A Gruta do Lou

O medo da morte

Em três anos, escrevemos muita teologia por aqui. Falamos da teologia da morte dos protestantes em oposição à teologia da vida de Cristo e tantos outros temas. Nosso propósito, se o Warren e o Ed me permitem, tem sido combater as falsas crenças, os exageros e as falácias mais escandalosas. Essas coisas escravizam as pessoas. A Gruta tem sido um lugar de amparo às vítimas desses males.

Nossas rubricas estão bagunçadas. Faz tempo que me proponho a colocar ordem nisso, mas ando procrastinando, até isso. Imagino colocar tudo que foi falado e escrito a respeito desse tema sob a rubrica “A Teolougia da Gruta” ou Teolougia de Quintal. Nada muito ambicioso. É que as coisas foram acontecendo e me parece haver algo bem aproveitável por aí. Claro que manterei tudo bem escondido. De repente a Cia das Letras descobre e vai querer publicar. Não, continuo em meu roteiro “low profile” e devo encerrar meus dias por aqui, assim. Depois vocês façam o que desejarem, inclusive, publicar tudo como se fosse seu, tá limpo, desde que deem o produto aos meus descendentes, obvio.

Quando falo sobre a morte, a minha no caso, logo meus amigos me repreendem. Na verdade, esse cuidado me surpreende. É sim, fico com a aquela sensação meio estranha de que os caras acham que não acontecerá com eles. Mais ainda, me passa a idéia de que estou infringindo o artigo 17428 da secreta lei da existência, onde reza expressa proibição de se falar da própria morte. Eles imaginam uma espécie de mortalha, onde o cara prepara tudo e depois morre. Como fizeram aqueles estúpidos faraós do Egito, deixando aquelas abominações piramidais que ainda duram. Sinto haver no receio de meus amigos crenças ainda mais funestas, tipo: se falarmos da própria morte, estaremos atraindo-a para nós e abreviando nossos dias por aqui.

Para mim, tudo isso é uma grande bobagem. Talvez minhas andanças com os mestres samurais tenham mudado meus conceitos cristãos sobre a morte. Dominar a arte é encontrar a vida, pois ela começa quando perdemos o medo da morte. Eu era pouco mais do que um menino quando me confrontei com meu primeiro mestre. Infelizmente meu alzaimer levou o nome japonês dele, ou estou precisando diminuir a vodka. Era um jáponezão, quase não falava português e dizia chamar-se Mário, por ser mais fácil para nós. Era professor de Judô, mas não se preocupava quase nada com a luta em si, ensinava a Arte, pois era um Mestre. Minha mãe combinou as aulas com ele e saiu para me comprar um kimono, me deixando com aquele cara enorme que mais parecia um lutador de Sumô, vestido em um kimono velho e surrado. Sentei no tatami sob o olhar do mestre. Depois de um silêncio mortal de alguns minutos ele me disse de supetão: eu conheço você. Você é um mestre. Fiquei pasmo. De onde seria? Como um adolescente meio banana como eu poderia ser um mestre? Começamos a praticar, meu primeiro exercício e depois a primeira seqüência. Acho que me sai bem, mesmo sem kimono.

Minha mãe voltou com o kimono, entregou-me e foi embora. Pedi licença e fui ao vestiário vestir a coisa. Tirei minha roupa e comecei aquela dança ridícula de tentar vestir aquela geringonça estranha. Tirei e coloquei várias vezes, parecia haver algo errado, mas tinha vergonha de sair e perguntar ao mestre, na frente de todo mundo, como vestir aquilo. Percebi estar sendo observado, virei e quase morri de susto, era uma garota, uma japonesa e ela estava no vestiário me assistindo trocar de roupa, provavelmente me vira de cueca. Mas ela veio em minha direção com um espetacular auto controle do tipo gueixa e me ajudou com o kimono. Depois disse: agora está certo, pode voltar para sua aula. “Ah! Sou a Vilma , filha do Mário, seu professor. “

Voltei e sentei no tatami perto dos outros meninos. Não demorou e o Mário me chamou. Usou um menino mais velho que a maioria ali, provavelmente devia ser corinthiano, pois usava uma faixa preta prendendo o kimono branco e pediu para ele me mostrar uma passagem. Fez isso com a ajuda do Mário. Saiu do chão de um lado, passou sobre as costas do mestre, com suas costas e caiu do outro lado, deitado no tatami e dando um urro estranho. Em seguida me disse, para repetir o mesmo exercício, passando sobre as costas de meu colega. Hesitei, um pouco e o mestre me perguntou: “Que foi, está com medo de morrer?” Respondi de bate pronto: “Não tenho medo de morrer”. “Você é um mestre”. Repetiu. “Por que não tenho medo de morrer? Perguntei. “Sim, o fim de toda a arte é perder o medo da morte”. Disse o mestre.

Jesus era um samurai, sem nunca ter estado no Japão. Não temia a morte e sua teologia era uma grande apologia à vida. Para andar como ele andou, precisamos dominar a arte de viver, que começa com a perda do medo da morte.

2 thoughts on “O medo da morte

  1. Não temos medo da morte.
    Temos medo é de viver de maneira ridícula, muitas vezes anulando
    os nossos sonhos, e não termos tempo para mudar…

    para mim, mesmo que possa viver um único dia celebrando a vida, valerá a pena.

  2. Aprendemos em “nossas igrejas”,a ter medo da morte e do inferno com seu fogo e enxofre.Se não andarmos na linha é para lá que iremos.Assim ensinamos às pessoas sobre o dito cujo,pra que elas se convertam. E o medo da morte parece nos convencer a ter uma vida “reta”.Ora,se Jesus disse que tinha vindo para termos vida, e vida abundante, se cremos que a morte é somente a passagem para mais vida, porque temer? Obrigada.

    Lou,escrevi para você,através do e-mail da Dedé,pois havia esquecido o seu.Pode por favor pedir a ela para deixá-lo dar uma espiadinha lá?Talvez ela ainda não tenha visto ainda.

    No lado direito (de quem está olhando de frente), primeira coluna, logo abaixo das propagandas, há um tema: “Páginas da Gruta”. Nos links abaixo do tema há o “Lou Mello”. Clicando nele, você encontra meu E-mail e meus endereços na Web.

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