A Gruta do Lou

O dia da crucificação

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Sexta-feira

“O dia da crucificação de Jesus é o dia mais solene do ano cristão. No cristianismo grego ele chamado de ‘Grande Sexta-feira’; nas línguas romanas, de ‘Sexta-feira Santa’; em alemão de ‘Sexta-feira triste’. No mundo de fala inglesa é a ‘Boa Sexta-feira’. A origem da designação inglesa é incerta; pode derivar de ‘God’s Friday’ (Boa Sexta-feira). De qualquer modo, pode ter origem no alemão , onde o dia também era conhecido como Gottes Freitag (Sexta-feira de Deus) e como Gute Freitag (Boa Sexta-feira)”. Marcus J. Borg e John Dominic Crossan

Foremost historical Jesus scholar of our time,...
Foremost historical Jesus scholar of our time, John Dominic Crossan @ Bellarmine University lecture. (Photo credit: Wikipedia)

em A Última Semana.

Há um ano, no dia 19 de abril, uma sexta-feira, iniciamos o dia lá no apartamento da Tia Luzia, mãe do Pr. Neto, onde estivemos hospedados nos últimos três dias daquele período separado para mais uma cirurgia cardíaca de nosso filho mais novo.

Se bem me lembro, chegamos no hospital por volta das 11 horas, e não havia qualquer mudança no status clínico do Thomas: “Estado Grave”.

Na visita da noite anterior, levei minha Bíblia e usei meus poderes pastorais para cumprir ordenanças bíblicas, no caso, orar pelos enfermos. Impus as mãos sobre meu filho e clamei pela cura dele. Aproveitando o ensejo, da mesma forma orei pelo Sr. Irineu, vizinho de cortina do Tho, em coma há vários dias.

Ás 12:30hs., sem sobressaltos, fomos encaminhados para nossa visita ao nosso filho caçula. Depois de vários dias em que mal conseguíamos conversar com ele, por estar quase sempre sedado, o encontramos bem desperto e alerta, apesar dos tubos, diálises e uma cacetada de fios ligados nele.

Era o décimo dia de UTI e ainda não haviam retirado o último dreno, ordem que foi dada pelo cirurgião no terceiro dia de UTI, na minha presença.

O casal de cirurgiões havia viajado com destino incerto, há dois dias. Uns diziam Recife e/ou outros Florianópolis, isso não importa. Importante era eles não terem abandonado um paciente tão grave naquele momento.

Comemorar o aniversário em mais uma Lua de Mel, ou algo do tipo, pareceu-lhes mais interessante. Embora a desculpa fosse algum evento de viés médico da comunidade cardiológica. Na minha opinião, negligência no sentido mais literal e irresponsável possível.

Jesus estava em viagem missionária quando recebeu a notícia da morte de Lázaro. Diante disso, resolveu rumar para a cidade onde a família residia e ao chegar foi recebido por Maria, irmão de Martha, as duas irmãs de Lázaro, e ela não lhe poupou e foi logo lhe culpando: “Se estivesses aqui, nada disso teria acontecido”.

Não posso e não pude dizer a mesma coisa porque os doutores, mesmo sendo solicitados com veemência pelos outros médicos (quase todos residentes) para voltarem em socorro do Thomas, não atenderam aos apelos. Enfim, eles são só médicos e humanos, não deuses, embora hajam como se assim fossem.

Provavelmente deram a coisa como finda ou estavam sem grana para pegar um voo não programado na excursão deles, sabe-se lá. Se você for crédulo o bastante para acreditar numa bobagem dessas, pois sim.

Mas naquele dia, além da surpresa dele não estar sedado, ninguém nos mandou sair. Foi uma visita sem fim. Mal sabíamos que seria a última, não daquela internação, mas das nossas vidas. Fomos ficando, conversando, rimos até.

Em determinado momento, o Thomas perguntou para a Dedé: “Eu vou morrer?” Ela não entendeu, pois ele estava entubado e a enfermeira tentou distraí-la, pois percebera a pergunta. Mas eu entendi e me aproximei dele. Segurei a mão dele e disse-lhe: “Não aceite isso, de forma alguma. A vida lhe pertence e só você pode decidir isso, além de Deus”. Imaginei que o pessoal havia comentado algo perto dele, sobre a gravidade do quadro dele.

A Dedé voltou, sem perceber o que eu havia dito. Enquanto isso, fui conversar com o plantonista sobre a volta do doutor, prevista até aquele momento.

Dentro da nossa proposta, de refletir sobre o tempo da Quaresma, tudo isso se torna altamente relevante. Me parece bem claro o quanto as convenções, os mitos e práticas dogmáticas aplicáveis a esse tempo tornam-se irrelevantes ou até, tolices supersticiosas. Esse período nos traz de volta ao momento mais crítico da história da humanidade, no relato cristão.

Para Deus, que perdeu seu único e amado filho nessa época e para mim, que perdi meu filho igualmente amado, o mais novo dos três, esse tempo é, nada menos, do que uma grande agonia. Toda a preparação que seguiu-se naqueles dias pelo pessoal liderado por Jesus visava seu martírio.

