A Gruta do Lou

O lado esquerdo de Hitler

Quanto ao “O lado esquerdo de Hitler” Dia desses, o chanceler brasileiro Ernesto Araújo soltou uma frase ‎onde constou que “o Nazismo era de esquerda”. A mídia contrária ao governo Bolsonaro faz esforço enorme para encontrar erros, equívocos, etc., e esse detalhe lhes apresentou interessante em suas escaramuças. Para tanto, buscaram eruditos para sacramentar sua tese, afinal nazismo era de direita e pronto. Será? Nos tempos de ginásio Vocacional Oswaldo Aranha, nossa professora de história, D. Mariazinha foi categórica, comunismo e nazismo são totalitários. Aos poucos foram aparecendo, aqui e ali, quem diria: talvez assim não seja. Eu mesmo fiquei com a pulga atrás da orelha me coçando. Dando uma olhada no livro A Bacia das Almas (Paulo Brabo), compilação dos textos do blog com o mesmo nome, e pimba, achei esse texto (O lado esquerdo de Hitler) de 17/02/2006
autor: PAULO BRABO,
17 DE FEVEREIRO DE 2006

 

A discussão volta à tona periodicamente, mas que eu saiba não tão apaixonadamente – e nunca com tanto em jogo – quanto recentemente.

O nazismo de Adolf Hitler é normalmente associado à extrema direita, mas cada vez mais numerosos são os que levantam-se para salientar o que talvez pareça óbvio: Hitler não era afinal de contas socialista? Não faria mais sentido associá-lo à esquerda?

Hitler era esquerdista?

Trata-se de questão fundamental e acirradíssima porque o prêmio, naturalmente, é atordoante de tão valioso. O poder da imagem negativa de Hitler é tamanho que, se pudermos associá-lo inequivocamente ao lado do inimigo, não haverá trunfo ou argumento maior em favor do nosso modo de pensar.Dizer que Hitler era socialista supera e muito, em seu poder de argumentação, dizer-se que o Diabo é comunista ou que o Lado Negro da Força é o esquerdo. Ou vice-versa.

Hitler é o Mal, e o Mal só pode estar de um lado que não seja o nosso. Ganha quem conseguir demonstrar melhor o seu ponto.

O lado esquerdo de Hitler

Um artigo do economista Rodrigo Constantino, publicado em 2003 no sáite Mídia Sem Máscara, começa, por exemplo, da seguinte forma: Uma das maiores inversões de fatos já vistas na História diz respeito à denominação do posicionamento no espectro político do regime de Hitler.

O artigo propõe-se a demonstrar inequivocamente o esquerdismo de Hitler, e começa propondo uma distinção entre direita e esquerda: “em termos práticos, esquerda quer dizer mais Estado, mais intervenção, menos mercado livre, fim dos direitos à propriedade privada, impostos abusivos, decisões arbitrárias de uma burocracia poderosa em prol da igualdade entre os homens”.

A principal característica de uma iniciativa socialista seria, nessa ótica, uma forte intervenção do Estado nos negócios da nação. O artigo põe-se a provar que o nazismo de Hitler encaixava-se nesse perfil:

As medidas tomadas por Hitler foram sempre coerentes com tal objetivo, e já em 1935 os empregos estavam sob controle exclusivo do governo, que se tornava a cada dia maior e mais poderoso. A indústria foi cartelizada, e colocada sob forte influência do Reich e seu Ministério de Economia, com poderes quase totalitários. O governo nacional-socialista proibiu também a posse de armas, direito básico de defesa individual. Tudo girava em torno do Estado e do Partido, assim como na ex-URSS dos bolcheviques.

E conclui:

Se o tamanho do Estado e sua interferência na vida do indivíduo são critérios aceitos para se definir esquerda e direita, Hitler e Stalin estão lado a lado na extrema esquerda, enquanto o capitalismo liberal encontra-se no lado oposto.

O lado direito de Hitler

A oposição de Hitler ao comunismo e ao pensamento de Marx, por outro lado, é ainda mais inequívoca e fácil de demonstrar. No exaltado Mein Kempf Hitler declarou guerra aberta ao comunismo, taxando-o de “doutrina judia”, muito antes que pudesse liderar (como de fato fez) o exército alemão contra a Rússia comunista de Stalin.

Algumas citações do próprio Hitler, a maior parte tiradas do seu Minha Luta:

“O estado alemão está sendo gravemente atacado pelo marxismo.”

“Nos anos entre 1913 e 1914 expressei a convicção de que a questão do futuro da nação alemã dependia da destruição do marxismo.”

“Os marxistas marcharão com a democracia até que sejam bem-sucedidos em obter indiretamente, para seus propósitos criminosos, o apoio de até mesmo o mundo intelectual nacional, destinado por eles à extinção.”

“O marxismo em si planeja sistematicamente entregar o mundo nas mãos dos judeus.”

“Quando reconheci o Judeu como líder da democracia social, as escamas caíram-me dos olhos.”

