A Gruta do Lou

Pássaro com um ramo no bico

Seu Madruga 16Ramon Valdez interprete do personagem senhor Madruga

Agora, tudo que eu queria era a chegada de um pássaro com um ramo no bico.

Estou à procura de palavras capazes de expressar, nem que seja superficialmente, a desesperança, essa imensa sensação de vazio, esse medo voraz , esse assaltante impiedoso e invasor das minhas bem aventuranças.

Ainda que essas prateleiras estejam cheias de livros, de Danusa Leão a Dostoiévski, de imbecis necessários como Kemp até as Confissões de Agostinho, obra das obras, não realizo meus sentimentos em textos e frases.

Os sofredores estão sedentos à espera de alento. Aguardam uma piada, uma piscada ou mesmo um simples aceno. Mas falta-me espírito para esses gestos, agora.

Impressiona-me como, em tão pouco tempo, foi possível que me roubassem todo o vigor, tão completamente que não restou nada. Nosso Salvador sentiu esse vazio naquele morro com cara de caveira. Alguma coisa sugou-lhe a alma tão violentamente que nenhum dos tormentos agrediu-o mais do que o cansaço. Ele não podia ouvir mais nada. Cada expressão de horror, mencionada ali, cortava seu interior e ele retorceu-se até morrer.

Quando voltava de São Paulo, ontem, frustrado por ter elevado muito as expectativas em uma viagem infame, insuportável e dado com os burros n’água, embora fosse tarde da noite e as luzes do ônibus estivessem todas apagadas, um idiota funcionário da Petrobras (que trabalha em uma das plataformas de extração de petróleo no mar), não parou de falar, a viagem toda. Sua voz de pastor da Voz dos Mártires foi muito mais cortante que quaisquer chibatadas ou cusparadas que pudessem me atirar. Algumas palavras, quando ditas na hora errada, com o tom de voz fora de sintonia e com volume desregulado, podem conter força e contundência muito acima do suportável e com muito mais intensidade do que esses tormentos físicos que foram impingidos ao nosso salvador. Anelei tirar-lhe a vida, não fosse o policial sentado na poltrona, do meu lado.

Somam-se às desditas daquele infeliz do ônibus tudo o que não foi dito e a minha miséria está estabelecida. Deve ser assim que estão milhares de senhores e senhoras por esse mundo a fora. Esses meus sentimentos de perplexidade com a mais completa falta de solidariedade de nossa raça são uma amostra singela da perplexidade do Deus criador dos céus e da terra e que, em algum momento equivocado, teve a infeliz ideia de criar o ser humano.

Nessas horas, percebo como importam os pequenos gestos de boa vontade, de carinho e atenção. E não sou melhor do que ninguém. A lista de telefonemas que não dei, de E-mails que não enviei, de abraços que soneguei e beijos que não beijei é incomensurável.

Mas é assim que vou encerrar mais uma semana dessa vida tão absolutamente desnecessária, frustrado, culpado, cansado e mentindo a todos, as piores mentiras já imaginadas por um homem, as que dão conta de uma felicidade efêmera. Se ao menos um pássaro me trouxesse um único ramo verde, eu renovaria todas as minhas mais infantis fantasias de vida, outra vez.

Capricornio PB

10 thoughts on “Pássaro com um ramo no bico

  1. Ô Lou, nao é só você que anda sentindo esse tipo de coisa nao. Quando vejo que o Brasil tá tao cheio de desesperanca, que o mundo em geral tá quase sem fôlego. Fico feliz, numa felicidade que só ´lá de cima sabe, que os dias estao sendo abreviados.

    Bom fim de semana prá vocês.

    Texto excelente como sempre. Quizera eu poder saber escrever uma linguagem assim.

    Grande abraco

  2. Perdão, mas isso me lembrou uma bela canção do U2:

    (…)And see the bird with a leaf in her mouth
    After the flood all the colors came out

    It was a beautiful day
    Don’t let it get away
    Beautiful day

    Touch me
    Take me to that other place
    Reach me
    I know I’m not a hopeless case

  3. A sabedoria começa – não quando atingimos um certo grau de conhecimento, ou de habilidade e poder para usá-lo – mas quando começamos a perceber nossa inutilidade, fragilidade e miserabilidade.
    É o começo da liberdade. E não há felicidade sem ela.

  4. Não há muito o que ser dito depois do comentário do Rubens. Penso que só há redenção possível depois que somos tomados por esta tão humana sensação de inutilidade.

    Na medida em que seu post nos lembra disto, não deixa de ser um tremendo alento a seus leitores.

  5. concordo com o Alysson… o Rubens já disso tudo.
    como sempre, Lou, você nos faz refletir sobre questões que precisam ser refletidas.
    beijos,
    alê

  6. A desesperança parece já ir tomando conta de muitos de nós, cada vez por mais momentos…

    Legal saber que empregavas a brincadeira do elástico em tuas aulas! Eu “fugia” das minhas aulas porque naquela ocasião, meus professores de Ed. Física só largavam uma bola na quadra e a aula estava “dada”…

    Abraço.

    E que recebamos ramos verdes…

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