Nós não tínhamos essa consciência. Nossa expectativa era ver nosso filho sair dali para mais um período de vida, apesar de sua cardiopatia. Uns dez anos mais de vida, ao menos. Nos círculos da cardiologia invasiva, estima-se dez anos mais de ganho para cada procedimento que dá certo.

Jesus deu sua vida por toda a humanidade, reza o dogma cristão do sacrifício e ressurreição. Nosso filho, foi perdido, assim como Jó perdeu os dele. Puro capricho do diabo em sua competição insana contra Deus. Jó foi muitíssimo mais digno que eu, pois lamentou mas nunca perdeu a fé e a esperança em Deus.

Enquanto eu, sucumbi nas perguntas sem respostas, sobretudo naquela: Por que meu filho, Senhor? Logo eu que tanto lhe dei e/ou lhe dediquei. Incrível a minha soberba arrogante, até nessas horas. Mas sobra algum entendimento mais profundo sobre a Quaresma, a preparação para o sacrifício, e a própria consumação, evidentemente.

Escrevo aqui, embora seria oportuno discursar em algum lugar sobre tudo isso. Mas aproveitar-se-ia pouco nesse caso, no máximo, uma manipulação básica das comunidades em favor de algum adensamento de última hora, sob o codinome de avivamento.

Lembro daquele caso em que os fiéis de uma igreja saíram em um feriado prolongado para fazer retiro em um sítio. Todos os que participaram foram unânimes em declarar que tudo fora uma grande bênção enquanto estiveram lá. Entretanto, na volta para casa ocorreu um acidente. Um caminhão na contramão chocou-se contra o carro de uma das famílias participantes do retiro e um ferro soltou-se e matou o filho do casal, na hora.

Na semana seguinte, a família toda estava presente ao culto de domingo. O pastor, resignado, ofereceu a palavra ao pai do menino que perdera a vida. O homem levantou e caminhou na direção do púlpito. Lá, leu a passagem do sacrifico abortado de Isaque por seu pai Abraão e terminou completando:

“Aqui Deus houve por bem poupar a vida de Isaque. No nosso caso, Deus, segundo seus próprios interesses, aos quais não somos capazes de alcançar, resolveu consumar o sacrifício, assim como fez com o próprio filho. No mínimo, uma grande honra”.

Desceu do púlpito enquanto a Igreja inteira chorava copiosamente.

A Quaresma, mais do que um rito cristão, prepara-nos para algo muito maior. Incompreensível, aliás, se quisermos entende-la com nossa mente finita, apenas. Aquele pai foi escolhido a dedo devido sua espiritualidade avançada, menor apenas do que a do próprio Criador, mas infinitamente superior à dos seus irmãos de igreja e retiros espirituais.

Achamos que Cristo morreu por nossos pecados, naquela sexta feira maldita. Mas isso não era necessário. Deus já tinha toda a disposição de perdoar os pecados da humanidade e nenhuma para praticar algum tipo de sacrifício, muito menos com seu filho servindo a esse tipo de ritual macabro. Muito mais provável que o significado esteja muito além de uma bobagem igual a essa que vem sendo cultuada há alguns milênios por todos nós.

Naquela noite, não houve visita, mas a imolação moderna de nosso filho. Não presenciamos, pois éramos só os pais do Thomas, nada relevante para esses seres desprovidos de qualquer senso humanitário, quanto mais algum resquício religioso, seja qual for. Só fomos chamados para receber a notícia mais horrível que qualquer mãe ou pai poderia receber: Seu filho faleceu.

Coincidentemente, o Sr. Irineu, o outro enfermo por quem orei, se foi no mesmo dia e horário. Definitivamente, não fui ungido com esse dom, quando de minha ordenação, não reconhecida pela esposa do pastor que me ordenou.

O que não é nenhuma vantagem, uma vez que eu também não reconheço a ordenação dela ao ministério pastoral. Para mim ela não passa de uma missionária, o mesmo que ela pensa de mim. Atualmente, não faço jus nem a essa designação (missionário) se quiserem saber a verdade.

Hoje lhes diria que meu filho, além de perder sua vida para um mal físico de altíssimo risco, pois pouco se conhece a respeito dele, embora se pense bem menos do que isso, deixou de realizar sonhos lindos de generosidade e de realizações doces e inofensivas, para sempre.

Na questão espiritual, abriu um tremendo caminho à nossa frente no sentido de percebermos que os desígnios de Deus são imensamente mais ambiciosos do que temos imaginado e/ou aprendido até aqui. Deus teria muito mais entre o céu e a terra do que a nossa vã filosofia religiosa poderia supor. Coisas relacionadas à vida eterna, vitórias sobre enfermidades e tristezas, ou mesmo a grande paz imaginada por Deus para esse mundo, como bem profetizou o evangelista ao chamar Jesus de “O Príncipe da Paz”.

Nesses pequenos príncipes feito o nosso Thomas, Deus mantém vivo o sonho de trazer paz completa a esse mundo, para o horror daqueles que vivem por um mundo de divisões e guerras, correndo atrás do vento e de frivolidades, como política e religião.

Meu filho Thomas foi um príncipe da paz enquanto caminhou por esse planeta. Infinitamente menor do que Jesus de Nazaré foi, entre nós, mas ainda assim, um príncipe.

Um beijo a todos vocês.

lousign


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