A Gruta do Lou

O Debate

9º Dia do Jejum, pró abertura dos Comentários na Bacia das Almas, completado. As crianças não estão entendendo o propósito. Ontem à noite foram jantar no vizinho. –>>

Por força de cláusulas contratuais fiquei impedido de publicar qualquer nota antes do evento e obrigado a postar algo, após a querela.

Bom gente, fui convidado a participar de um debate, na última sexta-feira, 14 de setembro, às 19 horas, com o Pastor Joaquim Manuel de Almeida. Ele é ex-pastor da Igreja Maná, dirigida pelo Apóstolo Jorge Tadeus e autor do livro “Seitas, crenças e heresias”, um livro com dezoito páginas (o meu só tem oito), onde ele espinafra alguns santos conhecidos, entre eles, Cipriano e Agostinho, além de orixas, pais de santo, macumbeiros, espíritas, psicólogos, advogados, assistentes sociais, etc…

O Debate, se é que se pode chamar aquilo de debate, aconteceu no Shopping Center Azaré, (um conjunto de oito lojas, construídas em um terreno de doze metros de frente, sendo quatro lojas do lado direito e quatro do lado esquerdo, com um corredor no meio), no auditório Sala Borges (que não é o escritor e sim um antigo centro-avante do Azareense, conforme me informaram minhas fontes de Azaré) e que na verdade, nada mais é do que o espaço da loja da Livraria e Papelaria Santa Rita de Cássia, com as gôndolas encostadas nas paredes e um total de dezesseis cadeiras de plástico acrescentadas, bem juntinhas.

Quem lembrou do meu nome, claro, foi o Pastor Wagnor. Talvez sentindo um certo arrependimento por causa daquele insucesso causado por D. Elizabeth (a flatulenta) ele me arrumou essa nova parada, digo, oportunidade intelectual. Meu nome foi aceito, sem maiores restrições, devido à minha popularidade na cidade. Fiz uma série de exigências e eles cumpriram todas à risca (tais como o aluguel de um carro e o dinheiro depositado em minha conta adiantado).

Minha preparação constou da leitura prévia do livro do Pr. Joaquim (que me tomou, pelo menos, uns dez minutos) e uma análise em 48 laudas escritas em word.

Cheguei ao local do debate antes da hora e aproveitei para dar uma olhada nos livros da magna livraria. Demorou um pouco para localizar a única gôndola com livros. Pelo jeito, o estoque todo está em liquidação e, pela quantidade de pó, faz tempo. Enquanto examinava o conteúdo da caixa de papelão, ouvi um assobio baixo e virei, era o Pr. Joaquim. Até então, não me lembrava dele, mas assim que coloquei os olhos na figura, lembrei-me. Só o havia visto uma vez, em Portugal, na Convenção da Maná. O que mais me chamou a atenção é que ele estava de chinelo, na verdade, sandálias Havaianas. Fiquei perplexo e, imaginei na hora, a opinião do povo azareense que lotaria o auditório sobre a indumentária do pastor.

Foi aí que chegou o pessoal da mesa. No centro, sentou o Careca, um indivíduo de uns trinta anos, absolutamente careca. Ele indicou a ponta direita (dele) da mesa ao Pr. Joaquim, entre os dois sentou o Wagnor, a cadeira da ponta esquerda foi reservada para mim e entre eu e o careca sentou um senhor enorme, de uns cento e sessenta quilos e muito ofegante, como não pude deixar de observar. Fiquem tranqüilos, esse não tinha problema de retenção (ou vazamento) de gases, pelo menos eu não senti odor ou ouvi qualquer som estranho, enquanto estive ao lado dele. Percebi que não haviam microfones e muito menos copos com água, para tomarmos durante os trabalhos.

O Careca deu início e as cadeiras do auditório estavam repletas, nesse momento. Apresentou os componentes da mesa, mas não deu a palavra a nenhum de nós e, em seguida, passou a fazer as considerações desairosas sobre o livro do Joaquim que motivaram o debate. Acho que o cara falou mais de quarenta minutos. Eu fiquei na minha, apesar de um pouco entediado.

Quando o Careca terminou seu prólogo, passou a palavra ao Pr. Joaquim para a sua defesa. Imaginei que minha vez chegaria, depois dele e sosseguei. O português, que fala uma língua quase estranha, falou durante uma hora e vinte minutos, ininterruptamente. Enquanto isso, a platéia aguardou inquieta.

Logo após essa exposição, absolutamente lunática, diga-se de passagem, o Careca abriu espaço para perguntas dos presentes. Na primeira, saiu a maior discussão. O perguntador estava irado. Era o Pai de Santo da cidade e o Joaquim escreveu no livro que Pais de Santo são os próprios demônios. Só não chegaram as vias de fato porque a turma do deixa-disso interviu a tempo. Acho que cheguei a levar um tapa nas costas, nessa hora, mas não doeu muito.

A cena se repetiu a cada novo perguntador e ferveu quando uma senhora, acho que a chamaram de Norma ou algo assim, declarou todo seu apreço pelo Joaquim. O quebra-pau tornou-se generalizado, então. Tive que me proteger sob a mesa, onde encontrei o Wagnor e o gordinho. Ficamos ali, até os ânimos serenarem.

A polícia foi solicitada por alguém e os dois policiais que atenderam a ocorrência trataram de esvaziar o auditório, ocasião em que fomos intimados a sair debaixo da mesa e da sala, também. Já na rua, o Careca se aproximou de mim e desculpando-se por eu não ter tido a oportunidade de replicar ao Pastor Joaquim e convidou-me para um café na padaria mais próxima, que eu recusei prontamente, sem deixar de reparar em algumas marcas recentes em sua calota craniana. Não vi mais o Pastor Joaquim.

Wagnor e eu fomos tomar café juntos, em outra padaria mais adiante, óbvio, deixando a turba para trás. Em seguida, entrei no meu carro alugado e ganhei a Rodovia Castelo Branco, de volta à Sorocaba. Durante a viagem, fiquei imaginando como esse “debate” entraria em meu currículo e não pude deixar de lembrar como é bom fazer as coisas bem planejadas. Dessa vez, o prejuízo não foi meu, pelo menos. Ah! Eu pedi para o Wagnor entregar ao Joaquim a minha análise detalhada do livro.

Adoro debates.

PS: Como este post está inscrito sob a rubrica “Ficção” seria desnecessário lembrar que qualquer semelhança será mera coincidência. Certo? Ah! Não domino bem esse negócio de links. Caso algum te leve para um lugar estranho, não ligue, volte e retome sua leitura.

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morcego-12

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4 thoughts on “O Debate

  1. Alysson, você observou bem. Não sei porque, de uns tempos para cá, todas as mulheres com tendências extremamente conservadoras tem esse nome, para mim.

  2. Óóótimo, Lou. 😀

    Emocionado a nobilíssima vou lhe mandar um CD c/ a apostila Sonia arfando, digo, cantando. Segundo dizem, a audição continuada é tiro e queda(c/ trocadilho) p/ acabar c/ a prisão. De ventre, no caso. 🙂

    Big abraço e ótima semana.

  3. Eu queria tanto fazer algum comentário mas nao entendi quase (nada mesmo) nada 🙂
    Ai fica so um oi para fazer notar a presencia 🙂

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