A Gruta do Lou

O Piano sobrevivente


No início da década de sessenta (século passado) a Rádio América pegou fogo, não em audiência, mas em chamas mesmo. O andar de cima e o sótão, do prédio de três andares, consumiram-se inteiros, com o telhado incluso. Uma pena aquele prédio na esquina da São Luiz com Consolação não ter sido tombado. Era lindo, cheio de estilo, um arraso. Hoje há um espigão ridículo no lugar.

Entre os achados no rescaldo do incêndio, estava um piano alemão que era usado para ensaio dos músicos, antes de se apresentarem ao vivo em programas de auditório da rádio.

Meu pai ocupava uma parte do subsolo daquele prédio, onde produzia os outdoors, banners e enfeites para os eventos promovidos pela rádio. De certa forma, fui muito influenciado pelos tempos em que meu pai trabalhou ali. Tinha um prazer enorme em estar lá, onde costumava ir diariamente. Participava dos programas de auditório, provando sorvete Kibon, tocando pandeiro, como auxiliar de palco, etc., e nos estúdios, onde fui locutor de hora certa e comentarista de música e futebol, quando os titulares faltavam. Era exótico, para não dizer bizarro, um menino em seus 11 anos fazendo essas coisas.

Conheci uma pá de artistas famosos. Um lugar onde gastava boa parte do tempo era a sala destinada aos ensaios dos músicos, quando estava vazia. Havia instrumentos lá, que a rádio oferecia como cortesia para uso dos praticantes. Além do piano, uma sanfona, instrumentos de percussão, etc. Certa vez, estava tentando tirar algum som da sanfona e fui surpreendido por um senhor, com cara de nordestino, que entrou pela sala adentro dizendo com um baita vozeirão aos outros que lhe seguiam: “Eita, e num é que temos um sanfoneiro aqui já! Será que num vão despedir a gente?” Para encurtar, era ninguém menos do que Luiz Gonzaga, aquele tal de Rei do Baião. Guardei a sanfona o xispei de lá. Sempre que conto essas estórias as pessoas fazem cara de quem não está acreditando nadica. Fazer o que…

Meu pai solicitou, ao diretor da rádio, permissão para dar destino ao piano sobrevivente, embora chamuscado, no que foi atendido positivamente. O piano foi enviado para as oficinas da Casa Manon, coisa fina em termos de instrumentos musicais (nem sei se ainda existe), onde foi totalmente restaurado, sob as expensas de papai. Quando ficou pronto, foi entregue lá em casa.

Nesse tempo eu estudava piano no conservatório Francisco Rossi, em Moema. Não podia ser bom aluno porque dependia de ir ao próprio conservatório para exercitar-me ao piano e isso era quase impossível para mim, além do fato, de que eu não tinha nenhuma vontade extra para tanto. As partidas de futebol lá no nosso campo inclinado, perto de casa, me pareciam muito mais atraentes. Mas eu estudava piano por vontade própria, sem ser obrigado por minha mãe tirana. Quem quer tocar algum instrumento, ainda que razoavelmente, precisa ter o trem e praticar à exaustão. Quem sabe, até perder os movimentos das mãos de tanto LER (Lesão por Esforço Repetitivo), como aconteceu com o João Carlos Martins.

Assim que o piano entrou em casa, o lugar mais apropriado para me encontrar era sentado na banqueta dele, batucando as teclas brancas e negras de puro marfim daquele magnifico instrumento. Meu progresso naqueles dias como pianista foi elogiado pelo Francisco Rossi pessoalmente. Minha professora já estava se achando a bam bam bam do largo de Moema, crente que tinha algo a ver com aquele fenômeno.

Mas a alegria durou pouco e eu nem era pobre. Meu pai, talvez para fazer média com o amigo diretor da Rádio América, falou para ele que havia recuperado o piano da sala de ensaios e, assim que desejasse, poderia enviá-lo de volta. Pior que fez isso na presença do diretor artístico da rádio, o tal de Salomão Hesper, baita turcão, e não deu outra, aceitaram na hora. Meu paí ainda pagou do próprio bolso o frete do transporte, além de ajudar a carregar o piano para cima da carroceria do caminhão. Você sabe quanto pesa um piano, certamente.

Com a volta do piano sobrevivente à sua origem, o Brasil e o mundo perderam um de seus maiores e melhores pianistas, que voltou aos campos inclinados de futebol, e mais tarde virou zelador de blog, em protesto e solidariedade ao piano sobrevivente. Terminou assim, a minha carreira de pianista.

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