A Gruta do Lou

O Monte está vazio e esquecido

07/06/2007 – 14h27

Com Três e meio milhões de pessoas, Marcha para Jesus ocorre em SP; trânsito sofre alterações

Versão Revista e Corrigida

Não sei o que aconteceu. Acho que peguei o desvio dos medíocres e acabei produzindo um texto que contém inverdades. Então o modifiquei para trazê-lo de volta aos moldes grutenses.

Desde os tempos de Abraão e suas obsessões compulsivas, Deus tem o hábito de manifestar-se no monte. O monte onde Isaque quase virou churrasco, Abraão batizou de O Senhor Proverá e o povo mitificou de No Monte do Senhor se proverá.

Depois de muitos anos, apareceu Moisés e toda a sua saga. Deus não facilitou e fez o velhinho andar durante quarenta anos, com o povo reclamando, pelo deserto do Sinai e então mandou-o subir o Monte Sinai, para receber dois pedaços de pedra com instruções gerais ao povo e que se convencionou chamar de a Lei. O povo, para complicar ainda mais, apostatou bravo sob o comando de Arão, irmão de Moisés e este ao ver o que a multidão havia aprontado, quebrou as pedras (tábuas) da lei. Resultado, teve que subir o monte uma segunda vez, levando novas pedras no lombo para receber a Lei, outra vez. Mais uma vez, Deus proveu o povo no cume do monte, pois no Monte o Senhor Proverá e só Moisés o viu. Nunca entendi essa história direito. Se o povo estava todo no vale, por que Deus marcou encontro reservado com Moisés? Acho que não podemos esquecer que esse senhor era um assassino fugitivo. Se Deus queria falar com alguém em particular, devia chamar alguém mais consagrado, que não tivesse pecados em seu currículo e nem mesmo penitências vencidas a pagar, como os eleitos da reforma, por exemplo.

Em dias de grande aflição, gosto de ficar repetindo a expressão “Deus Proverá” ou, de forma completa “No Monte o Senhor proverá”. Tenho comigo a sensação de estar implícita na provisão de Deus uma caminhada até o cume do monte. Deus gosta de abençoar gente que sobe até lá, cheio de fé, na certeza de que lá Ele abençoará. Adoro o senso de humor do maioral. Obviamente, ninguém precisa empreender viagem física até o Monte Sinai para receber sua benção, mas encontrar a forma espiritual de fazê-lo. Para mim é fácil, pois moro em uma casa assobradada e basta me dirigir ao meu quarto, lá em cima, e pronto. O único problema é que desde que moramos aqui, empreendi essa viagem milhares de vezes e Deus nunca se dignou a aparecer. Mas continuo na expectativa. Não quero nem pensar na possibilidade dessa história não ser verdadeira. Estou cansado e desanimado demais para pensar em outra hipótese capaz de aliviar as minhas misérias. Se bem que estou com as minhas penitências em atraso monstro.

Esta semana, a TV Record, uma das redes de televisão que lutam pela vice liderança da audiência brasileira, e que pertence a Igreja Universal, apresentou um documentário cujo teor era a subida do Monte Sinai. Um repórter e um cinegrafista, acompanhados de beduínos (habitantes da região do Sinai) subiram o Monte Sinai, até o cume. Chamou-me a atenção o estado de abandono da trilha que permite aos peregrinos alcançar o topo do monte, dois mil e seiscentos metros de altitude, em viagem a pé de um dia e meio. Nota-se que esse caminho não é muito usado e não há outro. Poucos são os que empreendem essa caminhada. Pelo jeito, não sou o único esquecido de Deus. Eles não encontraram Deus lá, também.

Anos atrás, lá na Igreja Batista do Sumarézinho, que as disputas humanas silenciaram, preguei uma mensagem com esse tema. Era domingo de Pentecostes e queria trazer o Espírito Santo para aquelas pessoas. Convidei-os a subir o monte comigo, até o cume, no lugar onde Deus Proverá. Ele está lá, onde sempre esteve, disse. No topo do monte “O Senhor Proverá” está a sua benção, a sua resposta, a sua revelação ou a sua libertação. Você precisa subir. É uma tarefa cansativa e o ar chega a faltar, porém Ele está à espera dos que com fé a ele buscam.

Desde então, venho praticando minhas palavras e, até agora nada. Minha esperança se renova quando leio ou escuto testemunhos de irmãos cujo resultado foi satisfatório. Alguns, inclusive, convencidos por minha prédica. Vá até lá. Não esqueça de levar duas pedras limpas e polidas, onde Ele prefere escrever suas instruções. As minhas tábuas continuam OXO. Nem tive que me dar ao trabalho de quebrá-las diante do povo fazedor de bezerros de ouro.

Também, o que trouxe Moisés lá de cima? Um código moral. Certo? Depois de milênios de moralismo, graças a essas pedras mosaicas (desculpe a redundância), estamos vivendo dias em que condenamos a moralidade e abraçamos a imoralidade. Se não o fazemos pessoalmente, convivemos com os adeptos ou guardamos secretamente nossa simpatia com as práticas imorais.

O Monte tem estado vazio e esquecido. Poucos são os que empreendem a escalada. As pessoas, por alguma razão tola, ficam no deserto gritando, clamando, chorando ao invés de subir ao monte. No Monte o Senhor Proverá. O que não sei. Quem sabe outro códice moral ou um relatório das nossas imoralidades que nos impedem de ser abençoados.

O Galileu não deve ter lido o livro de Gênesis. Caso o tivesse feito, não viria com aquelas heresias de salvação pela graça e universal. Provavelmente teria pensado duas vezes antes de entregar sua vida em favor de todos. Muito melhor ficar com as tábuas (pedras) que Moisés ganhou no cume do monte O Senhor Proverá. Deus é um grande enigma, o qual não sou capaz de decifrar. Quem conseguiu teve a prudência suficiente de não revelar-me o segredo.

Só me resta sentar nessa gruta e suportar minhas culpas e pendências de todas as ordens.

Peço as mais retumbantes desculpas aos que leram aquela bobagem positivista anterior. Não havia ali nenhum sarcasmo ou as costumeiras ironias que tanto prazer me dá.

Textos Bíblicos: Gênesis 22:14 e Êxodo Cap 19

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