A Gruta do Lou

O monte Paulo da Lapa

(Desaconselhável para menores de quatorze anos)

Na época do Tio Cássio, apareceu na igreja um pastor chamado Paulo. Era pastor de uma Igreja na Lapa. Como a maioria que aparecia lá, era pentecostal e muito carismático, até além da conta. Ele não se limitou a ir uma vez, pregar e sumir. Foi e continuou a ir. Quem dirigia os cultos dos jovens em nossa igreja, naquele tempo, era o Celso. O Pastor Paulo aproximou-se dele e começou um processo de tentar convencer-lo a mudar para a Igreja dele. Grande cara. O Celso não estava muito afim, mas balançou. Balançou mas não se decidiu. Então o pastor fez um desafio: vamos orar quarenta noites lá no monte (um lugar que ele descobrira) e ver o que Deus nos diz no final. Geralmente, Deus dizia as coisas por intermédio dele mesmo, então o resultado era esperado.

Como estava inseguro, o Celso convidava um ou dois rapazes da nossa igreja para ir com ele, a cada noite. Ele me convidou várias vezes, pois confiava em meu julgamento, mas eu me negava a ir, enquanto outros aceitavam e iam. O Flávio me procurou, certo dia e me disse:

– Lou você precisa ir conhecer esse monte. É a coisa mais hilária que eu já vi nesse mundo de Deus. O Pastor Paulo hipnotizou o Celso e ele está enredado. Acho que se você for e depois falar com ele a opinião dele mudará.

Cáspite, aquilo estava cheirando problema na certa. O Flávio disse mais, eu levo você em meu carro e deixo você em casa na volta. Pensei: só faltava eu ter de ir com meu carro.

Naquela noite, o Flávio me pegou e rumamos para a casa do Pr. Paulo, na Lapa. Lá estavam outras pessoas de nossa Igreja, alem do Celso e da figura. Nessa altura, eu já desenvolvera um certo asco daquele homem. Serviram um lanche e o cara não parava de fazer brincadeiras:

– Então Celso, qual a profecia dessa noite? Estou com uma na ponta da língua.

Começou a chover, na verdade, chovera o dia todo. Saímos em fila indiana e lembro que andamos muito, primeiro por avenidas e depois através de um caminho tortuoso, morro acima. Paramos em uma rua e ouvi o Pr. Paulo gritar:

– Daqui para frente seguimos a pé.

Não havia calçamento, era terra e com a chuva virara barro. Em segundos, meus sapatos estavam enlameados. Professor de Educação Física, eu era magro e muito ágil, mas o Flávio era muito gordo. O apelido dele no Achê, um laboratório onde trabalhamos juntos algum tempo, era Rolha, cujo significado era rolha de poço. Eu estava preocupado com ele. Além de gordo ele era alto e se caísse, poderia se machucar feio, sem falar na sujeira.

Chegamos, finalmente, ao topo do morro. Aquilo era o tal monte. Estava cheio de gente. Todo mundo evangélico e pentecostal, de várias igrejas. Chovia, estava frio e muito escuro. Com a chuva quase não dava para ver as pessoas direito. O Pr. Paulo chegou e assumiu o controle: Pessoal vamos dar as mãos e fazer uma roda que Deus vai começar a falar. Fizemos um roda grande. Notei que o barro já subira pelas pernas da minha calça. O lugar onde eu estava tinha mato alto e não dava para ver nada da canela para baixo. O Celso puxou um corinho:

– Louvado seja meu Senhor oooo…

Foram vários então. Enquanto isso, o Pr. Paulo estava com a cabeça baixa e trimilicava, até que fez uma sinal com a mão e todo mundo silenciou. Eu já estava completamente injuriado, naquela altura. Olhei para o Flávio e ele tinha um maldito sorriso estampado no rosto, estava imaginando como eu me sentia. Falei para ele:

– Vamos sair daqui!

