A Gruta do Lou

O Grande Chefe

Dale W. Kietzman

Dia desses recebi um desses spams compulsórios de cada dia e, embora não tenha me detido muito nele, chamou minha atenção a proposta nele contida. Uma empresa estava oferecendo serviços capazes de bloquear programas inconvenientes ao “bom” andamento do trabalho tais como: MSN, Skype, Redes Sociais, Twitter, blogs, games, jogos, etc. Na mesma hora, lembrei do Hernan, um amigo freqüente no blog, em nosso primeiro ano de atividades, mas em seu trabalho, no Banco do Brasil, era proibido de utilizar tais programas, pois eles estavam todos bloqueados e a insistência poderia gerar retaliações chefisticas. Parece que o chefe dele era um sádico nesse item e andava a caça de quem pudesse tragar. Isso o fez desistir da blogosfera.

Alguns dos meus clientes de informática e micro computação, uma atividade que não consigo deixar de exercer,  solicitaram tal serviço várias vezes. Um deles, um escritório de advocacia, onde há dois computadores e um jovem cheio de testosterona, naquela idade crítica, fez esse pedido diversas vezes. Nunca atendi, a não ser lhe mostrar a janela “histórico”, onde poderia conferir os meandros explorados pelo mancebo, caso ele não tivesse o cuidado e a prudência de apagar depois de pecar. Claro que me arrependi dessa atitude. Geralmente, respondo a eles que não faço esse tipo de serviço por razões éticas.

Sabe, há um componente sadomasoquista nessa história, ou algo assim. Esses chefes devem ter sérios problemas, disfunções físicas e psicológicas em várias áreas. Não muito tempo atrás, fui a uma igreja aqui em Sorocaba, em um domingo à noite, para vender livros e bíblias, aquela abominação conhecida como “mercadejar a palavra de Deus”. Obrigado a assistir o culto, pois meus interesses só poderiam se consumar após aquele horror, fui obrigado a ouvir aquele idiota dizer, a aquelas duas centenas de pessoas, um monte de asneiras do tipo, o diabo usa Prada, digo, internet.

Fico imaginando se nossos dias de missão fossem agora. O que faria o Roberto em relação a isso? Certamente ele sairia atrás das bruxas, ou melhor, desses programas perversos capazes de dar algum refrigério aos escravos, digo, empregados da firma, ou melhor, missão.

Em um dos episódios de ER (Emergency) o chefe do hospital tenta fazer um interurbano do telefone da recepção do hospital e descobre que há um bloqueio para impedir interurbanos ali. Então faz um pequeno discurso em tom elevado: “Quem foi o idiota que bloqueou esses telefones para interurbanos? (Fora o chefe subalterno dele na emergência) As pessoas ganham um salário miserável aqui e ainda não têm, se quer, o direito de fazer ligações interurbanos aos seus familiares e amigos? Só um cretino poderia fazer algo semelhante.”

Nesse universo, não posso deixar de lembrar do Dale Kietzman. Ele era o vice presidente para a América Latina, na missão. O cara viajava doze horas e vinha direto do aeroporto para o escritório. Não era um menino, já naquela época. Trazia um livro para o Roberto, que sempre acabava sendo repassado para mim, sem ser lido, óbvio, e depois sentava-se na minha frente, abria sua pasta e ia tirando um monte de artigos e textos relacionados ao meu trabalho. Era um precioso material de estudo, uma seqüência ao meu aprendizado relacionado ao trabalho de desenvolvimento, que entre nós, chamávamos propaganda e marketing. Ele vinha ao Brasil a cada dois meses, e sempre me pedia para fazer uma exposição sobre o material entregue na vez anterior. Eu o esperava ansiosamente. Aquele cara me fez crescer, não só em desenvolvimento e administração, mas como homem, como pai, esposo e, sobretudo, como cristão. Jamais, ele pensaria nesses bloqueios infames e perversos.

Quando fui chamado a ocupar algum lugar onde era necessário influenciar pessoas,  meu referencial, claro, era o Dale. Esse cara foi meu grande chefe.

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10 thoughts on “O Grande Chefe

  1. Na PMSP os computadores são bloqueados, e acabam por nos bloquear o acesso a coisas importantes até com relação ao trabalho, o que é uma pena…

    Mas os chefes não entendem que um funcionário que tem acesso às coisas que acha necessárias e interessantes acaba por ser mais feliz e, consequentemente, mais produtivo…

    O Nelson Rodrigues chamava as pessoas com essas idéias brilhantes (bloqueadores) de imbecis necessários. Se me permite um aprimoramento, os chamaria de imbecis desnecessários.

  2. Agora vou falar como pentecostal: os escritórios, repartições e afins, são os locais mais bombardeados por satanás. É incrível, parece que ali os demônios atuam com toda a liberdade, e deve haver uma competição entre eles (os demônios) pra ver quem inferniza mais.

    Sem dúvida! Agora, em caso de necessidade, sempre haverá os puxa-sacos de demônios, mil vezes piores dos que os próprios.

  3. Ainda que bem que não te acharam por aqui no meu. Senão cortam nossas cabeças..rsrs

    A maioria dos sites são bloqueados, e não posso acessar meu blog, o que é uma lástima.

    Será que o Dale não se curvou aos bloqueios de sistema para “melhor” desempenho do trabalho??

    O Dale jamais se curvaria a Mamon. Ele é dos nossos. Em nosso tempo, diante das bestas que se apresentavam, ele dizia: “esses caras não entendem nada de propaganda.” Meu, negócio aí é plantar soja.

  4. Coisas dos nossos sistemas…lembra quando filosofia saiu do
    currículo escolar?Filosofia ajuda na formação do pensamento,
    e isso pode ser perigoso…

    Agora, com relação ao controle à Rede, acredito que é para manter
    as rédeas curtas, controlar a produtividade, pois o contrário afe-
    taria os cálculos da mais-valia…pensar, ser criativo,informar-se? Isso é para depois do expediente…

    Pode ser, mas o mais provável seja mesmo aquele ranso de economia de pecado onde tudo que não está na cartilha do chefe é pecado. Ele é dono do funcionário durante oito horas/dia e decide o que o infeliz fará ou não durante esse tempo. E algo com cara de lazer, nem pensar.

  5. Grande Herman!!! Onde foi parar??? Ele é um cara que sabia das coisas, apesar de morar mais no interior do que nós. Sinto falta dele… snif.

    Pois é. Melhor nós denunciarmos o trabalho escravo no Banco do Brasil para salvá-lo.

  6. Exato, LH. Mas lá onde não existem bloqueadores na rede, pode existir outro software mais poderoso em uma rede ainda mais entrelaçada: tipo, a “culpa” que o empregado é levado a auto-infringir por “desviar” a atenção daquilo que é “realmente necessário”, isto é, uma recauchutada no discurso monástico do “ora et labora”, nada de “ledere”, nem de “audire”, nem de “rire”, nem de “deixare comentariorum” em blogs subversivos.

    Esse último item é um grande ultraje a rigor.

  7. Nossa alegria está em que Deus nos proporciona em meio a tantas turbulências, pessoas que nos são preciosas, The Big Bosses, The big Teachers, etc… que estão acima de coisas que fazem parte da mesquinharia do mundo dos mortais, sendo eles mesmos pura e simplesmente mortais, mesmo parecendo anjos…

    Não sei quanto Deus tem a ver com isso, mas é assim mesmo. Pessoas que parecem anjos, ou que tiram a jornada de anjos.

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