A Gruta do Lou

O meu grande amor

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Durante a semana, minha caixa postal enche de convites vindos das igrejas me convidando para pregar no domingo. Isso me constrange porque se eu aceitar qualquer um deles, estarei sendo injusto com todos os outros. Por isso só há uma opção: o sermão hoje, é aqui mesmo na Gruta. Como estamos em casa, não acontecerá nada demais, apenas mais uma narrativa das aventuras de Khalil com Jesus ou, como prefiro chamar:

O Evangelho Segundo Khalil

Vínhamos de Jerusalém onde estivemos vários dias e o mestre havia realizado a maior série de ensinamentos de todas, deixando todos nós muito tristes porque falara muito dos tempos que viriam, do julgamento dos gentios e de sua maior obsessão: seu martírio. Havia todo um clima ruim. Ouvíamos o povo em burburinho e corriam boatos de que o mestre e seus seguidores mais próximos poderiam ser presos pela guarda pretoriana a qualquer momento. Mas, até ali, eles se mantinham por perto e não fizeram qualquer gesto nesse sentido.

Chegamos a Bethânia. É a cidade mais próxima de Jerusalém, na direção leste. Estávamos todos muito cansados, mas Ele parecia ter forças intermináveis. Ousei perguntar-lhe sobre nosso destino. O sol estava em seu maravilhoso ocaso e meus pés doíam muito, fora a sujeira acumulada sobre minhas roupas beduínas. Ele respondeu simplesmente: “para a casa de Simão”

– Senhor, a casa de Simão fica muito longe daqui, lá nas margens do mar da Galileia. Respondi.

Estávamos em frente a uma casa. Com ar de bom humor ele me apontou a porta de entrada. Esta era a casa de outro Simão, conhecido como Simão o leproso. Ninguém, absolutamente ninguém que não fosse da família entraria ali, mesmo assim, só alguns da família, mais chegados. A lepra isolava o leproso da sociedade, totalmente. Jesus bateu na porta e abriu, entrando pela casa a dentro, em seguida. Do meio da sala fez sinal para entrarmos. Éramos umas vinte pessoas, no total, somando os homens e as mulheres.

Uma mulher saiu por uma porta, que vim a saber era o quarto onde Simão passava a maior parte de seu tempo, sobre seu leito de morte. Ela era linda. Cabelos longos e negros, olhos pretos como jabuticabas, nariz pequeno e afinado, boca sensual e uma pele maravilhosa. Foi amor a primeira vista, de fato, não apenas para mim, mas para todos os homens solteiros presentes, não que os casados não tenham reparado na beleza monumental e simples da moça.

As mulheres que nos acompanhavam juntaram-se a essa jovem linda e iniciaram a dança do banquete. Onde quer que o Senhor entrasse para cear virava festa. Naquela noite a casa de Simão o leproso se iluminou. Havia dias que Simão não deixava aquela cama, certo de que só sairia dali para o cemitério. Mas meu Senhor entrou por aquela porta e adiou por muito tempo os planos de Simão. O moribundo saltou da cama, banhou-se e vestiu sua melhor roupa. Sentou-se conosco e foi quem mais falou e riu naquela noite memorável.

O carneiro esteve melhor do que das outras vezes e o vinho era soberbo. Não vi se o Senhor andou pela cozinha fazendo das dele, mas, até onde posso me lembrar, estava tudo muito além da conta.

Às tantas, Maria, aquela moça fantástica, adentra à sala com um jarro de alabastro nas mãos. Segue na direção do Senhor, que estava sentado sobre uma almofada no centro da sala, e quebra o jarro deixando todo o bálsamo escorrer na cabeça e corpo do Mestre judeu. Todos nós sabíamos que essa era a maior honra que uma mulher poderia dedicar ao seu noivo, geralmente era realizada na noite de núpcias e na privacidade do casal.

O ritual foi maravilhoso, mas ousado e deixou todos os presentes perplexos. Ninguém desconfiara que Maria faria aquilo. Os discípulos escolhidos, há muito haviam assumido ares de sensores em relação a tudo que acontecia com o Mestre. Nesse caso não foi diferente e trataram de desmanchar o prazer daquele momento, rapidinho. Um a um, recriminaram a moça. Judas foi o mais incisivo, sempre preocupado com as questões financeiras, disse: Para que esse desperdício? Pois este perfume poderia ser vendido por muito dinheiro e dado aos pobres.

