A Gruta do Lou

O missionário

O Misssionário
O Misssionário

Desde que o Thomas nasceu, quase vinte e um anos, passei a ter exóticas surpresas noturnas. Nosso filho nunca nos deu trabalho durante as madrugadas, mas o aparato celestial em torno dele, nem tanto.

Essa foi uma noite daquelas. Lá pelas três horas da manhã, mais ou menos, comecei a lutar para permanecer dormindo. Nos últimos dias, tudo que desejo é não acordar, sob hipótese alguma. Algo estava me incomodando, pensei em queda de temperatura, não o ventilador estava ligado no máximo e ainda assim, a cama parecia muito quente. De repente me toquei do barulho, um ruído misturando respiração quase ofegante com ronronar e movimentos de alguém inquieto. Pensei primeiro na Dedé e abrindo os olhos percebi-a em sono profundo. Quem será então? Um dos meninos? Como, se tranquei bem a porta antes de deitar? Dei um salto, sentei na beirada da cama e vi a figura absolutamente excêntrica sentada ao pé da mesma. Que susto terrível! Depois de tantos anos, não consigo me acostumar com essas visitas noturnas do Raniel, com sua roupa de anjo toda espalhafatosa e aquelas asas imensas, cabelos desgrenhados e barba por fazer. Estava todo desalinhado, como sempre.

Depois de examiná-lo, apesar de ainda relutar em acordar, ele me disse:

– Foi uma briga, mas está tudo bem.

Perguntei com quem, mas ele não respondeu, como de hábito quando lhe pergunto isso. Mas foi logo dizendo:

– Já visitei o Thomas. Ele está bem, mas andou fazendo um monte de orações e precisei vir com urgência. Está mais preocupado com você do que com ele mesmo.

Expliquei que estou ansioso com várias coisas, não apenas com a saúde dele, embora não fosse necessário esse relato. Então ele revelou secamente:

– Seu amigo Khalil vai ligar para você daqui a pouco para solicitar sua ajuda em uma missão na região da Terra Santa. Você deve aceitar. Enquanto estiver por lá, eu e uns amigos cuidaremos das coisas por aqui. Em todos os sentidos, isso será bom para você, para o Thomas e toda a família.

Esfriei, com as duas coisas, com a missão e com a última informação do anjo. Mas para ele, não há diferença entre falar e pensar, então me respondeu, tranquilizando-me:

– Por isso trarei meus amigos, eles são mais certinhos do que eu. Cumprem rotinas e horários e não dão as mancadas que costumo dar. Uns babacas com asas.

O telefone tocou, então. Olhei para o Raniel e ele sinalizou com os olhos: era o Khalil. Sempre que ele me liga, tenho enorme dificuldade em dominar as emoções, durante longos minutos. Amo esse cara, sua esposa, filhos e sua mãe. O telefonema estava tão audível quanto qualquer outro. Parecia alguém falando de Sorocaba, mesmo e não de tão longe quanto Israel. Depois de colocarmos todos nossos assuntos em dia, falou da missão:

-Lou, preciso de você.

– Já sei.

-Como? Você sempre diz isso. Como?

– Alguém veio na frente me avisar.

– Raniel?

-Sim. Do que se trata? Já fui convencido a aceitar, seja lá qual for a fria que você vai me meter agora.

– Alguém precisa ir a um país vizinho daqui fazer umas coisinhas. Temos um pastor novo lá e ele precisa daqueles treinamentos relâmpagos que você sabe fazer como poucos. É jovem, convicto, mas muito impetuoso e temo pela vida dele. Como você sabe, aqui na missão, o único com aparência ideal para esse tipo de trabalho sou eu e não posso deixar a sede agora, porque estamos atravessando um momento muito difícil aqui. Então me lembrei de você, rapidinho, claro. Seu tipo físico é ideal e é completamente capacitado tanto pelo fato de dominar as línguas necessárias (sic) quanto por sua maturidade espiritual, conhecimento de causa e treinamento teológico. Seria uma missão muito arriscada para qualquer novato, enquanto para você será só rotina. Tenho uns seis americanos e três ingleses por aqui, mas não enviaria nenhum deles. Não enlouqueci totalmente , ainda. Com você lá, ficarei tranqüilo. Sei de suas dificuldades por aí, e esse trabalhinho permitirá uma boa ajuda financeira para você e toda a família, como das outras vezes.

– Pode contar comigo. Respondi. Qual é o plano?

– Mando para você como sempre. Você sabe, sigilo absoluto para sua segurança.

Continuamos conversando por mais um tempão. Nem me dei conta da saída sorrateira do Raniel. Depois que desligamos, senti um misto de alegria e apreensão. Sempre me sinto assim nessas ocasiões. Geralmente, essas missões duram uns dois meses, entre as viagens e o trabalho, em si. Falar com o Khalil é uma honra tão grande, uma emoção absolutamente indescritível como se estivesse falando com um santo, embora eles não existam nesse plano, se não me engano.

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7 thoughts on “O missionário

  1. Três questionamentos:

    1-Você está engordando Lou? =)

    2-Raniel gosta de beber?

    3- Khalil não seria mais útil no Brasil?

    Abraços Lou, estamos por aqui, escondidinhos na Gruta!