Ele riu mais aberto e não respondeu. Percebi que estava mesmo ferrado. Só poderia ir embora com ele. Eu não tinha a menor idéia onde estávamos e como voltar. Depois com todo aquele barro na roupa, seria impossível.

O Pr. Paulo colocou a mão sobre a cabeça de uma mulher que tinha os cabelos compridos que chegavam até os joelhos e vestia uma roupa que fora branca, algum dia. Ela estava bem na minha frente, do outro lado da roda. Ele começou a expulsar demônios dela e, em pouco tempo, a mulher foi ao chão em uma espécie de transe. O pastor não deu a mínima e seguiu na direção da outra pessoa, ao lado da mulher, e fez o mesmo. Percebi que ele pretendia expulsar demônios de todo mundo ali. Virei para o Flávio e sussurrei:

– Se esse cara vier expulsar demônios de mim, vou dar uma porrada na cara dele.

O Flávio caiu na gargalhada. Continuei:

– Vou fazer “bife a parmegiana” com ele, empanando com barro e depois vou fritá-lo morro abaixo.

O Flávio estava se matando de tanto rir. Ele ria e a gordura dele chacoalhava toda. Uma mulher perguntou ao pastor porque aquele homem ria tanto e o arauto respondeu:

– É risada do espírito!

– Pára, pára que estou com vontade de fazer xixi e se você continuar falando desse jeito, vou ter que fazer nas calças, disse-me o Flávio.

– Meu! Ninguém está vendo nada direito aqui, vira ao contrário e mija aí mesmo.

Não deu tempo, ele começou a mijar de frente para o povo mesmo. Ele não pode virar para direita, pois me atingiria com o esguicho e nem para a esquerda onde estava uma senhora mal encarada. A mulher da frente, quando viu aquilo tudo, gritou:

– Oh!

E desmaiou. O Pr. Paulo, sem ver o que o Flávio estava fazendo, correu na direção dela e começou a orar com as mãos impostas. Outras mulheres olharam na direção do Flávio e desmaiaram, também. Um homem perguntou ao pastor sem reparar no Flávio do outro lado:

– O que está havendo pastor?

– Elas estão vendo um enorme anjo.

Não sabia que anjo se parecia com um pinto mijando, pensei.

Uma mulher à esquerda puxou um corinho: É a Santa Cruz…. Outros aproveitaram para aliviar-se, mas tomaram o cuidado de virar de costas. Acho que vi até umas mulheres agachadas e mandando ver. O barulho do desaguar do Flávio que não acabava mais, os outros que se juntaram a ele e a chuva emitiam um ruído de muita água rolando e o Pr. Paulo gritou:

– Ouçam irmãos! Ouçam o Espírito de Deus se derramando…

Naquela altura eu desisti e falei para o Flávio que ia descer e esperar no carro. A chuva aumentara muito e quando comecei a descer as pessoas todas me seguiram. Todos desceram, inclusive, o Pr. Paulo e o Celso. Todo mundo estava encharcado e enlameado dos pés à cabeça. Do lado do carro o excomungado disse:

– Que benção de noite no monte, não? Viram como Deus se fez presente no nosso meio? Nunca tinha experimentado nada assim.

O Flávio não conseguia parar de rir. Confesso que eu não estava conseguindo ficar sério também. Será que era mesmo risada do espírito? Depois daquela noite o Celso nunca mais foi lá e decidiu não mudar para a igreja do Pr. Paulo. Não teve coragem de perguntar minha opinião. Ele sabia a resposta.

14 thoughts on “O monte Paulo da Lapa

  1. É meu amigo, embora eu já conhecesse essa história, você me fez rir a valer, novamente. Traduzi para o pessoal da missão aqui e alguns choraram de tanto rir. Mas acho que você não receberá muitos comentários não. 🙂 🙂

  2. Khalil

    Se for esperar comentários dos judeus em hebraico, estou mesmo mal arrumado. Mas se quiserem fazer em inglês, fiquem a vontade. Mas entendi que não é deles que você está falando. Beijo para você e para a Laila.

