A Gruta do Lou

O grande motivador

 

Como me ensinou meu amigo Brabo, procurei nos livros, em toda a estante que não é das menores, nas gavetas, arquivos, sob as mesas, cadeiras e pelo chão e não encontrei.

Estou em busca de motivação. Meus velhos truques pra driblar a angustia não estão fazendo efeito, talvez tenham perdido a validade.

Bom era o tempo de menino, quando colocávamos um alvo à nossa frente, por exemplo, um presente de natal ou algo assim. Isso redundava em motivação para o ano inteiro.

Meus pais eram do tipo não dado a paparicar os filhos. Talvez isso me tenha causado algum tipo de sentimento de desprezo ou autoimagem ruim.

Para conseguir viver razoavelmente equilibrado, devo ter desenvolvido mecanismos complicados a fim de prover a motivação necessária. Caso contrário, angustia, depressão, melancolia. Isso se não acontecesse nenhum imprevisto.

Lembro-me do acampamento da ACM, à beira da Represa Billings. Lutei duro para conseguir convencer os velhos a me deixarem participar.

Fui pra lá nas férias escolares do meio do ano, no inverno. O frio do lugar era cerca de dois ou três graus abaixo da temperatura da cidade. Mas até o dia da partida vivi um êxtase indescritível.

A experiência valeu cada centavo pago e não faço a menor ideia de quanto tenha sido. Participei de cada atividade como se fosse minha última semana de vida.

Não sei como não tive um ataque agudo e mortal do coração. Com isso faturei quase todos os prêmios dados pelo melhor desempenho, naquele ano.

Na volta, poder narrar minha experiência ao pessoal da Rua Sebastião Andrade Bonani, aos colegas do Ginásio Vocacional e à turma da ACM que não teve a oportunidade foi outro momento extraordinário, em vários sentidos.

Minha autoestima disparou, passei de ano com o pé nas costas e com meus professores e demais algozes me tratando a pão-de-ló.

Sempre foi assim, uma grande motivação igual a um grande desempenho. Com isso virei um mago da motivação, até dei cursos sobre o tema, na igreja, em escolas e em empresas. Escrevi bastante a respeito e participei de entrevista na TV.

Entretanto, do ano passado para cá não consegui me motivar, mais. Acontecimentos como Natal e Acampamentos de Férias já não têm mais esse poder em mim.

Entre meus sábios ensinamentos sobre motivar, costumava mostrar o valor dos três principais tipos de motivação: recompensa material, recompensa sentimental e motivação interior.

Acho que todos conhecem aquela história da cenoura pendurada na frente do burro puxador de carroça.

Pessoas capazes de acreditar com todo seu ser em Deus, na vida ou sua filosofia de vida costumam ser altamente motivadas. Percebo então o quão distante estou de me motivar outra vez, ainda que seja ao mínimo.

Continuo certo da existência de Deus, só não acredito mais em minha própria teologia. A vida não tem sido muito legal comigo, ultimamente, e não sou muito chegado ao envolvimento profundo com algum tipo de filosofia ou culto humanista.

Sei que parece, mas não estou escrevendo meu epitáfio, movido por alguma grande depressão. O diagnóstico de depressão crônica me foi dado há quase trinta anos. Faz parte do quadro. Mas não sou niilista com risco de suicídio.

Uma das minhas especialidades é encontrar prazer no sofrimento e alguém já disse que provoco essas situações para obter êxtase. Claro que não concordo com essa bobagem. Detesto sofrer, apesar do masoquismo, e amo sentir prazer verdadeiro.

Tenho lido gente mais velha imaginando ser esse um caminho inteligente para encontrar alguém capaz de me mostrar alguma saída não conhecida por mim e com o poder de me trazer de volta ao viver equilibrado.

Cheguei a um ponto no qual não sou mais capaz de me motivar, nem sei como seria isso. Tudo à minha volta tornou-se trivial, sem sabor ou cheiro. Peço a Deus, todos os dias, para abençoar aos que não consigo abençoar, entre eles, eu mesmo. Também desejo aos meus malfeitores o perdão divino e, igualmente, me incluo nessa lista.

Não sei direito o que me resta, mas estou certo de seguir caminhando, seja como for.

Palavras do Grande Motivador

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