Olha, meu papel ali era muito menos importante. Apenas uma testemunha dos fatos. Creio ter conseguido avaliar tudo com muito mais isenção. O que eu vi naqueles homens foi o bom e velho ciúmes. Maria se portara como noiva, ela acabara de declarar a Jesus todo o maior amor que uma mulher é capaz de sentir por um homem e, em sua consciência, percebera que ele não teria tempo para as delícias do casamento e tratou de aproveitar o que, intuitivamente, seria sua derradeira oportunidade. Seu amor total não dependeria de casamento, sexo e vida familiar. Ela perdera ali toda a sua riqueza, todo seu melhor com quem mais amava e amaria nesse mundo. Seu amor era puro, cheio de gratidão e completamente desprendido

Meu Senhor ouviu todas as bobagens ditas imprudentemente, como de praxe, silenciosamente e aguardando até que o último falasse. Tinha um leve sorriso nos lábios e um ar de grande satisfação. Então disse:

– Por que molestais esta mulher? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tereis. Derramando esse perfume sobre o meu corpo, ela o fez para o meu sepultamento.

Assim tentou desfazer a idéia de sensualidade e conquista que se estabelecera no recinto, menos no coração do Mestre, cuja agenda não incluía a menor possibilidade para um casamento, mas incluía sua morte vicária.

Depois disso, lançou um olhar em minha direção e declarou a todos:

– Em verdade vos digo: Onde for pregado em todo o mundo este evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.

Quando deixamos aquela casa inesquecível, Simão ficara totalmente livre da lepra.

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Assim resolvi narrar esses acontecimentos como me foi informado por Khalil, em cumprimento estrito à vontade de nosso Senhor Jesus de Nazaré. Muito se acham nobres e presunçosamente portam-se como heróis, assumindo ares de salvadores por estarem dando migalhas aos pobres. Na melhor das hipóteses, não entenderam nada do evangelho. Ninguém faz nada demais quando ampara o aflito, o endividado, o entristecido ou o esfomeado. Mas o grande barato é dar seu melhor amor ao Mestre.

Você já quebrou seu vaso de alabastro, apaixonadamente e despejou o bálsamo sobre seu grande e eterno amor? Teria coragem de fazê-lo?

Como diria a Tinoca : Pense nisso!

Leia mais em O Evangelho Segundo Khalil:

1- A Testemunha Trans-secular

2. O meu grande amor

3. Uma Grande Luz

4. Pescadores de Homens

5. Levou sobre si as nossas dores

6. A felicidade maltrapilha

7. Lágrimas Valorosas

8. Os famintos

9. Os Misericordiosos

10. Corações purificados

11. Os Pacificadores

12. Os Perseguidos

13. Os Recompensados

Capricornio PB

15 thoughts on “O meu grande amor

  1. Pô, gostei do sermão. Mas confesso que de pronto assim não sei responder não. Deve ser porque a resposta é não. Ou não. Vou pensar. Mas posso adiantar que já fui mais corajosa.

  2. Bete

    Talvez, coragem não seja a ferramenta adequada, nesse caso. A Maria estava apaixonada, completamente gamada no mestre e esse sentimento concede uma força incomensurável, aquela tal que remove montanhas, cura enfermos e quebra os vasos de alabastro.

  3. Lou, concordo com a Bete, vc está poetizando muito bem !!… aliás como poeta vc é um grande pregador !!
    Muito legal.
    Abraços
    Alice

  4. Alice

    Se bem que a idéia não é ser poeta ou pregador, apenas colocar o que está lá dentro para fora, para não sucumbir.

  5. Lou,

    Mais uma vez, fiquei “presa” ás suas palavras”…

    Sempre me tocou muito a atitude desta mulher.

    Como mulher que sou… creio que consigo perceber o que ela sentia naquele momento:

    Amor, muito amor, um amor imenso… pelo seu Mestre e Senhor.

    Fique bem e tenha um bom dia

    Viviana

  6. Viviana

    Desde a primeira vez que li essa passagem com atenção fiquei com a forte impressão de tratar-se deu um supremo ato de amor total. Tanto na atitude da moça quanto na reação do Senhor e na ciumeira geral. Pensei nesse lado feminino de identificação com ela, também. Não há passagens vãs nos evangelhos. Certo?

  7. Jorge

    Eu entendo, fique tranqüilo. Geralmente, algumas pessoas saem antes do final da pregação, mesmo quando a maioria parece apreciá-la. Quando eu ainda assistia os jogos do meu Corinthians no estádio, sempre havia a saída de torcedores antes do jogo terminar e não foram poucas às vezes que o gol de empate saiu aos 47 do segundo tempo. Não entendo isso. Mas sei que você não está fazendo menção ao tamanho do meu texto. Você não faria isso. 🙂

  8. Lou,

    A questão não é tanto a qualidade do seu evangelho (que até pode ser bom), mas a minha inata falta de paciência com postes grandes. Nunca saí de jogos a meio do jogo, mas de pregações, já. E algumas, talvez demasiadas, apetece-me sair quase antes de começarem, mas tento exercitar a santa humildade cristã e faço desenhos em papéis que trago no meio da Bíblia.
    Abraços
    🙂

  9. Seu texto falou profundamente ao meu coração. Acho que tenho um vaso para quebrar, mas minha negligência me tem impedido. Como eu gostaria de me apaixonar outra vez…

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