  3. …Só faltou alguém lá dizer que estava vendo matinho verde brilhante ou xixi com estrelinhas…. já ouvi cada uma de monte que até parecem duas….rsrsrsrsssssss……. aqui na terrinha dos Cunhâbebe e dos prumirins é costume da crentolandia subir o monte (muitas vezes são assaltados por maconheiros)e descer de lá pastores por revelação divina (?)….talvez por isso a qualidade pastoral-apostalar dessa cidadezinha linda seja tão duvidosae barulhenta.
    Agora, as irmãs desmaiando….hhhmmmmmmm…..rsrsrrsrssssss
    Abraços
    Alice

  4. Uia! Cara, que lindo! Arrasou!

    Com relação ao texto, uma sugestão: que tal se nós, os grutenses, escrevêssemos um texto “a várias mãos”, com todas essas tiradas hilárias? Somos os hereges mesmo…

    Amei o jeans! Você lembra daquele comercial dos anos 70: liberdade é uma calça velha, azul e desbotada…? Se bem que essa “calça” tá novinha…

    As músicas também estão bacanas…mas deixa eu ir embora, que já joguei muito confete. xauuuuuuuuuu

  5. Bete

    És uma afortunada, pois vistes o fundo jeans. Pode mandar as tiradas que eu publico, ou combinamos um dia para fazer um post com todos os que mandarem, ou algo assim.

  6. Ahhhhhhhhhhhh, que peninha, tão lindinhu! Você lembra que a gente ia na Rua Direita comprar calça Lee Americana?
    Lou, um dia numa igreja dessas aí, um sujeito foi lá testemunhar, e contou que tinha se acidentado naquela tarde, um tombo feio, e que tinha levado 7 pontos, “mas ele queria dizer pra igreja naquela noite, que aqueles 7 pontos, eram 7 vitórias”, mas ele gritava, cara, era muito engraçado, a igreja aleluiava! Eu tive que sair pra rir lá fora.

  7. Bete

    Nesse meio se escondem grandes histórias que, se contadas, dariam óperas traji-cômicas aos montes (não sei se escrevi certo) mas a essa hora já estou trocando jotas com ges, sabe como é, a soda da vodka faz uma mal danado. 🙂

  8. Lou

    Já é quase uma da matina…e eu aqui chorando de rir. Quase que tive de adotar a estratégia do Flávio, ainda bem que o banheiro é aqui do lado.

    Hoje você me fez me sentir um insano “júnior”… preciso te apresentar um sujeito que está que me levar na igreja do pastor cartomante dele – acho que não tem lama (só a metefórica, como sói acontencer)

  9. Fábio

    Às vezes é bom se deixar levar em uma jornada dessas. Na verdade já cometi muitas insanidades desse tipo sozinho ou arrastando alguma vítima comigo. Sempre valeu a pena. Se não ria dos moradores, ria da vítima.

  10. Hilário!!

    Lou, você é o nosso contador de causos evangélicos ‘namber uno’ !

    As histórias são terapêuticas e fazem um bem tremendo – lavam a alma, com ou sem risadas.

    A sacanagem é que não se inventou (à semelhança do fonezinho de ouvido) algo para deixarmos estravazar a nossa gargalhada sem acordar o resto da família.

    Deixa eu, agora, ir pro banheiro …

  11. Volney

    Creio que as histórias entram naquele tema da transparência, do expor-se que o pessoal tratou naquele encontro que “vocês” participaram. Deve haver muitas histórias tão boas ou melhores por aí. Só falta o pessoal começar a soltar. Cê sabe aquela do Eneas Tonini? Então, uma vez…

  12. Alysson

    Se ele não for capaz, estaremos mal arrumados de vez. Freud deveria ser obrigatório na educação cristã, não é?

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