O piano lá de casa

O Piano

O Piano

No tema da minha musicalidade abandonada, a verdade é: de 0 a 100% não me esforcei mais do que uns … 2%. Meu filho me mata de vergonha com a persistência dele. Às vezes noto o violão olhando para mim, piscando, mandando beijinhos, mas não dou bola para ele, que é muito saidinho.

Minha vida musical foi mais desencantos ao invés de cantos.

Tudo começou com um piano que passou um tempo lá em casa. Ele foi salvo de um incêndio na demolida Rádio América na esquina da Consolação com São Luiz, no Centro de São Paulo. Eu devia ter uns dez anos. No começo a gente conversava, mas como passávamos muito tempo sozinhos, só nós dois, acabamos tendo certo relacionamento. Primeiro um pequeno toque em uma tecla qualquer e depois foi aumentando e acabamos fazendo muita música juntos. Foi assim até meu pai levar o piano embora. Talvez isso tenha se transformado em trauma, sei lá.

Não era um zero a esquerda para a música, acho. No Vocacional tínhamos a área (vulgarmente conhecida como matéria) de Educação Musical. Além de aulas de história da música, teoria musical e musicalidade, a área construía coros, conjuntos instrumentais (flauta doce, violões, etc.) e promovia eventos musicais, de vez em quando. Nos testes para os coros, fui selecionado sistematicamente, tendo feito parte do coro da minha turma e do coro da escola. Nós cantávamos canto coral e minha virtude parece ter sido a capacidade de alcançar tons mais baixos, embora tivesse voz mais para tenor, isso me permitia formar entre os barítonos, coisa rara em coros de adolescentes. Como não persisti, aos poucos, minha voz descuidada foi ficando mais para Edir Macedo, que desafina até falando, além de falar em tons muito agudos (só com a garganta).

O hoje maestro João Carlos Martins, que foi exímio pianista costumava tocar um mínimo de cinco horas diárias de piano por dia. Os maldosos diriam ser esse extremismo responsável pelo abandono precoce do instrumento, por parte dele. Embora ele sempre apareça tocando com dois ou três dedos que ainda lhe restam.

Mas não me engano, música, como qualquer outra prática requer treino e persistência. Mesmo aqueles que possuem grande musicalidade não escapam a essa exigência. Apesar de termos tido na igreja o Marcinho, um crioulo que cantava muito e era um tremendo vagabundo (em termos de praticar canto, claro). Por outro lado, ninguém dava trégua para ele, inclusive eu, pois o fiz cantar no meu casamento. Lembra aquela canção que diz: Eu quero segui-lo, quero servir-te, quero ser mais de ti? Então, foi bonito pra caramba. Pena não termos gravado em vídeo.

Andei participando de uma banda, certa época. Nada capaz de me emocionar. Na verdade, aquilo mais me enfadava. O meu dia mais feliz ali, foi quando deixei o grupo. Ficamos todos muito felizes. Mais um desencanto e uma grande dádiva em favor da boa música.

Por isso preferi deixar a música com esses caras persistentes e capazes, brancos ou negros. Sou mais capaz falando, escrevendo e, sobretudo, em silêncio obsequioso ou generoso. Pode não parecer, mas sou meio tímido, especialmente quando se trata de encarar a mim mesmo. Como músico sou um excelente consultor de empresas não lucrativas, se isso for possível.

Lá, la, la…la, la.
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