, e ganhos totais de $184 bilhões de dólares. A renda anual mínima dentro deste grupo é de mais de $5 milhões. Parece razoável supormos que eles poderiam, sem nenhum esforço, doar um terço de sua renda anual, em média $43 milhões cada, juntando um total de aproximadamente $61 bilhões. Isso ainda deixaria cada um deles com uma renda média anual de pelo menos $3.3 milhões de dólares.

    A próxima faixa engloba o resto dos 0.1% mais ricos, excluindo-se o grupo já descrito. Existem 129.600 nesse grupo, com uma renda média de pouco mais de $2 milhões de dólares e uma renda mínima de $1.1 milhões. Se cada um destes doasse um quarto de sua renda, seriam arrecadados $65 bilhões e sobraria ainda, para cada um deles, uma renda média anual de $846.000 dólares.

    A faixa dos 0.5% consiste de 575.900 indivíduos/família, com uma renda média de $623.000 e mínima de $407.000 anuais. Se eles fossem doar um quinto de sua renda, eles ainda teriam ao menos $325.000 cada um, e estariam arrecadando o montante total de $72 bilhões de dólares.

    Na faixa de 1% temos 719.900 indivíduos/família, com uma renda média de $327.000 e mínima de $276.000 anuais. Eles poderiam doar confortavelmente 15% de sua renda. Isso acumularia o montante total de $35 bilhões de dólares e os deixaria com pelo menos $234.000 dólares cada.

    Finalmente, a camada dos 10% ganha ao menos $92.000 ao ano, com uma média de $132.000 dólares. Existem aproximadamente 13 milhões nesse grupo. Se eles se comprometessem com somente 10% de sua renda, ou seja, $13.200,00 cada, arrecadariam $171 bilhões e os deixaria com uma renda média anual de $83.000 dólares.

    Poderíamos ficar aqui discutindo se as frações de renda propostas aqui são a sugestão mais justa. Talvez esta escala devesse ser mais íngreme, de forma que os muito ricos contribuíssem muito mais do que os indivíduos que possuem somente uma situação mais confortável de vida. Poderíamos ainda, estender os cálculos além dos 10% mais abastados da população, onde todos que possuem mais do que o necessário para as necessidades básicas doasse ao menos 1% de sua renda. Mas o que surpreende ao analisarmos esses cálculos é que sem impormos nenhuma dificuldade a nenhum indivíduo/família, é possível gerar $404 bilhões de dólares para ajuda externa, somente nos Estados Unidos.

    Obviamente os ricos de outras nações também deveriam responsabilizar-se e contribuir para o alívio da pobreza global. Os Estados Unidos são responsáveis por 36% do PIB das nações integrantes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Devido ao fato de os Estados Unidos serem mais ricos que estas outras nações, e suas riquezas distribuídas de forma mais desigual, os ricos norte americanos deveria contribuir com mais de 36%. Para simplificar vamos assumir 50% como sendo uma quantia justa. Desta forma, se estendermos esse cálculo mundialmente, teríamos uma quantia anual de $808 bilhões de dólares destinados à ajuda humanitária. Essa quantia é seis vezes maior do que o valor necessário estimado por Sachs para atingirmos as metas do milênio; e mais de 16 vezes maior que o valor necessário se levar em conta o dinheiro já oficialmente existente.

    Se para eliminarmos a pobreza global formos responsáveis somente por uma parte justa, o fardo não é tão grande. Mas será que é só isso que deveríamos fazer? Desde que todos concordem que a justiça é adequada, e que ninguém gosta de ter que fazer mais do que o justo pois outros não fizeram suas partes, essa é uma boa saída. No entanto, eu acho que esta ainda não é a melhor saída.

    Vamos voltar ao exemplo antes citado da criança que estava se afogando em um açude. Imagine agora que não seja somente uma criança, mas 50. Estamos entre 50 adultos, nenhum relacionado a nenhuma das crianças. Poderíamos facilmente entrar no açude e cada um salvar uma das crianças, por mais desagradável que isso possa ser. Os que acreditam na teoria da ´parte justa´ diriam que se cada um fizer a sua parte ninguém será responsável por salvar mais do que uma criança. Mas e se metade desses adultos preferir não se molhar e não salvar a sua uma criança? É aceitável que os outros parem após salvarem somente uma criança, sabendo que fizeram a sua parte, mas metade das crianças irá se afogar? Podemos ficar furiosos com eles, mas nossa fúria com eles não irá fazer com que aquelas crianças não morram. Temos o direito de condenar aqueles que não fizeram sua parte e elogiar os que o fizeram, mas mesmo assim eles deixaram metade das crianças se afogarem quando poderiam ter ajudado, e isso não é correto.

    Da mesma forma, deveria ser visto como uma grande falha moral quando aqueles com grandes rendas abstêm-se de fazer a sua parte. Entretanto, não é tão fácil decidir a forma correta de se abordar aqueles que fazem a sua parte, mas que poderiam fazer mais quando uma ajuda extra é necessária devido à falta de apoio de muitos outros. Em nosso julgamento pessoal podemos acreditar que é errado não fazer mais do que o esperado. Mas se devemos ou não criticar àqueles que fazem somente o esperado mesmo podendo fazer mais, depende do impacto psicológico que esta critica irá ter neles e em outros, e isso depende de práticas sociais. Se maioria está fazendo muito pouco ou nada, estabelecer um padrão mais alto, além do justo, pode parecer uma exigência tão grande que irá desencorajar aqueles que estão dispostos a fazer a sua parte. Parece então melhor nos abstermos de criticar aqueles que já fazem a sua parte. Para conseguirmos evoluir o padrão de desenvolvimento de nossa sociedade, talvez devêssemos nos contentar com um passo por vez.

    Por mais de 30 anos eu tenho lido, escrito e lecionado sobre o problema ético imposto pela justaposição no nosso planeta de extrema abundancia de recursos e a pobreza que ameaça vidas. Entretanto, até hoje, ao preparar este artigo, eu não havia me dado conta do quanto os 10% dos americanos mais ricos ganham e de como seria fácil para os ricos do mundo eliminar, ou praticamente eliminarem, a pobreza global. (Na realidade, no decorrer desses últimos 30 anos ficou ainda mais fácil, pois os ricos ficaram ainda mais ricos). Para mim este resultado é surpreendente. Eu chequei e re-chequei os números e ainda pedi para que um assistente de pesquisa o fizesse. Mas eles estavam e estão corretos. Se comparados com a nossa capacidade, as Metas de Desenvolvimento do Milênio são absurdamente modestas. Se falharmos em atingi-las – o que é bem provável segundo indicadores atuais – não teremos nenhuma desculpa. O alvo que deveríamos colocar a nós mesmos não é de reduzir pela metade o percentual de pessoas que vivem em pobreza extrema e daquelas que sofrem de fome, mas o de garantir de que ninguém, ou quase ninguém, precise viver em condições tão precárias. Esta sim é uma meta válida, e muito bem dentro de nossas possibilidades.


    Adaptado e traduzido pelo IDIS de Peter Singer

* Peter Singer é professor de bioética do Centro para Valorização Humana da Princeton University. Ele é autor de muitos livros, sendo o mais recente “The Way We Eat: Why Our Food Choices Matter.”

Share this:
Share this page via Email Share this page via Stumble Upon Share this page via Digg this Share this page via Facebook Share this page via Twitter

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.