A Gruta do Lou

O desempregado recalcitrante

Desde que me vi sem trabalho, apesar de não desejar essa situação e viver como aquelas empregadas que ninguém contrata, afinal empregada que bate à nossa porta não pode ser boa coisa e, no meu caso, batendo de site em site, pois sou todo informatizadinho, presenciei a minha credibilidade moral e intelectual escorrendo ladeira abaixo e era inevitável que isso atingisse aqueles que mais amo, inclusive.

A bíblia já havia me avisado desse perigo. Quem sabe, na próxima encarnação, se houver, sigo mais os conselhos bíblicos.

O mais aterrorizador é continuar sem ver nenhuma perspectiva no horizonte, nem a longo e muito menos em curto prazo. E mais, ainda não estou preparado para assumir um emprego qualquer, só para dirimir a desconfiança geral de que seja um vagabundo inveterado qualquer. Picareta intelectual sim, vagabundo jamais.

Ainda sinto as dores provocadas por alguns “amigos” que me aconselharam soluções que eu jamais seria capaz de imaginar sem a ajuda deles, como um emprego de garçom, porteiro de prédio, corretor de imóveis, motorista de taxi, pastor de igreja neopentecostal, copeiro de lanchonete de estação rodoviária, ou abrir um comercio próprio como me recomendou o venerável Pr Jonathan Santos (Pai) do alto de sua incomensurável sabedoria, do tipo lanchonete (boteco); e vai por aí.

A lista é tão grande que nem me lembro da metade dela, mais. Pior é que eu e meus familiares até tentamos uma ou outra dessas opções, para nos frustrarmos ainda mais, diante de nossa incapacidade para essas honoráveis e respeitáveis funções.

De mais a mais, sou um grande empresário, tenho uma empresa que tem até site, a saber a “LHM-6 Consultoria” (nome atual). Ela funciona provisoriamente aqui em casa, até que as vacas engordem e eu possa montá-la na Av. Paulista, na Av. Luiz Carlos Berrine, em São Paulo, capital ou em algum desses lugares menos nobres, nem por isso, menos importantes.

Como diria minha avó, “quem nasceu para tostão, nunca será um vintém”. Não sou capaz de realizar nenhum desses trabalhos citados e um monte de outros. Meu negócio é Desenvolvimento (Comunicação e Captação de Recursos) em organizações sem fins lucrativas cristãs, Educação Física e microcomputadores, desses que já entraram em extinção. No máximo, poderia arriscar uma coordenação de porra nenhuma ou crítico de carteirinha. Fora disso sou zero a esquerda.

Tem mais, já passei dos sessenta, sou ranheta, irônico e sarcástico. Estou mais para o pessimismo, como se pode notar e não brinco em serviço. Embora todo mundo que tenha trabalhado comigo, menos os petistas obvio, afirmavam que eu tinha o poder de deixar o clima de trabalho melhor. Isso me faz lembrar do Cinésio, nos tempos do Força Para Viver, lá na Germine do Volney, que agora é cidadão Paratiense. Aquele cara me fez um dos melhores elogios que já recebi na vida.

No dia em que me despedi ele disse: “, você não pode ir embora, pois é o responsável pela paz de espírito e cordialidade em que estamos vivendo aqui”. Achei que era um exagero dele, claro, mas o elogio repetiu-se noutras oportunidades e por parte de outras pessoas e acabei me envaidecendo para sempre.

Às vezes tenho a impressão que forças ocultas não querem ver-me trabalhando e curtem muito me assistir dando nó em pingo d’´água, diariamente, para arrumar o pão nosso de cada dia com maior intensidade nos fins de semana. Fora situações críticas como a que se avizinha, falo da cirurgia do Thomas que deverá acontecer em São Paulo. Eles devem estar apostando a rodo que vou me ferrar todo durante esse tempo. Tudo bem, quem não pode se ferrar é meu filho.

Pior de tudo é falar disso e despertar nas pessoas algo mais do que vontade de orar e/ou torcer por mim. Você não acreditará, mas alguns tentam me dar ideias, como se eu já não as tivesse em quantidade insuportável.

Pior é agradecê-los por nada e perder o amigo (a), mais um que sairá a campo para testemunhar a favor do inimigo que me acusa de vagau (eufemismo de vagabundo), há anos. Estive no INSS, não uma, mas duas vezes, para ouvir a mesma ladainha, que não posso me aposentar antes de sessenta e cinco anos e, quando isso acontecer, só terei direito a um salário mínimo vigente, por causa do tempo trabalhado sem recolhimento (mais de trinta anos de trabalho).

Ao todo, eu trabalhei uns quarenta anos, aqui e ali. Desses só daria para recuperar o tempo com minha empresa (desde 1991), mas eu não recolhi meu próprio INSS como deveria e alguns contadores esqueceram-se de recolher o tributo, algumas vezes, embora tenham recebido a grana. Talvez conseguisse fazer um acordo para pagar o atrasado, pelo resto da vida. Mas não sei se o resultado valeria a pena.

Enfim, sou o tipo do cara que precisaria de um milagre, se milagres existissem, fora do âmbito das enfermidades de nossos entes queridos, claro. Não que eles não tenham existido, apenas entraram em extinção, devido a falta de fé dos cristãos.

Jesus até se esforçou em casos como o meu. Seus discípulos experimentavam as mesmas dúvidas trabalhistas que eu. Então o mestre lhes deu a receita pronta de uma oração tipo “tiro-e-queda” para essas dificuldades, chamada de Pai Nosso. É sim, você nunca rezou essa? Ela diz, às tantas, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoa as nossas dívidas…, não nos deixe cair em tentação e livra-nos do mal”. Tudo a ver com meu problema de trabalho”.

Noutra oportunidade em que seus discípulos estavam matando cachorro a grito e precisavam pagar o imposto de renda, o mestre os mandou pescar, avisando que encontrariam dentro do primeiro peixe que pegassem a grana para pagar o imposto deles todos, inclusive o do Mestre, que com isso, livrou-se e uma pesca cansativa. E foi batata, a grana estava lá mesmo.

Em outra ainda, quando seus discípulos voltaram de uma pescaria sem pegar chongas, pensando o que iriam dizer lá em casa, para evitar mais uma noite sem sexo, rock and roll e drogas, Jesus os mandou voltar para o mar e lançar de novo as redes. Como eles não tinham coragem de contrariá-lo, assentiram com uma ou outra ironia, do tipo: “Tendo lançado nossas redes a noite inteira, não pegamos nada, mas sob a tua palavra o faremos”. E não é que pegaram tanto que nem podiam transportar.

Só comigo que isso não acontece.


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