    De quando você esteve aqui, parece que estou com uns três ou quatro quilos a menos. Talvez, nessa foto, estivesse com mais, sei lá. Talvez seja o ângulo. O fotografo não era meu amigo, aquele crápula. Ou você está com uma trave no olho e… 🙂

    Raniel bebe bem, mas nunca em serviço. Problema é que ele passa muito mais tempo de folga do que no batente, quando não está brigando ou dançando.

    Já falei com o Khalil sobre isso, mas ele insiste nessa bobagem de servir o Senhor na Terra Santa. Deve ser algum trauma, ou não lhe dão o devido valor por aqui. Sei lá.

  2. Não gosto do nome Raniel – lembra nome de anjo, e anjo que é anjo não se revela pelo nome… Raniel não combina com cabelos desgrenhados, combina?
    Bem, mas você é o Criador, você que nomeia. Se bem que, noutra fábula, o Criador deixava uma das criaturas escolher os nomes das outras… Saramago fez mais ou menos isso no Ensaio sobre a Cegueira: o povo não tinha nome, não! Era o 1º Cego, o 2º Cego…

    Não entendi a do “seu tipo físico é ideal”. O cara tem que impressionar pra treinar um novato nas peripécias teológicas e pastorais, tipo aquele Calendário do Vaticano? Ou tem que parecer nem-estar-aí, tipo aqueles do Sebastião Salgado?

    Mas é fod… mermo: que é que estou a fazer dando pitacos sem nexo, numa história que eu peguei fora da estação, escrita por um cara que nunca vi e que nunca me viu (salvo o caso de abalroamento – nalguma multidão atravessando uma grande rua de uma grande metrópole – seguido de um simultâneo “desculpaí”, de ambas as partes) cujo blogue facilmente cai na tag “subversivos”?

    Desde de o começo, ele respondeu Raniel quando fiz a pergunta: qual o seu nome? De repente não era isso, mas foi ficando, ficando… Agora todo mundo o conhece assim.

    O tipo físico ideal para essas missões no Oriente Médio é o meu. Tenho cara de turco, como diria meu pai, o que quer dizer, moreno, narigudo, cabelo crespo (não serve pixaim, melhor mais ao sul do OM), barbudo e cara de mau. Agora, impressionar o novato nas peripécias citadas é fundamental. E o blog, é subversivo sim, dependendo do ângulo de quem olha, claro. Essas tags…

  3. Não substime os Santos,eles estão aparecendo cada vez mais
    nesse plano…
    Ainda bem,pois a batalha estava muito desigual…sem falar
    no trabalho que dá essa nossa ala de subversivos…

    Ops: Viu seu comentário que virou post? Veja aqui

  4. Irmão Lou,

    andam dizendo por aí que a vida imita a arte… Se isso for verdade, é melhor mudar de canal!

    Tu escreve bem paca!(= prá cachorro)! rs

    Nesse caso, é preciso mudar de país e voltar a ser o Henry Mellow, um escritor que viveu algum tempo na Flórida, chegou a receber algumas propostas de editoras com filial no Brasil e depois sumiu. 🙂

  5. HENRY MELLOW, KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK, meus filhos estão perguntando porque não paro de rir, estou com dor na barriga.
    Hoje o Raniel me deu um baita susto! Ô anjinho danado!!! Só porque ele quer. Não vai ser dessa vez que ele vai levar você lá pro “front”. Deixa o Khalil lá. O chamado é dele. Você é o Henry, digo, o Lou, o Lou da Gruta. Aqui é seu lugar.rsssssss

    Às vezes, ficção e realidade se misturam. Quanto ao Henry, foi um detalhe interessante de um editor gospel de Miami que em meia hora me propôs publicar livros meus no Brasil com esse pseudônimo. Segundo ele, no Brasil, nomes estrangeiros têm mais aceitação. Detalhe, eu nem havia escrito nada, naquela época.

  6. Lou querido,

    Eu adorei o post!

    E juro que acreditei em cada palavra até ler embaixo que se tratava de “ficção”.

    Nunca havia lido sobre o Raniel aqui na gruta! Talvez ele apareça nos dias em que não passo por aqui, rsrsrs

    Lou, o nosso lugar, é onde Deus nos quer! Então, fica atento aos sinais. Fica atento ao que o Raniel te diz.

    É por aí, amigo!

    God works mysterious ways.

    beijinho,

    Neli

    PS: Lou, eu que fui fumante inveterada por trocentos anos, e que não achava que isto era pecado ou que fazia mal para a minha saúde, etc, parei de fumar da noite para o dia por conta de um sonho, que sei que foi uma mensagem para mim. Para mim e mais ninguém!
    À partir da manhã seguinte nunca mais coloquei um cigarro na boca. E meus filhos são testemunhas disto.

    Obrigado pelo apoio. Acredito em seu testemunho. Aliás, publico as histórias contendo atos do Raniel (anjo pessoal do Thomas) sob a rubrica ficção com aprovação do próprio. O pessoal não acreditaria se dissesse que é tudo verdade. Aliás, fui acusado de divulgar doutrinas heréticas envolvendo teologia de anjos, tempos atrás. Cachorro mordido por cobra teme a lingüiça. 🙂 Tão querendo entrevistar o Governo Estudantil do GV, cuidado.

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