“A doutrina judia do marxismo rejeita o princípio aristocrático da natureza e o substitui pelo eterno privilégio do poder e da força da massa dos números, e do seu peso morto.”

“A principal plataforma do programa do nazismo é abolir o conceito liberalista de indivíduo e o conceito de marxista de humanidade e substituí-lo pelo de comunidade nacional, enraizada no solo e unida pelos seus laços de sangue.”

§§§

Direitismo salgado

Parte essencial do problema está em que a palavra nazismo é, como se sabe, abreviação de “nacional-socialismo”. Com um nome desses, fica difícil concluir-se que o pensamento de Hitler não fosse pelo menos em parte socialista. E, como já foi salientado mais de uma vez, o programa de 25 pontos do partido nazista continha de fato elementos tradicionalmente associados aos socialistas, como a reforma agrária.

Mas é só até aqui que podemos nos deixar levar pelas associações da[s] palavra[s].

O socialismo do programa nazista era muito brando e, num sentido muito importante, apenas retórico. Seu “socialismo” era usado basicamente como arma de desapropriação contra os não-arianos – ou seja, todos que não pertenciam devidamente à Nação Alemã eram obrigados a dividir sua propriedade entre os verdadeiramente nacionais. E parava, basicamente, por aí.

Por outro lado, o discurso de Hitler era tão implacavelmente direitista e oposto aos ideais do comunismo que pôde ser aprovado e reutilizado quase na íntegra por gente como o direitíssimo Plínio Salgado, que liderou no Brasil o movimento integralista – e sustentava:

A direita é a união sagrada em torno da Bandeira da Pátria, das tradições nacionaes, é a virtude, é a castidade, é o heroísmo, é a religiosidade, é a delicadeza de sentimentos, é o pudor individual e collectivo, é o sacrifício, é a honra de uma nação.

Da ineficácia dos rótulos

Toda confusão quanto ao “extremo” definitivo assumido por Hitler no espectro político pode ser rastreada, na verdade, à ineficácia dos rótulos, quer digam respeito a inclinações políticas ou a nomes de partido.

A conclusão final sobre o assunto depende, na verdade, dos critérios que você escolhe para distinguir esquerda de direita, capitalistas de socialistas, ovelhas de bodes. O problema está em que rótulos e definições são, como tudo que é erguido com palavras, coisa maleável e sujeita a infinita manipulação. Ninguém o soube melhor do que Hitler.

No artigo de Roberto Constantino que mencionei acima, o autor escolhe definir um governo de esquerda como sendo caracterizado, basicamente, por uma forte intervenção do Estado.

Sua definição guia inevitavelmente a sua conclusão: pelo critério intervenção estatal, os nazistas foram de fato tão gente de esquerda quanto os stalinistas – ou quase.

O problema com esse argumento é que “forte intervenção do Estado” é definição tão geral que pode ser aplicada a praticamente qualquer governo mais ou menos totalitário, mesmo que não demonstre qualquer inclinação verdadeira para o socialismo. Equivaleria dizer que Luís XV era homem de esquerda, ou que Darth Vader era comunista.

Quem deseja, por outro lado, proteger a santidade do socialismo, argumenta em resposta (e com algum fundamento) que intervenção estatal não caracteriza de forma alguma um governo socialista. Na teoria, o que de fato caracteriza o socialismo é um modo de governo em que os trabalhadores detenham os meios de produção – coisa que não chegou nem perto de acontecer na Alemanha nazista, que se deliciava na iniciativa de até mesmo capitalistas mal intencionados e altruístas como Oskar Schindler.

O problema com essa definição de socialismo é que os trabalhadores não chegaram a “deter os meios de produção” nem mesmo na União Soviética comunista – que não passava, como se sabe, da ditadura de uma aristocracia sobre a massa esmagada dos trabalhadores.

Por esse segundo critério surpreendente, os próprios soviéticos nunca foram, tecnicamente, socialistas ou esquerdistas de verdade. E se Stalin não era comunista, quem terá sido? – algum enfezado pode perguntar. Por mais acurada que seja, portanto, essa minuciosa distinção não nos ajuda a separar as ovelhas dos bodes.

No fim das contas, é a sua definição que determina onde Hitler estava exatamente. São as suas simpatias que reescrevem a história. E, no fim das contas, todo governo totalitário saberá manipular os seus oponentes, reais ou imaginários, de forma a se manter.

Se pressionado, eu definiria esquerdista como quem demonstra alguma simpatia, mesmo que retórica, pelo pensamento de Marx. Essa definição joga imediatamente Hitler, nocauteado, para o lado oposto do ringue – mas mantém os soviéticos, em seu opróbrio, à minha esquerda.

Mas não me tome como exemplo, porque enxergo bem todas as maldições do capitalismo e acredito em muitas formas de socialismo que não são necessariamente marxistas – o que me torna mais um idealista do que um homem de centro.

Um anarquista, graças a Deus.

Paulo Brabo @saobrabo

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